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sábado, 20 de agosto de 2011

A Maldição da Lua Cheia



Sim, Teen Wolf. Exatamente isso que você, caro leitor, está pensando: lobisomens. Acreditem em mim, não fiquei muito mais animado do que você está neste momento em que começa a ler esta resenha. Apesar de assistir a muitas séries, tenho a tendência a no mínimo escolher, de longe, as bem recomendadas e bem criticadas. Não é o caso deste lançamento. Para falar a verdade esta série me foi totalmente contra-indicada sobre todos os aspectos. Por motivos puramente acadêmicos (uhum, Cláudia, senta lá) decidi sacrificar algumas horas do meu suado e idolatrado final de semana em pról do estudo mais aprofundado de séries metafísicas, em especial a esta que se dedica exclusivamente (pelo menos até agora) à mitologia do lobisomem - metade homem, metade lobo.


Antes de iniciar falando sobre o contexto e roteiro, devo colocar uma questão importantíssima: porque diabos lobisomens não suportam usar camisas/camisetas? Alguém aí sabe? Caso alguém possua esse tipo de informação ultra-confidencial, favor me contar nos comentários. Grato.


Questão colocada, vamos à série: o protagonista desta série é o jovem Scott McCall - interpretado pelo ator Tyler Posey, que cá pra nós não é grande coisa em termos de atuação (adendo 1: deve ter sido escolhido pela cara bonitinha, pois realmente está longe de ser bom ator em 90% do tempo) -, um garoto de 16 anos que é ignorado por quase todos em sua escola, apesar de fazer parte do time de Lacrosse da escola. Sim, Lacrosse é o esporte oficial desta série (ponto positivo pela originalidade, já que nunca sequer tinha visto alguém jogando). É verdade que Scott é reserva do time, e tem asma, mas mesmo assim não tem motivo para o isolamento do garoto. É um daqueles típicos adolescentes isolados pelos grupinhos populares. Voltando: seu único amigo é Stiles - interpretado por Dylan O'Brien que provavelmente é o ator mais importante para o desenrolar da série, pelo simples fato de fazer o personagem mais divertido que vi em anos, em qualquer série de TV - um jovem sarcástico, irônico e de língua afiada, que também é reserva do time de Lacrosse e é apaixonado desde a 3ª série pela líder de torcida popular que namora o capitão do time da escola (respectivamente: Holland Roden interpretando Lydia e Colton Haynes interpretando Jackson). Logo no começo do episódio vemos Scott e Stiles invadindo uma floresta em busca de um corpo que a polícia está procurando. Por ser filho do xerife, Stiles soube em primeira mão que apenas metade do corpo de uma garota havia sido encontrado. Eles buscam a outra metade apenas pelo prazer de poder olhar um cadáver de perto. Confusões à parte, se separam na floresta escura e Scott acaba sendo mordido por um animal enorme, que depois viemos a saber, não era um lobo comum.



A partir desse ponto, claro, começa o conflito da série. Com seus novos poderes de lobisomem, Scott vira titular do time de Lacrosse (com velocidade sobrehumana e agilidade de um predador, até eu) além de conseguir impressionar a nova garota que se mudou para a cidade e acaba de entrar na escola, chamada Alisson Argent (Crystal Reed). Com o passar dos dias, Scott percebe que não é tão fácil ser lobisomem quanto Jacob faz parecer: se sua pulsação sobe por algum motivo - raiva, excitação sexual, nervosismo, ansiedade - começa a se transformar quase que imediatamente, colocando as garrinhas de fora, com direito a orelhas pontudas, rosto peludo, caninos grandes e olhos amarelos. (Adendo 2: admito que a maquiagem da série não convence na transformação, além de alguns dos efeitos especiais ficarem meio estranhos). Enfim, para lidar com essas transformações fora de hora, contamos com Derek Hale (o nada mau Tyler Hoechlin, que melhora com o decorrer dos episódios), o lobisomem que encontra Scott na floresta nos primeiros dias e o protege de um trio de caçadores que tentavam eliminá-lo. Este grupo de caçadores de lobisomens é liderado por Argent (personagem sem primeiro nome que é interpretado pelo ótimo JR Bourne) ao qual posteriormente se junta Kate (a incrível e linda Jill Wagner), respectivamente o pai e a tia da mocinha por quem nosso protagonista lupino se apaixonou. É mole ou quer mais?



Essa é a salada mista na qual se desenvolve a história. Reclamações, elogios, lágrimas? Claro que a história possui inúmeras reviravoltas, mas como já reclamaram que costumo spoilear muito nas minhas resenhas, paro de contar sobre a história por aqui mesmo.


Agora você me pergunta, caro leitor, o motivo de eu fazer uma resenha sobre uma série confusa como essa, que nem ao menos tem bons efeitos e maquiagem no que diz respeito a transformações em lobisomem, que meio que é o tema central. E eu te respondo, a atuação dos coadjuvantes. Em especial as atuações de Dylan O'Brien e Melissa Ponzio (Melissa McCall, a mãe de Scott). Dylan como Stiles é genial. Traz uma quantia infinita de humor à série, assim como comentários sarcásticos e uma emoção que falta ao protagonista, sem falar nos diálogos divertidíssimos e extremamente afiados. Não me lembro de nos últimos anos ter visto personagem mais divertido em qualquer outra série. A série em si é engraçadíssima. Apesar de se classificar como "horror, drama, thriller and comedy", a série é totalmente voltada para a comédia, pelo menos em relação aos diálogos e relacionamentos entre os personagens adolescentes. Outra coisa que vale destacar é a ótima química entre Tyler Posey e Crystal Reed, como Scott e Alisson. É um caso tão puro de amor platônico (não unicamente, apesar de nunca chegarem a consumar a relação) que emociona e cria aquela pontinha de inveja nos espectadores solitários e solteiros (leia-se #foreveralone's). É um romance tão bonito que, como se diz na blogosfera, nos faz ter vontade de vomitar arco-íris.


Para finalizar, deixe-me dizer que apesar de não ser uma das melhores séries que já vi, mas também não é de longe a pior. Creio até que tem tudo para ser melhor que algumas séries pseudo-cults e bestas que tem por aí. E a segunda temporada já foi confirmada, além, claro, das seis indicaçõs ao Teen Choice Award. E devo dizer, fazia muito tempo que não passava tantas horas bem gastas rindo sozinho em frente à tela do meu computador por causa de um seriado. Então vamos aguardar a segunda temporada para ver se, de fato, a lua cheia é uma benção ou uma maldição.


Título original: "Teen Wolf - First Season". Ano: 2011. Nacionalidade: EUA. Criado por: Jeff Davis. Roteiro de: Jeff Davis, Monica Macer, Jeff Vlaming, Daniel Sinclair. Produzido por: Tim Andrew, Keith Birkfeld, Christopher Ottinger, Jeff Vlaming. Estrelando: Tyler Posey, Crystal Reed, Dylan O'Brien, Tyler Hoechlin, Rolland Hoden, Colton Raynes, com JR Bourne, Melissa Ponzio, Jill Wagner, Liden Ashby, Orny Adams e Ian Bohen. Número de episódios: 12. Resenha escrita por: Guilherme R. Aleixo. Nota: 7,0/10.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Fast Food






Capitão América: O Primeiro Vingador, reúne um grupo de elementos que fazem com que ele seja melhor do que deveria ser.



Normalmente o que ocorre é o contrário. A maioria dos filmes possui um conjunto de elementos que estão reúnidos de forma que dê tudo certo, e então dá tudo errado. E vez ou outra, com um pouco de sorte, filmes com todos os elementos para dar errado, dão curiosamente certo. São quimeras raras ambos, e não aparecem com muita frequência nas telas. Mas Capitão América: O Primeiro Vingador (Captai America: The First Avenger, EUA, 2011), é um desses raros acontecimentos.


A trama é simples. Steve Rogers (interpretado por Chris Evans) é um rapaz pequeno e franzino que é reprovado cinco vezes para alistar-se no exército dos Estados Unidos. Durante uma discussão com seu melhor amigo, que está indo para a guerra, ele é avistado por um cientista alemão em serviço nos EUA, chamado Abraham Erskine (o maravilhoso Stanley Tucci), que vê no rapaz o que os outros não conseguem: sua vontade de fazer o bem.


Dessa forma ele é admitido para participar de um programa chamado Projeto Renascimento, sob a tutela do Coronel Chester Phillips (Tommy Lee Jones). Rogers é então submetido a injeção de um soro que amplia não somente suas capacidades físicas, mas também suas qualidades interiras, e então bombardeado com radiação. Ao emergir de seu casulo metálico construído por Howard Stark, o pai de Tony Stark, ele está com um corpo talhado em mármore, que é a proporção de sua vontade de fazer o bem.


Imediatamente após seu 'renascimento', o laboratório é destruído em um ataque, e os membros do Exército dos Estados Unidos descobrem seu maior inimigo. Johann Schmidt (Hugo Weaving), também conhecido como 'Caveira Vermelha', um cientista da subdivisão de projetos científicos nazistas Hydra, que tem como plano dominar o mundo.


Durante os 124 minutos de duração do filme, os que realmente valem o ingresso são os primeiros 30. Após a incorporação de Rogers no Exército Americano, tudo o que se vê são perseguições implacáveis e sequências de explosões que enchem a tela durante uma hora e meia de filme. São de fato divertidas e não muito cansativas, como ocorreu no último filme de Harry Potter e da trilogia Transformers, mas todos os dilemas e relações humanas são jogadas fora para dar sequência ao duelo mortal entre Steve Rogers e o Caveira Vermelha.


Os efeitos especiais também são mais interessantes nos primeiros trinta minutos. Usando uma técnica semelhante ao de O Curioso caso de Benjamin Button, o rosto de Chris Evans foi colocado no corpo de um adolescente bem magrinho. E é nesse momento em que o filme ganha mais profundidade, especialmente quando Rogers está no carro ao lado da bela Peggy Carter (Hayley Atwell), e vai contado que ele apanhou naquele beco, e naquele outro ali, e atrás daquela lanchonete também.


A relação de Rogers com o doutor Erskine, é uma coisa quase paternal, providenciada por uma atuação sempre perfeita de Tucci. Tommy Lee Jones também providencia ótimos momentos de humor sarcástico, tão característico seu, que funciona bem para contrabalançar as intensas sequências de ação.


Talvez seja justamente a competência de seu elenco que faz com que Capitão América funcione melhor do que deveria funcionar. Mas nem tudo é elenco, obviamente. Mattew Vaugh teve um elenco soberbo no último X-Men e não soube o que fazer com ele. Mas o diretor Joe Johnston, conhecido por seus trabalhos em Jumanji, e Jurassic Park 3, providencia uma direção firme e bem amarrada, que também cria uma certa nostalgia dos antigos filmes de super-heróis que eram passados no cinema, e talvez até do espírito norte-americano que se perdeu e tornou-se enevoado e manchado de sangue conforme o passar dos anos.


É com esse conjunto de elementos, que Capitão América: O Primeiro Vingador torna-se muito melhor do que o esperado, e o melhor de uma leva de não muito boas adaptações de histórias em quadrinhos que encheram as telas dos cinemas este ano (salva-se Thor talvez). E essa é uma linha tênue que beira entre o aceitável e o ridículo. Mas é bom finalmente ter um filme no qual você não sai ofendido do cinema. E esse é crédito de uma perfeita escolha de elenco, principalmente de Evans no papel principal. Mas não se engane. Apesar de todas as suas qualidades, Capitão América ainda é como um 'Fast Food': gostoso, sim. Mas não muito nutritivo.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Tesouro dos Homens



Hellboy, O Exército Dourado,
é um mal exemplo de como a fantasia de alta qualidade se distorce sobre o manto comercialista norte-americano, mas possui qualidades que transcendem esses defeitos.

As estatísticas estão contra Guilhermo Del Toro. De sete filmes lançados nos Estados Unidos, 2 esquecíveis, um ousado, um porcaria, um mediano, uma obra prima (O Labirinto do Fauno) e Hellboy 2, O Exército Dourado (Hellboy II: The Golden Army, EUA, 2008). Este último merece um destaque maior.
Muito se esperava do diretor mexicano após o extraordinário sucesso comercial e crítico de sua fantasia adulta, O Labirinto do Fauno, que lhe rendeu a possibilidade de concorrer à estatueta do OSCAR de Melhor Roteiro e Filme Estrangeiro, com 'quase' injustas derrotas para o filme alemão, A Vida dos Outros.
Mas não foi o que aconteceu com a continuação do personagem de histórias em quadrinhos, Hellboy, quem ele havia adaptado já em um filme anterior. Hellboy (Ron Perlman), um demônio vermelho com uma mão de pedra foi incorporado ao nosso mundo pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. Entretanto, ao invés de servir seu propósito e trazer a destruição da humanidade, ele é criado por um professor (John Hurt) e desde então trabalha lado a lado com os humanos livrando nosso mundo dos perigos das criaturas mais fantásticas - e assustadoras - que habitam as entranhas de nossas metrópoles. Nesta sequência, ele e seus companheiros, sua namorada Liz Sherman (Selma Blair) capaz de transmutar-se em fogo, e o fiel companheiro Abe Sapien (Doug Jones) uma criatura aquática azul de aspecto curioso, capaz de ler mentes, devem enfrentar um príncipe do submundo chamado Nuada (Luke Gross) que, enfurecido com a raça humana por ter controlado o mundo acima do seu, decide entrar em guerra. Para tanto, ele desperatá o lendário Exército Dourado, uma compilação de máquinas andróides que uma vez postas em combate, jamais poderão ser detidas.
Com uma trama interessante, efeitos visuais fantásticos e um conceito artístico fora do comum, tudo parecia dar certo para o garoto vermelho. A maquiagem é absolutamente transcendental no cinema norte-americano, cortezia do incrível trabalho já feito em O Labirinto do Fauno. Neste episódio, Del Toro explora mais o conceito fantástico que ele mesmo criou, ousando construir criaturas fora do comum, e de extraordinária beleza, entre elas o próprio príncipe Nuada e sua irmã, Nuala, um Anjo da Morte assustador e um maravilhoso Elemental da Floresta. Todos que se tornaram adversários de um herói pouco merecedor: um vindo diretamente das profundezas do inferno.
A coisa começa a derrapar logo nos aspectos técnicos: a trilha sonora composta por Danny Elfman é tão passável que chega ao ponto de ser ofensiva, tamanho o espaço a ser explorado num filme com o conceito como este.
A partir daí o roteiro de Del Toro perde as rédeas a transforma o que poderia ser uma obra prima numa boba aventura fantástica com um herói pouco carismático e onde todos os protagonistas (sem exceção), tomam TODAS as decisões erradas durante a trama inteira.
Ainda que não necessariamente ruim, Hellboy II, O Exército Dourado, é excessivamente bobo, e deixa a impressão de que foi um tremendo desperdício de talento e perícia técnica que são jogadas fora durante sequências totalmente desnecessárias. A ação, quase constante, também é mal coreografada (ou pelo menos em um nível que lhe permitisse explorar todo o aspecto visual que o filme contém), as piadas ruim, a trilha sonora fraca, os atores principais, Ron Perlman no papel de Hellboy e Selma Blair no papel de Liz, sem o menor carisma ou química, enfim, uma pena. Ainda mais quando comparado ao seu predecessor, o fauno, para quem ele perde em todos os aspectos.
Entretanto, nem tudo são partículas negatívas voando ao redor do talento criativo de Del Toro. Existe uma mensagem mais profunda em Hellboy, que vai além do seu aspecto preservacionista, mais palpável e superficial:
O Príncipe Nuada luta por um motivo. Seu reino foi abandonado e esquecido, e seu povo condenado a viver nas profundezas das cidades que os humanos construiram. Mas não é nas profundezas das metrópoles que as criaturas como elfos, ogros, elementais ou anjos vivem. São nos calabouços das nossas próprias mentes e corações, cujos portões foram fechados à chave pelo chamado amadurecimento. E nesse aspecto o filme transmite muito bem a sua mensagem.



domingo, 31 de julho de 2011

Não é justo



Harry Potter e as Relíquias da Morte, pt II, releva uma questão curiosa: 'quando um filme baseado em um livro, consegue ser melhor que o próprio livro'?




É inegável que a saga criada por J.K. Rowling foi um dos maiores fenômenos culturais/literários de todos os tempos. Milhões, senão bilhões, de pessoas se emocionaram e acompanharam com aptidão e interesse incríveis, as aventuras e confusões do bruxinho Harry Potter e seus fiéis amigos, Rony e Hermione.
Com um total de sete livros e oito filmes (o último foi dividido em duas partes), é também de conhecimento comum, que esta foi uma das franquias mais rentáveis da história contemporânea, tanto na literatura quanto no cinema. É com esse pedigree, que o último filme - ou seja, a última apresentação - da saga de maior sucesso de todos os tempos, Harry Potter e as Relíquias da Morte parte II (Harry Potter and the deathly hollows part II, EUA, 2011), estreou como se esperava que deveria estrear: como um meteoro.
Em menos de dezenove dias, o último filme da série arrecadou 900 milhões de dólares, batendo o recorde que anteriormente era de Avatar , de James Cameron. Este, além de proporcionar aos fãs e espectadores em geral o épico final escrito por Rowling, é também uma das mais curiosas das produções.
Pra começar, é o final, obviamente. Em segundo lugar, o diretor, David Yates, é o único a dirigir mais de duas produções da franquia Harry Potter. Chris Columbus dirigiu os dois primeiros e Yates os quatro últimos, como se os produtores estivessem, durante os episódios três e quatro, testando novos diretores, até que este foi escalado para comandar A Ordem da Fênix.
Curioso também, pois analisando-se a diretor e seus trabalhos anteriores, nota-se um desnível de qualidade cinematográfica. Da bomba cataclísmica que foi o quinto episódio, para o sensacional sexto filme, o monótona mas não menos divertida primeira parte do último, para então a complicada segunda parte.
Seria impossível analisar completamente esta produção, sem compará-la com todas as outras, e por falta do conjunto espaço/tempo, isso não será possível. Mas existem pontos que valem a pena serem ressaltados.
A começar pelo elenco. Durante os últimos anos, a saga Harry Potter, tornou-se conhecida por contar com um dos mais espetaculares elencos de qualquer filme Hollywoodiano. Com os atores do maior calibre do Reino Unido, o que criou um problema inusitado. Isso acontece pois o elenco é dividido em duas metades muito distintas: os adultos que ganharam os papéis coadjuvantes como os professores, vilões, aliados e enfim, e as crianças que obtiveram os papéis principais.
Ainda que os jovens Rupert Grint (Rony) e Emma Watson (Hermione) tenham melhorado suas técnicas dramáticas, tanto eles quanto o péssimo Daniel Radcliffe no papel de Harry Potter, ficam apagados diante da sombra de atores como Alan Rickman, Michael Gambon, Ralph Fiennes, David Twelis, Jason Isaacs, Brandon Gleeson, Kenneth Branagh, Maggie Smith, Helena Bohman Carter, e lá vai fumaça.
Dessa forma, o espectador sente-se irritado com as péssimas atuações dos garotos, e conta os minutos para ver os adultos em ação.
Outro dos grandes problemas enfrentados pela série, foi a mudança do compositor das trilhas sonoras. John Williams, conhecido por ser recordista de indicações ao OSCAR e por criar temas incrivelmente memóraveis (Star Wars, Jurassic Park, E.T. e Indiana Jones, por exemplo), escreveu as músicas dos primeiros três filmes apenas. E embora seu último substituto, Alexandre Desplat seja um músico de grande calibre, sua melodia não se compara a das primeiras aventuras do bruxinho Harry.
Neste filme, o brilho é quase todo de Alan Rickman. Após ganhar o papel de Severo Snape que previamente era de Tim Roth, ele deitou e rolou nos últimos dez anos, interpretando o professor que todos temem ter. E neste último empreendimento, seus dotes Shakesperianos são levados a um novo nível. E como se ele já não fosse uma das melhores coisas de todos os filmes, neste ele pega-o, dobra-o, coloca-o no bolso, e o leva embora.
Ainda assim, seus companheiros de cena Maggie Smith (profª McGonagal) e Ralph Fiennes que se entregou de forma assustadora a um dos personagens mais malígnos de todos os tempos, Lord Voldemort, tiveram apresentações memoráveis.
Os efeitos especiais também alcançaram um novo patamar. Nesta história, Harry, Rony e Hermione voltam para Hogwarts com o objetivo de encontrar e destruir as últimas Relíquias da Morte, o que inevitavelmente culmina numa batalha de proporções bíblicas, dentro do portão da escola, gerando assim, incríveis cenas de ação, e momentos de pura poesia visual.
Com apenas 130 minutos, este é um dos menores filmes da série, mas pela imensa quantidade de explosões, luzes e barulhos, não parece assim. Harry Potter e as Relíquias da Morte, pt II, é uma experiência quase exaustiva, ainda que com momentos de humor bem colocados.
O que diabos deu errado então? Essa é uma pergunta que muitos - até mesmo os que se emocionaram com a atuação de Alan Rickman, e com as últimas cenas do filme - devem ter feito a si mesmos.
Pela primeira vez em muito tempo, um filme baseado em um livro foi melhor do que o próprio livro. Isso por que na sétima obra, a autora J.K. Rowling pareceu perder completamente sua linha de raciocínio e escreveu quase 700 páginas do que foi um dos piores - senão o pior - livros da série.
O final apático e raso, deixou muitos com o coração partido. Mas o problema se estende a cavernas e calabouços mais profundos dentro da mente da autora. E que são difíceis de explicar, sem dirigirem-se à mais brutal franqueza.
O maior problema da série Harry Potter, é o próprio Harry Potter. Com um personagem fraco, infantil, pouco inteligente e dependente de todos os outros personagens, fica difícil torcer por ele, ainda mais quando todos os outros personagens que nós verdadeiramente amamos, perdem suas vidas para salvá-lo.
Harry lembra em muitos aspectos, o personagem Shinji, do anime Evangelion. Rapaz mirrado, inseguro e deprimido que é colocado em situações extraordinárias, Shinji em muitos momentos tem crises de consciência em momentos de brutal importância, que fazem o espectador querer entrar na televisão e lhe dar um chute na cabeça.
Com o jovem Harry não é diferente. Muitas das situações de vários dos livros, só acontecem devido a sua incompetência ou falta de raciocínio lógico - como *spoilers* a morte de seu padrinho Sirius Black no quinto livro, que só ocorreu por causa dele *spoilers*.
A condescendência da autora com sua criação favorita também é outro problema, pois ele não consegue fazer praticamente nada, sem a ajuda de seus amigos e professores. Ou pior: da incompetência dos próprios vilões. Isso claramente faz com que a autora fielmente confie na burrice do leitor/espectador, o que é uma tremanda sacanagem.
E consequentemente ela trai a memória do próprio personagem que ela criou, e que ela amou durante todos esses anos. Conforme os muros de Hogwarts caem, consumidos pelas explosões e inimigas e os personagens tão amados perecem diante de seus adversários, a sensação que o leitor ou espectador tem, é que eles morreram em nome de alguém que não merecia. E que nós, leitores e espectadores que tanto nos emocionamos, rimos, choramos e nos angústiamos à espera da épica conclusão da saga, merecíamos coisa melhor.


quarta-feira, 20 de julho de 2011

Enfim, o Fim!





Embora geralmente haja um acordo consensual e subscrito entre os autores deste blog para não se fazer duas resenhas sobre o mesmo filme, terei que quebrar nossa própria regra em nome de um bem maior: o adeus à infância proporcionado pela conclusão da saga escrita por J.K. Rowling.


Demorei para postar esta resenha, é verdade. Mas isso porque é impossível não encarar a estréia deste filme com certa tristeza. É como o anúncio de que a infância de toda uma geração chegou ao fim. Essa é a sensação que tive ao terminar de assistir, há apenas alguns dias, ao filme Harry Potter e as Relíquias da Morte - Parte 2 (Harry Potter and the Deathly Hallows - Part 2, EUA, 2011). É com certa tristeza que percebo que a saga (de filmes) que começou em 2001 chegou finalmente a uma conclusão após 10 anos de amadurecimento, tanto para seus personagens como para os ávidos telespectadores que acompanhavam a vida de Harry e seus amigos. É até meio estranho pensar que estivemos acompanhando o crescimento de Harry, Rony e Hermione (e de todos os personagens jovens, assim como os atores) até se tornarem o que são hoje: jovens adultos de sucesso. Sinto-me ligeiramente stalker (termo famoso em inglês, quem não conhece: Google existe para isso). Será que sou só eu? Mas voltando à resenha, Harry Potter é considerada a saga de maior sucesso da história cinematográfica. E isso não é pouca coisa. Mas voltando ao trágico fim da série, você pode ler a resenha da primeira parte do filme (Harry Potter e as Relíquias da Morte - Parte 1) aqui e à resenha do meu parceiro-bloggeiro sobre este segundo longa-metragem, aqui. Vale ressaltar que o texto a seguir irá conter informações específicas sobre a trama do filme (spoilers). Se pretende ver o filme e quer se surpreender, não leia (se bem que se você já leu o livro, já sabe o que vai acontecer, então vá em frente, leia e comente!).
A história de Relíquias da Morte - Parte 2 continua do ponto em que o primeiro filme acabou. Na cabana isolada onde Dobby morreu e foi enterrado por Harry. Eu, pelo menos, não me lembrava direito do final do último filme, o que é um ponto negativo já que a continuação é diretamente relacionada com os últimos acontecimentos do longa anterior. De lá, temos pouca enrolação atéo início da ação. A invasão à Gringotes (vale dizer que a segurança é absolutamente risível se analisar que é o único banco do mundo bruxo e que é considerado 'impenetrável') é bela e rápida o que dá ao espectador a sensação de urgência pretendida. De lá vamos para Hogwarts e da escola não saímos até o derradeiro fim do longa-metragem.
Pra ser sincero nem vou me dar ao trabalho de comentar as cenas e a história. Já houve tempo para todos os verdadeiros fãs da série assistirem ao filme e todos já sabem o que acontece. Em compensação acho que devo comentar sobre a fraquíssima atuação de Daniel Radcliffe - que apesar de ter tido a melhor atuação dele em qualquer filme de Harry Potter, está longe de ser considerada absolutamente boa. Os outros protagonistas interpretados por Rupert Grint e Emma Watson ainda se salvam por um pouco mais de emoção e química entre seus personagens. Em compensação a um personagem título interpretado por um ator ruinzinho, para dizer o mínimo, tem-se um elenco de apoio incrivelmente bom, com astros como Alan Rickman, Maggie Smith, Jason Isaacs e Ralph Fiennes, entre outros.
Na verdade, algumas das cenas mais interessantes e memoráveis deste filme giram em torno deste elenco mais velho e talentoso. Maggie Smith está de volta ao papel, depois de ser esquecida pelos últimos dois ou três filmes, com um vigor divertido e um humor tipicamente britânico que levava os espectadores a explodir em gargalhadas nas poltronas escuras do cinema. Contracenando bastante, com ela e com todos os outros, está Matthew Lewis, também trazendo mais talento e humor do que o protagonista da série. Seu Neville finalmente superou (quase) completamente a fase pateta em que esteve durante toda a série de livros e filmes e acabou por marcar o final da saga.
É impossível não comentar nesta resenha sobre as atuação magníficas, exuberantes, excepcionais de Alan Rickman e Ralph Finnes. Finalmente o Professor Snape de Rickman recebeu a atenção que sempre mereceu. Numa atuação emocionante que fez pessoas soluçarem nas poltronas ao meu redor (e fez um grande amigo meu chorar de raiva pelas implicações da relação Dumbledore/Snape), Rickman mostrou a que veio neste último filme da série, colocando seu talento para fora mais claramente do que nunca. Snape nunca foi um personagem amado nos filmes até a cena em que finalmente morreu nos braços de Harry. E quando então o cabeça-oca-que-possui-cacatriz finalmente visualiza as memórias daquele a quem sempre odiou, é impossível não se emocionar na cena mais tocante presente nas pouco mais de duas horas de filme, compreendendo que aquele a quem temia e desprezava era na verdade seu maior protetor, ainda maior que o aparentemente super-protetor Dumbledore. Ralph Fiennes por outro lado sempre ostentou seu talento no papel do sádico-bruxo-sem-nariz-autodenominado-Lord-Voldemort e neste último longa da série não fez feio: mostrou um lado ainda desconhecido e ainda mais assustador do personagem, um lado ligeiramente humano. A cena em que Voldemort por fim abraça Draco Malfoy (o quase inexistente Tom Felton, que mal aparece) apenas mostra o quão estranha é aquela cena, pois o bruxo das trevas não sabe abraçá-lo. Suas risadas maníacas e atitudes hostis e de surpresa ou medo apenas realçam esta interpretação da humanização da personagem.
Da mesma forma, Michael Gambon, Helena Bonham Carter e Evanna Lynch também estão ótimos, apesar das participações diminutas. Gambon aparece brevemente ao final do roteiro, contracenando (explendidamente, diga-se de passagem) com Rickman em discussões sobre a morte de Harry e a forma como o garoto deveria morrer. Bonham Carter mal aparece, apesar de ser uma excepcional atriz e sua morte é uma das mais, com o perdão da palavra, broxantes da história do cinema. Evanna Lynch é mal aproveitada apesar de encarnar com franqueza e talento a personagem Luna Lovegood, sempre fazendo uma pequena aparição aqui e ali.
O filme tem praticamente duas horas de duração, mas muito deste tempo é desperdiçado com cenas de ação desnecessárias que poderiam ser melhor utilizadas no aprofundamento da parte emocional do roteiro (como exemplo cito a morte de um dos gêmeos Weasleys e as mortes de Lupin e Tonks, ambas mostradas por literalmente uns dois segundos cada). "Como David Yates pode dar tão pouca importância à morte de personagens que tanto amamos?", me perguntei ao ver essa cena. É triste ver esse tipo de descaso com um dos personagens mais interessantes e divertidos da série. Em compensação temos uma cena de 10 minutos com Harry e Voldemort voando (sim, voando) por cima e por dentro de Hogwarts, em estado meio-dissolvido/meio-sólido numa aparatação incompleta que sabe-se lá o que quis dizer. Cena desnecessária e cansativa, diga-se de passagem.
Um dos pontos positivos do filme foram os efeitos especiais. A cena de Hogwarts sob ataque, com a cúpula de proteção se desfazendo e o castelo em chamas definitivamente vai provocar arrepios nos fãs. A ótima trilha sonora também é válida para intensificar estes efeitos e sensações. David Yates se arriscou ao aceitar dirigir este longa. Óbvio que é impossível agradar a todos os fãs, mas de fato deveria ter sido dada mais atenção à parte emocional deste filme (com tantas mortes e perdas, é excruciantemente o filme mais emocional da série). Por outro lado, tem se tornado comum encontrar filmes nos cinemas atualmente em que o roteiro não presta e as cenas de ação se estendem indefinidamente como se pudessem tapar buracos numa história fraca com tiroteiros e explosões (vide Transformers 3).
O epílogo, bom, nem vale a pena ser comentado. Fraco, chato e sem sentido, assim como no livro. E infelizmente mal-feito também. A maquiagem não convenceu e fechar a cena final na cara de Harry acabou com a graça de se ter um epílogo. Bem melhor seria fechar a cena com o Expresso de Hogwarts partindo.
Como disse no começo desta resenha, dizem que este é o fim de uma era. Uma era de Harry Potter. Mas não creio que seja. Creio que é apenas o começo de uma Nova Era. Uma Era em que Harry Potter vai ser apenas uma lembrança de toda a magia do mundo, marcando nossas memórias para sempre. O fim chegou, como sempre chega. E a todos que viveram estes tempos mágicos nada resta a não ser voltar a mergulhar nesta história quando se sentir nostálgico. Apesar de todos os problemas da série (me refiro à de livros e de filmes), é impensável esquecer Hogwarts e seus ocupantes. Afinal, como diz Dumbledore, Hogwarts estará sempre lá para aqueles que dela precisarem.


"Harry Potter e as Relíquias da Morte - Parte 2". Título original: "Harry Potter and the Deathly Hallows - Part 2". Ano: 2011. Nacionalidade: EUA. Diretor: David Yates. Roteiro de: Steve Kloves, J. K. Rowling. Produzido por: David Barron, David Heyman, Debbi Bossi, J.K. Rowling. Estrelando: Daniel Radcliffe, Rupert Grint, Emma Watson, Ralph Fiennes, Alan Rickman, Bonnie Wright, Tom Felton, Matthew Lewis, Helena Bonham Carter, Jason Isaacs, Michael Gambon, Maggie Smith. Música de: Alexandre Desplat. Duração: 130 min. Resenha escrita por: Guilherme R. Aleixo. Nota: 8,5/10.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Sólido Abismo






Phillip Reeve construiu, em Mortal Engines, um universo denso, detalhado e perturbador, onde cidades andam sobre esteiras comendo umas as outras.


Phillip Reeve nasceu em Brighton na Inglaterra, em 1966. Trabalhou como ilustrador de diversas obras infantis, antes de publicar seu primeiro romance, em 2001, chamado Mortal Engines (Mortal Engines, 2011, Editora Novo Século, Osasco, 279 páginas, R$ 26,90), o primeiro de uma série de quatro livros, também conhecidos como Hungry Cities Chronicloes.


Num futuro longínquo, povos tecnologicamente muito avançados da civilização humana foram completamente aniquilados por uma guerra conhecida como Guerra dos Sessenta Minutos, que transformou o planeta Terra em um mundo pós-apocalíptico, onde imensas cidades foram colocadas sobre esteiras e rodam mundo àfora, a procura de presas: outras cidades. As gigantescas construções tracionadas literalmente devoram umas as outras, transformando seus sobreviventes em escravos, no que ficou chamado de Darwinismo Municipal.


É nesse contexto em que Londres vaga pelo deserto,e onde surge o protagonista: Tom Netsworthy. Tom é um mero aprendiz de classe subalterna, quase, que trabalha em um "Museu de História Natural" da Londres criada por Reeve. Depois de ser repreendido por seu superior, após observar a sangrenta caçada de sua cidade a um povoado menor, ele é enviado aos níveis inferiores para ajudar Thaddeus Valentine e sua maravilhosa filha, Katherine, a encontrarem relíquias outrora guardas nas cidades engolidas, chamadas de Old Tech -fragmentos da tecnologia dos povos antigos que foram dizimados à milhares e milhares de anos.


Durante sua busca, os três são confrontados com uma misteriosa garota chamada Hester Shaw. Em um golpe súbito ela tenta matar Valentine, mas é frustrada por um corajoso Tom que se põe em seu caminho. Ele sai em perseguição de Hester que pula para o abismo frio e sombrio das terras abaixo de Londres. Quando Tom conta a Valentine o que aconteceu, este o empurra rumo à morte certa, sem a suspeita de ninguém, pois não havia ninguém - especialmente sua filha - para ver o que aconteceu.


O rapaz obviamente sobrevive, assim como Hester, e ambos correm para alcançar Londres novamente: Hester para concluir sua missão de matar Valentine, e Tom para descobrir o que diabos aconteceu.


Durante sua jornada, Tom descobre que os pais de Hester foram brutalmente assassinados - diz ela - pelo próprio Valentine, que além de tudo lhe desferiu um golpe no rosto, que agora possui uma enorme cicatriz que percorre todo o seu rosto. Também descobrem que a cidade adquiriu um antigo artefato Old Tech chamado de MEDUSA, algo deixado pelos antigos que pode muito bem ter destruído o mundo milênios no passado.


A história é contada em duas narrativas paralelas: uma acompanha Tom e Hester, durante o encontro dos personagens mais inusitados, dos inimigos mais assustadores e das perseguições mais perigosas. A outra acompanha Katherine, filha de Valentine, que procura desesperadamente descobrir a verdade sobre seu pai, e sobre a misteriosa garota que tentou matá-lo.


Ambos os protagonistas das duas narrativas, Tom e Katherine, são perfeitos cidadãos londrinos, inteiramente mergulhados em sua sociedade: uma sociedade consumista e autodestrutiva, não muito diferente da nossa. Mas conforme seus destinos vão chegando ao fim, eles vão percebendo a cruel realidade por trás das pessoas que conheciam, e da vida que tinham.


Obviamente surgem histórias de amor no decorrer do livro. Tom por Katherine, embora ambos estejam separados por centenas de quilômetros, e ela acredite que ele esteja morto. E surpreendentemente de Hester por Tom, que formam uma confusa, conturbada e emocionante amizade.


O ritmo imposto por Reeve é frenético. Durante as quase trezentas páginas há uma profusão de perseguições, conflitos, tiroteios e explosões, para aqueles que não aguentam ficar duas páginas parados. Também é uma analogia as próprias cidades, e mais ainda, à vida no século XXI, transmutável, turbulenta e imparável.


Tom, Hester e Katherine encontram aliados pelo caminho? Sim. Mas ao contrário da maioria das narrativas infanto-juvenis (com exceção talvez, de Garth Nix), não há condescendência do autor com seus personagens. Eles terão que contar com sua coragem, perspicásia e inteligência para sobreviverem. E embora esta seja uma obra categorizada como "infanto-juvenil", Mortal Engines esbanja violência, e seu final (ao menos do primeiro livro), pode ser perturbador.


Mais contrária ainda, à onda da literatura adolescente, não há final feliz em Mortal Engines. Tampouco poderia haver, em uma história de autodestruição como esta. E nos faz pensar qual é o futuro da nossa sociedade que caminha paulatinamente rumo ao precipício. Reeve diz muito bem o que aconteceu conosco, nossa civilização. Foi destruída, vítima de nossa própria imbecilidade, reduzida a sombras e histórias. E cujos erros, os homens do futuro teimam em repetir.


Dessa forma, a obra surge como um sopro de originalidade em um mercado que começa a mostrar tendências de saturamento. Seu universo rico e complexo, seus personagens cativantes, suas sequências de ação intensas e seus destinos perturbadores, farão o leitor grudar em cada uma de suas páginas.


Houve o boato, em dezembro de 2009, que o cineasta neozelandês, Peter Jackson, iria filmar a obra em 3D. Isso, entretanto, permaneceu somente um boato, perdido em algum lugar na sombra e no escuro, proporcionando nada mais do que espectativa. No Brasil, restam ainda três livros a serem publicados. Qual o destino que Reeve dará para Tom e Hester, é impossível dizer até lá. Já o restante da civilização humana pereceu há muito tempo.



Foi lançada também uma resenha no portal do Terra Magazine, escrita por Roberto de Sousa Causo. Ela pode ser lida através do link abaixo:








sexta-feira, 13 de maio de 2011

A Redenção [2]




E aqui estou eu de volta, depois de algum tempo sem postar nada, para finalizar meus comentários sobre a brilhante série The Confession, estrelada pelos inacreditáveis Kiefer Sutherland e John Hurt. Como disse na última resenha, que você encontra aqui, que fala sobre a série e sobre os primeiros cinco capítulos, esta é uma websérie que conta a história de um assassino profissional que resolve se confessar com um padre. Na resenha passada, dei um resumo sobre os acontecimentos dos primeiros cinco capítulos desta obra de arte, além das informações técnicas de rotina sobre a produção e filmagens. A seguir irei comentar sobre os capítulos finais desta que se tornou uma das minhas séries favoritas, apesar da curta duração e do número limitado de episódios. Vale a pena dar uma olhada na resenha anterior para se interar mais profundamente sobre os temas abordados e, caso alguém queira, me avise que repassarei o site onde é possivel encontrar essa minissérie incrível.

Já no sexto episódio vemos que nosso matador na verdade é capaz de demonstrar compaixão para com seus alvos. Ele simplesmente deixa um homem viver quando percebe que ele está pronto para morrer por sua esposa e filho, e isso desperta um estranho senso de compaixão o que nos leva, e ao padre, a pensar se a presença do garoto no andar de cima não o influenciou de alguma forma. O flashback seguinte mostra que nosso mercenário não elimina seus alvos apenas fisicamente, em algumas situações eles os destrói psicologicamente e deixa que os próprios alvos estourem seus miolos, como é o caso do homem que roubou o dinheiro de todas as pessoas que investiram com ele, incluindo o contratante de nosso assassino. O personagem de Sutherland sequer precisa puxar o gatilho. Quando convence o ladrão a devolver todo o dinheiro roubado a seus respectivos donos, ele simplesmente vai embora e ouve o disparo ao longe enquanto espera o elevador. A história desenrola um pouco mais e acabamos descobrindo que há um trocadilho desde o início da série no fato de o assassino chamar o padre de padre (father, em inglês), mas que o sentido verdadeiro da palavra é o literal pai (também father, em inglês). A cena da descoberta dessa informação pelo padre é realmente tocante e densa, pelo simples fato de ele ter abandonado o filho ainda criança, depois de espancá-lo e à mãe do garoto inúmeras vezes quando estava bêbado. Ele conta que dedicou sua vida a Deus em uma tentativa de obter perdão por estes pecados que o assombram até hoje. Na cena final da série, nosso matador diz ao padre que é quem e o que é graças ao que aquele homem à sua frente fez a ele, à forma como o tratou. Diz que vai continuar matando e o padre terá que conviver com sua culpa por ter criado um monstro.

Esse tipo de reflexão a que a série nos leva é que realmente importa: até que ponto influenciamos as pessoas ao nosso redor, seja positivamente ou negativamente? Como podemos saber de que forma aquele ato irá agir sobre as outras pessoas? Creio que a partir do momento em que estas reflexões são propostas, estamos uma passo mais perto de nos tornarmos uma raça melhor como seres humanos. A partir deste tipo de preocupação é que a bondade do ser humano vem à tona, por mais difícil que seja de isso acontecer. Sobre a minissérie, bom... é genial, já disse. É uma obra prima que merecer ser assitida, apesar da pouca divulgação, não tenho dúvidas. Inicialmente acreditava que ao final, veríamos a redenção do assassino de alguma forma, mas estava enganado. A redenção que vem com a confissão não era para o assassino e sim para o padre. E ela nunca virá.


Título original: "The Confession". Ano: 2011. Nacionalidade: EUA. Criado por: Brad Mirman. Roteiro de: Brad Mirman. Produzido por: Matt R. Brady, Dave Chamberlin, Joseph Gomes, Maura Mandt. Estrelando: Kiefer Sutherland, John Hurt. Número de episódios: 10. Resenha escrita por: Guilherme R. Aleixo. Nota: 10/10.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

A Redenção


Todo mundo já viu aquelas histórias clichês em que alguém chega para um padre, em confissão, e diz que cometeu um crime e aí o religioso não pode contar a ninguém e blá blá blá. Bom, apesar de o roteiro ser ligeiramente clichê, é a linha condutora da nova websérie chamada The Confession, estrelada pelo ótimo Kiefer Sutherland e pelo excepcional John Hurt. No primeiro trabalho após a finalização do mega-sucesso 24 Horas (24 no original em inglês), Sutherland surpreende ao encarnar um personagem tão parecido com o idolatrado e super-mega-blaster-foda (com o perdão da palavra, mas no melhor sentido) Jack Bauer e, ao mesmo tempo, um personagem que diverge totalmente do agente que salvou os Estados Unidos dos mais diversos atentados durante oito temporadas.

A série que terá no total 10 episódios (cinco dos quais serão comentados nesta mesma resenha e os outros cinco em uma próxima), de pouco mais de cinco minutos cada, foi filmada em Nova York durante nove dias. A história gira me torno de um assassino profissional (Kiefer Sutherland) que entra em uma igreja na véspera de natal e vai se confessar com um padre (John Hurt). Ele conta ao padre que matou um homem na noite anterior e que pretende matar outro naquela mesma noite. A partir de então começa uma discussão sobre filosofia e teologia em que o espectador percebe que nem o assassino é completamente mau e nem o padre, completamente bom. Ambos os personagens se mostram mais profundos do que o esperado ao se enveredarem por discussões sobre o bem e o mal, sobre o homem e Deus e sobre a violência do ser humano, tudo em um clima de ameaça sob a mira com silenciador de Sutherland no pequeno confessionário. Brad Mirman, que dirigiu e escreveu o roteiro para a série, ainda se utiliza de flashbacks para mostrar o passado e algumas experiências do assassino.

E aí curtiu? Bom, colocarei ao final desta resenha o trailer da série para que vocês mesmos julguem se é tão boa quanto parece ou não. Mas a partir de agora farei um curto comentário dos primeiros 5 capítulos e é bem provável que haja SPOILER a partir do próximo parágrafo. Se você não liga, vá em frente, mas considere-se avisado; se liga, pule para o parágrafo final e para o trailer do final do post e peça um link para download nos cometários, se quiser, que eu indico o site onde encontrei.

A série se inicia com uma comparação clara entre os dois personagens principais: o assassino e o padre. À medida que uma música instrumental incita o mistério e o suspense, vemos ambos os homens se vestindo para o dia que têm pela frente. Um deles, vestindo seu colete à prova de balas, enquanto o outro veste a batina negra com a faixa púrpura; um deles veste luvas de couro negro enquanto o outro veste o colarinho branco que caracteriza o clero; um deles prepara sua pistola com silenciador enquanto o outro pega seu terço e sua bíblia. E assim começa essa obra de arte, que infelizmente não dura tanto quanto eu gostaria. Logo vemos que nenhum dos dois personagens têm nome: ambos são caracterizados por suas respectivas profissões. O que fazem define suas vidas. No decorrer dos primeiros episódios, vemos o matador ameaçar fiéis que vão à igreja apenas para que o padre se sente com ele e discuta pacificamente. Em nenhum momento impõe seu ponto de vista, estando sempre aberto à discussão sobre fé e entrando em temas como livre-arbítrio (usando bandidos e assassinos como exemplo), perdão sincero de seus pecados e o fato de o ser humano ter ou não escolha quanto a seus atos. Um detalhe que chama a atenção é que, apesar de o assassino mater uma arma sempre à mão, em toda a história há um clima de igualdade entre o homem e seu confessor. Da mesma forma que o padre defende a opinião e os ensinamentos de Deus, vemos o outro debatendo e rebatendo cada argumento com outros igualmente fortes. O clima de "cabo-de-guerra" é leve e pacífico, apesar da situação dentro do confessionário. É quase como os típicos oponentes que são rivais, mas se gostam. Voltando à história, é muito legal a parte em que o padre é obrigado a mostrar que também é humano quando é forçado a assumir que já achou que pessoas mereceram morrer. Pessoas que, ele admite, viu machucarem outras pessoas. Notamos então que a imagem que temos do clero em geral é ilusória. Mesmo os mais puros e aparentemente santos dos religiosos não deixam de ser apenas humanos. Isso fica claro e exposto à meia-luz que adentra a igreja pelos vitrais coloridos em direção ao confessionário. Por fim, discutem entre si o poder. O fato de um deles assustar as pessoas, o fato de aquela arma simbolizar um poder inexistente sem ela, o fato de aquele simples objeto tornar um ser invisível em alguém a se temer. Da mesma forma, descobrimos as dúvidas de um homem que dedicou sua vida a um Ser superior, mas que nunca abandonou sua posição pelo significado que o colarinho branco lhe confere.


De todas as discussões, debates e exposições filosóficas e teológicas que podemos ver entre o matador e o religioso, nem todas incluem Deus. Eu tenho por regra pessoal jamais discutir sobre religião, sejam as minhas crenças ou as dos demais, mas tais crenças não influem de forma alguma no entendimento e interiorização das conversas e discussões da série. Independente do que você acredita, The Confession é brilhante. Seja pelo tema, pelas diversas discussões e abrangências que dele derivam ou simplesmente pela atuação dessas duas feras que protagonizam esta websérie. Acho que vale acompanhar para saber em torno de qual redenção a série gira: a do padre ou a do pecador?


"Padre: -Tirar vida não é decisão do homem.

Assassino: -Então Deus é o único que pode tomar essa decisão?

P: -Sim.

A: -Ele pode me impedir a hora que quiser."











quinta-feira, 31 de março de 2011

Não foi Dessa Vez...

Em Metro 2033 os sobreviventes de uma catástrofe nuclear vivem nos metrôs de Moscou. Pena que a história não assusta


É indiscutível que Dmitry Glukhovsky tem talento para escrever, mas me pareceu que este é um de seus primeiros livros. O livro Metro 2033 (Idem, lançado na Rússia em 2007) tem vários pontos positivos, muitos mesmo, e por isso o classifico como regular, no meu ponto de vista. Mas não posso dizer que seja mais do que isso. A história se passa 20 anos após um apocalipse nuclear, que teria ocorrido no caótico ano de 2013, e aparentemente devastou o mundo. Inúmeros russos conseguiram se proteger descendo ao subsolo, ocupando estações de metrô e seus trilhos e túneis. Os anos se passam e as estações se tornam territórios soberanos, criando alianças umas com as outras, surgindo até mesmo territórios neo-nazistas e comunistas. Tudo vai bem, mas o medo constante da radiação e dos mutantes (monstros criados a partir de pessoas e animais sobreviventes que foram transformados pelos efeitos nucleares) os impedem de sair da proteção do subterrâneo. O problema real surge quando os túneis começam a ficar infestados destes mutantes que passam a entrar no subsolo por algum lugar. É aí que a nossa história começa.

Não posso dizer que as aventuras de Artyom (que insisto em ler automaticamente com Ayrton) - personagem principal - não me divertiram e angustiaram, pois o fizeram, mas em certos momentos a história me entediou quase ao ponto de abandonar a leitura. E, infelizmente, não foi apenas uma vez. Sorte que sou determinado no quesito "terminar livros começados". Com certeza o detalhamento que o autor faz do subterrâneo é extremamente rico, com o interior das estações bem descrito e a fácil visualização dos locais (que supus seria difícil principalmente para quem não mora na Rússia), assim como a sensação de enclausuramento e claustrofobia criado por todo o subterrâneo, túneis, passagens e corredores. Mas, por outro lado, e embora eu goste imensamente de ficção apocalíptica (do contrário não compraria o livro), algumas partes caem na ridicularização pela impossibilidade da coisa, e olha que me refiro a um livro que comprei pensando falar de zumbis. O PARÁGRAFO A SEGUIR CONTÉM SPOILERS. PULE-O SE NÃO QUISER SABER!

As cenas em que a espuma tóxica radioativa ganha vida dentro de uma estação, por exemplo, e ataca as pessoas é risível, para dizer o mínimo. Enquanto lia e tentava me concentrar no perigo que os personagens viviam, era impossível não pensar no quão absurdo aquilo era e o quão ridículo soava. Sem falar que a história das estrelas do Kremlin ou do som que fazia as pessoas desmaiarem e morrerem nos túneis não têm explicação ou sentido algum, partindo até para um possível lado sobrenatural (diz-se que existem demônios nas estrelas de rubi do Kremlin e eles hipnotizam quem olhar para elas - não sei se faz parte da lenda do Kremlin mesmo, mas na história achei totalmente desconexo de todo o resto). Pô, fala sério né? Por melhor que seja a escrita em vários pontos, os pontos negativos já citados, mais as conversas pseudo-filosóficas/religiosas me irritaram imensamente. O autor parece querer inserir sempre que possível uma teoria que margeia a filosofia ou a religião e isso faz certas partes do livro parecerem auto-ajuda de quinta categoria. Uma pena, pois a história tinha tudo para ser ótima.

Soube que este livro chamado de cult (pfff, vai saber o porquê) virou um jogo com mesmo nome. Não vou opinar sobre isso visto que não joguei e nem mesmo vi o jogo, mas parece bom. Se houver oportunidade, jogarei sem dúvidas. Quanto ao motivo da nomeação como cult, acho que é devido às já citadas conversas psicológicas/religiosas/filosóficas. Acho que para algumas pessoas pode parecer de uma profundidade incomum, mas a mim não alcançou dessa forma.

Outro ponto que vale destacar, para finalizar, é que os nomes das estações são extremamente longos e confusos, embora isso não seja bem uma reclamação. Não há o que fazer a este respeito, pois é um livro russo e era o mínimo que se podia esperar. Não foi dessa vez que Glukhovsky entrou para a minha lista de autores preferidos, mas quando ele escrever outros livros, os lerei. É um autor razoável, mas que ainda não chegou lá. Mal posso esperar para quando ele chegar.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

A Nova Gênesis de Evangelion


























* Atenção: para melhor compreensão da review, seria interessante ao leitor, procurar assistir a série original e seu longa metragem, The End of Evangelion.

Remake de uma das séries de anime mais importantes de todos os tempos, trancende a refilmagem e torna-se uma obra totalmente nova.


Em 1995, foi produzida pelo estúdio Gainax, a série Neon Gênesis Evangelion, um seriado de animação japonesa (anime), do gênero mecha, que constitui em robôs gigantes pilotados por seres humanos. Aliando ficção-científica com fantasia, uma trama e personagens complexos, referências religiosas, muita ação e sensualidade, a série foi um sucesso de proporções bíblicas, tornando-se indicustivelmente, uma das séries de animação de maior sucesso de todos os tempos.


A sinopse é tão complexa quanto seu desenvolvimento. Na aurora do novo milênio, um objeto desconhecido chocou-se com a Terra na região do círculo polar ártico. Acredita-se que tenha sido um meteoro, cuja explosão derreteu a calota polar, inundando a civilização, em um quase-apocalipse. Tokyo, onde a história se passa, foi destruída, sendo reconstruída outras duas vezes, até a então chamada Tokyo 3.


Quinze anos depois, a humanidade experimentou outro tipo de ameaça: criaturas gigantes de origem desconhecida, denominadas "anjos", todas aparecendo na mesma região de Tokyo 3, na tentativa de invadir as instalações da NERV, instalação governamental criada após o que foi descrito como o "Segundo Impacto". Para combater tais criaturas, robôs gigantes denominados Evangelions, foram desenvolvidos e são pilotados por 3 crianças de 14 anos, duas moças e um rapaz. São eles Rei Ayanami, Asuka Langley e o protagonista Ikari Shinji, cujo pai é o líder das operações da NERV.


A série acompanha a vida de Shinji, na casa de sua supervisora, Misato, uma jovem capitã, bonita, atraente e dada numa cerveja. Há todo um desenvolvimento entre os relacionamentos de Shinji e sua superiora, assim como suas colegas de combate, Rei e Asuka. Uma gama de novos personagens aparecem e um desenvolvimento incrivelmente complexo da trama ocorre, mostrando os segredos por trás da NERV, do pai de Shinji e do Segundo Impacto.


Entretanto, o aclamado seriado Mecha teve um sério problema de conclusão, principalmente por parte de seu criador Hideaki Anno. Subsequentemente, houveram outros dois filmes, incluindo o The End of Evangelion, que procurou proporcionar um final definitivo à série. Não foi satisfatório, e recentemente, um projeto de 4 novos filmes do Evangelion começou, com o nome de Rebuild of Evangelion.


Os dois primeiros filmes da nova série já receberam lançamento nos EUA e recentemente no Brasil. O primeiro, Evangelion 1.11 You Are (Not) Alone já está disponível em DVD no Brasil, enquanto o segundo, Evangelion 2.22 You Can (Not) Advance, aguarda lançamento que deverá ocorrer em Março.


O primeiro filme da série de remakes, acompanha os seis primeiros episódios da série original, sem muitas alterações. Apresenta as personagens principais (sendo que Asuka só será introduzida no segundo filme), o início do relacionamento entre Shinji e Misato e Shinji com Rei, e o início de sua pilotagem do EVA (Evangelion).


Uma das características mais impressionantes, tanto da série, quanto dos novos filmes, é seus personagens. Shinji é o oposto do herói dos mangás (quadrinhos japoneses). É um menino magrinho e franzinho, inseguro e com péssima auto-estima. Pilota o EVA para fazer seu pai orgulhoso, o que não dá muito certo. Rei Ayanami é uma misteriosa menina de cabelos azuis e olhos vermelhos, quieta e reprimida, encontrando dificuldades de se relacionar com outras pessoas, assim como todos os pilotos.


No fundo, é um bando de jovens complexados pilotando robôs gigantes de combate. Asuka é alemã, e compensa sua insegurança aliada com um trauma familiar grave, com uma personalidade arrogante e incisiva. No entanto, todos terão um desenvolvimento, mesmo que tardio, de suas personalidades e entrarão em conflitos no decorrer da série, entre eles e entre si mesmos.


A maior diferença do primeiro longa é seu final, que difere da transição do 6º para o 7º episódio da série original. Há então um gancho para o segundo longa metragem que, ao contrário do primeiro, é quase que inteiramente diferente da série na qual foi baseado.


Há também, uma melhora considerável no design dos robôs e principalmente dos anjos. Embora sejam essencialmente parecidos com os originais, diferem em aspectos interessantes, tendo um desenvolvimento muito mais bacana para quem é fã da série. Os longas são visualmente espetaculares, ricos em cores com uma animação digna de um filme dos estúdios Ghibli (do diretor de A Viagem de Shihiro), proporcionando muita ação, muito humor e muita sensualidade.
Dividos em durações que variam de 100 a 110 minutos, ocorre uma grande condensação dos 26 episódios da série original, sendo que muito - e eu digo, MUITO - é deixado de fora, especialmente no primeiro longa.


Com as mudanças drásticas no visual do desenho, um choque acontece. Uma das características mais interessantes em Evangelion, era o seu início bem humorado e talvez até excessivamente simplista, o que pode irritar um espectador desavisado, e seu desenvolvimento posterior, tornando-o sério, carregado e sombrio. O que não acontece em nenhum dos longas, tanto pela parte visual, quanto pelo desenvolvimento do roteiro.


Ainda que a primeira metade (principalemente) do primeiro filme seja puro pastiche, enquanto a segunda apresenta novas situações, o segundo longa é absolutamente diferente da série original em quase todos os aspectos, com a apresentação de novos personagens, troca de situações e outras coisas que é melhor não falar.


Graças a isso, Rebuild of Evangelion deixa de ser somente uma refilmagem ou mesmo um reboot de Neon Genesis Evangelion, e passa a ser algo totalmente novo. Uma obra única, quase totalmente à parte de seu predecessor.


Isso é bom? Em partes. De fato, o espectador que assistir aos filmes sem ter visto a série, se verá a parte da trama original, e a entenderá - ou não. Entretanto, não estará assistindo Neon Genesis Evangelion, mas sim uma obra diferente que só apresenta os mesmos personagens. Para quem já viu a série, isso é incrivelmente interessante, pois há uma completa mudança de foco dos longas para o seriado, especialmente no segundo filme.


Rebuild of Evangelion é melhor do que Neon Genesis Evangelion? Essa é uma pergunta simples e totalmente válida. E a resposta é igualmente simples. Não. Tanto pelo seu tamanho reduzido - o que significa um desenvolvimento menor do que uma série de 26 episódios - quanto por características presentes somente na série, e que a tornaram única.


As personalidades de Shinji, Asuka e Rei estão diferentes, o que talvez proporcione mais calor entre eles. Entretanto, seus relacionamentos só se mostraram realmente fortes e bem explorados, justamente pela ausência desse calor, mostrado na série. Há toda uma trajetória para que isso aconteça, e nos filmes não há espaço para isso, a menos que cada um tenha pelo menos 2h 30.


Evangelion é complicado e carece de compreensão para a maioria dos espectadores. Aliando discussões filosóficas, momentos de mergulho na mente dos personagens, e muito tecno-baba. Então, é bem possível que o espectador fique confuso. Assim como na série. Entretanto, no que a série falhou, o filme é capaz de mudar, especialmente com dois outros filmes em andamento para serem lançados simultaneamente em 2012.


Onde o espectador não entendeu o final de Evangelion (aliás, para quem viu o longa, assista cinco vezes e quem sabe você entenderá), Rebuild tem a chance de mudar, principalmente por que apresentará um final totalmente novo.


Para aquele que procurar um anime realista, esqueça, é melhor assistir a série e filmes de Patlabor. Evangelion mostra robôs gigantes lutando contra monstros enormes, em cidades (desabitadas, ainda bem). Tem violência, conteúdo de nudez e tensão sexual, aliados com uma trama complexa e inteligente e muita, muita ação. Ambos os filmes (especialmente o segundo), são envolventes e instigantes, qualidade que tem se tornado cada vez mais rara ultimamente. Entretanto, embora a nova gênesis da série de anime mais ousada de todos os tempos seja mais do que satisfatória, Neon Genesis Evangelion é apenas um e jamais poderá ser superado.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

A Vil Vingança Vermelha


Baseado na grafic novel homônima, V de Vingança é envolvente e inteligente





"Remember, remeber the fifth of November". Essa é uma das frases iniciais do excelente V de Vingança (V for Vendetta, EUA, 2006) dirigido pelo pouco conhecido James McTeigue e com participação especial na produção por parte dos irmãos Wachowski (da trilogia Matrix). Baseado na grafic novel de mesmo nome escrita por Alan Moore (autor de outra história recém-adaptada para as telonas: Watchman) e ilustrada por David Lloyd, o longa consegue ser uma adaptação e, ao mesmo tempo, uma obra-prima.

Como o primeiro filme de 2011, resolvi escolher este que é um dos meus favoritos. Por vários motivos, simplesmente não me canso de ver este filme, acho-o belo e genial e sombrio e criativo e denso e tocante. Simples assim. E vamos à história: o enredo se passa na década de 2020 em uma Inglaterra ditatorial comandada por uma versão moderna e futurista do Grande Irmão, o chanceler Adam Sutler (interpretado por John Hurt, que está muito bem no papel de ditador) e seus seguidores que se afiliaram ao Partido. É basicamente a mesma história que já conhecemos da Alemanha nazista, quando o Partido Nacional-Socialista - o NAZI - comandava o império alemão sob o comando do führer Adolf Hitler. Sem falar é claro nas semelhanças de ideologias em ambos os chefes de estado: ambos deram início à perseguição de judeus, homossexuais e todos que eram diferentes. Vale também ressaltar o quão parecidos são os nomes de Adam Sutler e Adolf Hitler.

Já aquela primeira frase "Remember, remember the fifth of November" se refere a um poema encontrado embaixo do Parlamento inglês em 5 de novembro de 1606 quando um terrorista católico chamado Guy Fawkes foi preso colocando inúmeros barris de pólvora que seriam explodidos durante uma sessão naquele dia, o que mataria todos os representantes do governo protestante. É neste terrorista que o herói deste filme se baseia, mas chegaremos até isso daqui a pouco.

Uma das belezas desta história é que Alan Moore se baseou na história relativamente recente do nazismo para criar um futuro possível. Possível e horrível. E neste mundo ditatorial em que o Partido controla a imprensa e os Homens-Dedo (uma versão moderna e britânica da Gestapo) amedrontam a população com sua batidas e prisões, que inevitavelmente levam a desaparecimentos, é que surge um terrorista que se autodenomina V (Hugo Weaving, que embora não tire a máscara em nenhum momento está excepcional no filme). Usando preto o tempo todo, uma peruca, chapéu e uma máscara de Guy Fawkes, além de muitas, muitas facas, V surge para chocar e reunir uma população inerte que permite que seu governo se imponha por meio da violência e medo. E é por isso que V faz o mesmo: explode logo nas primeiras cenas um dos clássicos edifícios ingleses numa simbólica destruição do Estado e seus representantes. Sua intenção claramente é despertar a população para o fato de que eles é que têm o poder e que sua inércia é que mantêm a todos prisioneiros do regime.

Ao contrário de outros heróis de filmes de ação, V é um personagem profundo e ricamente construído. Culto, inteligente e estudado, cita Shakespeare e escuta Tchaikovisk por meio de alto-falantes enquanto explode as coisas. Além do mais, sua relação com Evey (Natalie Portman, que também está muito bem) é bonita mesmo que nunca tenham se olhado cara-a-cara. Não vou me aprofundar mais ainda na história. Há explosões, tiroteios, traições e principalmente intriga política. É um filme ideológico disfarçado de triller de ação. Minha intenção com esta resenha era despertar o interesse de alguns que não haviam visto o filme e espero ter conseguido isso. Vejam, pois vale a pena, e muito.

Por fim, acrescento apenas a participação de outros grandes astros como John Hurt no papel de Adam Sutler (vale lembrar que é o segundo filme sobre regimes ditatoriais de que ele participa. O outro foi 1984, em que ele estava no papel principal, como inimigo do Grande Irmão); Stephen Rea como um investigador honesto que tenta deter V; e Stephen Fry como um divertido apresentador/diretor de TV.

Por fim,[2] quero ressaltar os incríveis diálogos capazes de arrepiar a qualquer um. Frases realmente memoráveis dos mais diversos personagens, mas principalmente de V, como a frase a seguir: "O povo não deve temer seu governo. O governo deve temer seu povo". No início, V era apenas um anti-herói que queria se vingar, mas antes de concluir sua vendetta, ele se torna o herói que estava destinado a ser.

"V de Vingança". Título original: "V for Vendetta". Ano: 2006. Nacionalidade: EUA. Diretor: James McTeigue. Roteiro de: Alan Moore, Andy Wachowski, Lana Wachowski. Produzido por: Andy Wachowski, Lana Wachowski, Grant Hill, Lorne Orleans, Joel Silver, Charlie Woebcken. Estrelando: Natalie Portman, Hugo Weaving, Stephen Rea, John Hurt, Stephen Fry. Música de: Dario Marianelli. Duração: 132 min. Resenha escrita por: Guilherme R. Aleixo. Nota: 9,5/10.


Segue o trailer abaixo para os interessados:

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Alguma coisa se perdeu no caminho


Filme que retrata combate sangrento no Vietnã, cai em contradição óbvia: como justificar o injusficável?

1965. 400 soldados norte-americanos são emboscados por tropas inimigas no total de 4 mil homens no Vale da Morte durante a guerra do Vietnã. O tenente-coronel Hal Moore encontra-se preso numa emboscada inimiga, com a vida de seus homens em suas mãos, no que foi considerado o combate mais violento da guerra do Vietnã desde a invasão norte-americana ao pequeno país comunista.


Essa é a história contada pelo diretor Randall Wallace no filme Fomos Heróis (We Were Soldiers, EUA, 2002), estrelando Mel Gibson no papel do tenente-coronel Hal Moore, Sam Elliot, no papel do sargento-major Basil Plumley, Greg Kinnear interpretando o major Bruce Crandall e Barry Pepper (que já fez filmes de guerra como O Resgate do Soldado Ryan e A Conquista da Honra) no papel do fotojornalista Joe Galloway que testemunhou o combate (ou boa parte dele), no dia 15 de novembro de 1965.


Acostumado a escrever roteiros de filmes de guerra, como o grande sucesso dirigido por Mel Gibson em 1995, Coração Valente, e o fracasso crítico Pearl Harbor de 2001, Wallace assumiu as rédeas da direção pela segunda vez em um grande projeto (o outro tinha sido O Homem na Máscara de Ferro de 1998), com Fomos Heróis, desta vez tendo no papel principal o ator/diretor Mel Gibson, que rendeu ao seu roteiro de Coração Valente, o OSCAR de melhor filme.


No filme de guerra do Vietnã, um foco interessante é abordado, e que não é normalmente mostrado em outros filmes do gênero: o outro lado das trincheiras. Desde o começo do filme, o espectador é apresentado às famílias dos soldados que estão sendo enviados ao Vietnã, assim como as famílias e comandantes dos soldados vietnamitas, cujo destaque, embora significativamente menor, é interessante.


Esse é um recurso clássico e eficaz para o espectador “apaixonar-se” pelos personagens cujas trajetórias está acompanhando, e nesse sentido o filme cumpre o seu papel.


Contudo, o verdadeiro (ou quase verdadeiro) olhar da história reside na visão do fotojornalista Joe Galloway que viaja ao Vietnã, integrando-se ao pelotão de soldados do coronel Moore, acompanhando a brutalidade do combate sofrido naquele dia, além de criar uma relação de amizade com o personagem de Mel Gibson.


O filme não deixa de despejar recursos para afetar o espectador emocionalmente. Seja nas atuações intensas de Mel Gibson e Berry Pepper (que valem o filme), na apresentação das famílias dos personagens e a trajetória das esposas que começam a receber as cartas informando a morte de seus maridos, ou dos discursos fraternais do comandante vietnamita, aos seus soldados, de uma forma bem parecida com a de Hal More. A música, do compositor Nick Glennie-Smith, é um festival de cordas e acordes profundos e melancólicos, especialmente no terço final do filme.


Contudo, o elemento mais dissonante de toda a obra, é justamente a caracterização do combate. A violência (este é um dos filmes de guerra mais graficamente violentos desde O Resgate do Soldado Ryan) e a brutalidade do combate que resultou na morte de quase 2 mil soldados vietnamitas, acaba criando uma contradição palpável: enquanto tenta equilibrar ambos os lados ao apresentar as famílias das duas nações envolvidas, na tentativa de “humanização” dos personagens “inimigos”, o filme ao mesmo tempo procura ser totalmente pró-americano, ao procurar encontrar a justificativa ou compreensão dos acontecimentos que levaram àquela guerra, e àquele combate. Contudo, ao término, o filme simplesmente falha em todos os aspectos.


Fomos Heróis, tampouco consegue ser equilibrado, quanto pró-americano. Procura justificar o injustificável. Procura entender o inteligível. Procura encontrar uma razão para tamanha dor e violência. A razão das lembranças que ficaram aprisionadas na memória de Hal Moore e Joe Galloway pelo resto de suas vidas (o que inspirou ambos a escreverem o livro no qual o filme foi baseado). Algo se perde durante os 138 minutos da obra. Provavelmente a mesma coisa que os jovens soldados levaram para o vale em 1965, e que permanece lá até hoje.


terça-feira, 9 de novembro de 2010

Império das Sombras





Do diretor Martin Campbell, e estrelando Mel Gibson, O Fim da Escuridão, é uma obra surpreendente, da autoridade de um homem só.




Em O Fim da Escuridão (Edge of Darkness, EUA, 2010), baseado numa série da BBC de mesmo nome, Thomas Craven é um veterano policial de Boston, com mais anos de serviço do que ele gostaria de contar. Os primeiros quinze minutos do filme mostram a visita da filha de Craven, Emma, interpretada pela graciosa atriz Bojana Novakovic. Tudo aparenta ser uma simples visita de rotina por parte da garota que quer visitar seu pai, mas o fato é que Emma esconde um segredo tenebroso.


Nesses breve 15 minutos de filme, Martin Campbell (o mesmo de Limite Vertical e 007 Casino Royale), é de fazer o espectador se apaixonar quase que imediatamente por ambos os personagens. Emma e seu pai são de um carisma impressionante e, numa relação que não chega a ser desenvolvida durante o filme, esbanja ternura.


Contudo, tudo muda quando Emma leva um tiro de espingarda na porta de sua casa. Após se sentir mal, ela pede para o pai levá-la ao pronto-socorro, mas não há tempo. Emma é baleada na porta de sua casa no que parece ter sido um atentado contra seu pai. A cena é brutal, extremamente violenta e repentina e marca o telespectador durante todos os 100 minutos seguintes do filme até a sua conclusão.


Campbell então usa um recurso interessante para demonstrar a dor da perda do personagem interpretado por Mel Gibson. Este, numa tentativa de descobrir o assassino de sua filha, ainda conversa com ela em diálogos que perturbadores, e lembranças de Emma quando criança, o que cria um impacto ainda maior no espectador, devido à doçura da menina que a interpreta quando jovem, além de sua incrível semelhança com a atriz madura.


Durante a sua investigação, Thomas descobre coisas assustadoras, que envolvem companhias de pesquisa de defesa norte-americanas, onde Emma trabalhava, incluindo intrigas políticas que são aterrorizantes, mas pouco surpreendentes.


Abordado por um indivíduo enigmático chamado Jedburg, interpretado brilhantemente por Ray Winstone (A Lenda de Beowulf), Craven descobre um aliado improvável. A relação dos dois é um dos poucos pontos de humor do filme, com direito a diálogos afiados, cortesia dos roteiristas William Monaham (o mesmo de Os Infiltrados e Rede de Mentiras ) e Andrew Bovell.


O filme tem tudo para ser uma catástrofe. Um diretor que sabe usar elementos de ação, mas que é inconstante, possuindo em sua maioria obras regulares, como A Máscara do Zorro e Limite Vertical, um roteirista que, embora explore as origens da cidade de Boston muito bem, tende a cair no exagero, como em Os Infiltrados e um ator que passou considerável tempo longe das telas e conhecido por sua imaturidade e inclinação à bebida.


Contudo, o resultado é surpreendente. No filme, abundam qualidades, que vão desde o roteiro bem feito, uma direção sóbria, atuações que operam na margem da surpresa, um trabalho de trilha sonora excelente por Howard Shore e uma construção de personagens e laços de relacionamento que não seriam esperados em um filme cuja premissa é sobre intrigas políticas.


Nenhum dos elementos da trama de O Fim da Escuridão é surpreendente. Todos os elementos que envolvem mentiras, hipocrisia e corrupção, provavelmente existem em uma escala ainda maior. O que surpreende na história, são os laços entre os personagens, ligados por fios muito distintos e diferentes entre si, mas que, de uma meneira ou de outra, lutam por um objetivo em comum: a busca por um pouco de luz.



sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Inspire






O filme Inhale, do diretor Baltasar Kormákur, aborda o tráfico ilegal de órgãos assim como graves questões morais de nossa sociedade.

No novo filme do diretor islândes, Baltasar Kormákur, conhecido por A Fraude e outras produções filmadas em seu país natal, pouco conhecidas do público internacional, o ator Dermot Mulroney (o mesmo de O Casamento do Meu Melhor Amigo) é um promotor chamado Paul Stanton que está acusando um homem de tentativa de homicídio, após este suspeitar que seu filho estava sendo assediado sexualmente por um pedófilo previamente condenado. Paralelamente à sua acusação, a filha do casal protagonizado por Mulroney e Diane Kruger, Chloe, está gravemente doente e precisa de um transplante de fígado.
A primeira cena de Inhale (Inhale, EUA/MEX/ISL, 2010) mostra um grave acidente de carro onde um menino de aproximadamente 6 anos de idade foi morto. Imediatamente o espectador pensaria que se trata de uma narrativa espiralada. Que essa cena inicial na verdade se trata do final do filme, e que os órgãos do garoto inevitavelmente iriam para a jovem Chloe. Contudo, essa cena apenas abre o que será o estopim para uma série de conflitos que culminarão em sequências de violência aterradora e dilemas morais ainda mais aterradores.
Incapaz de encontrar um doador compatível com o de sua filha, e vendo o tempo correr mais rápido do que ele pode alcançar, através de um colega, o promotor Stanton descobre uma rede de tráfico ilegal de órgãos no México em busca de um homem conhecido como Doutor Navarro.
As sequências posterioras do filme acompanham a tragetória de Stanton no México, em sua desesperada tentativa de encontrar um doador para sua filha. Em sua jornada, ele descobrirá um grupo de garotos esquecidos que o ajudarão (ainda que de uma forma não muito convencional), um médico que esconde um segredo assustador e um jovem travesti chamado Inez. Juntos, todos mergulharão no mundo do tráfico, do sexo e da violência.
Inhale aguarda distribuição há provavelmente quase um ano e em teoria, deverá estreiar nos Estados Unidos no dia 22/10. Contudo, constantes atrazos na produção e lançamento dão a impressão de que o filme só será lançado em DVD. Já no Brasil, não há qualquer perspectiva de chegada, e tal filme passa completamente desconhecido do público brasileiro.
Kormákur faz uma abordagem bastante seca e direta da violência e do sexo que pulsam pelas ruas abandonadas da Cidade do México. A prostituição e a corrupção policial são mostradas às claras, assim como cenas explícitas de violência e sexo que podem render ao filme uma faixa etária bastante elevada.
Dessa forma, o diretor islandês prende a atenção do espectador conforme a narrativa torna-se cada vez mais frenética, violenta e explícita, enquanto a vida de Chloe vai se esvaindo.
Até um determinado momento, Stanton é um homem dedicado somente ao ato de salvar a vida de sua filha, e fará o que for necessário para que isso aconteça, assim como sua esposa, Diane. Contudo, quando ele descobre a verdadeira natureza do tráfico ilegal de órgãos, ele se vê em um dilema moral extremamente complicado e profundamente difícil. Nesse aspecto, Kormákur faz uma abordagem ainda mais direta e realista dos dilemas morais que um homem da lei como Stanton tem que enfrentar em uma situação como aquela, assim como a real natureza de muitos dilemas morais que abundam em regiões esquecidas e na vida de pessoas abandonadas por um governo local incompetente, despreparado e corrupto.
A fotografia, em tons escuros e cores douradas ressalta um ambiente inóspito, desértico, ainda que com naturalidade. A edição é sóbria, assim como a direção e a atuação dos atores que são discretos mas muito competentes em seus papéis. A música de James Newton Howard não foge à mesma fórmula, mantendo batidas eletrônicas e melodias compostas por violões e guitarras acústicas como já foi visto nas badaladas de Gustavo Santaonalla, com o único objetivo de sustentar o filme.
No fim, nenhum dos elementos citados assim se destaca. Contudo, em conjunto são capazes de prender a atenção do espectador, mergulhando-o nos dramas e dilemas enfrentados por seus protagonistas, com a quantidade certa de ação.
Inhale não é para os fracos e os medrozos. Faz uma abordagem bastante adulta sobre problemas e terrores que assolam as classes inferiores na América Latina, sem esconder sua real natureza. O tráfico de órgãos é uma indústria. Uma indústria que gera uma receita consideravelmente alta, e que, como o tráfico de drogas, se sustenta das vidas humanas. A primeira aventura de Kormákur nos EUA, pode não ter rendido um filme excelente, mas eficaz em mostrar até onde um pai vai para salvar a vida de seu filho, e até quais decisões ele deverá tomar para salvar uma vida.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

A Identidade Salt



Novo filme de Angelina Jolie,
Salt, lembra um pouco demais os filmes da trilogia Bourne.


Com o advento dos filmes da trilogia Bourne no começo do século XXI, que alcançaram um novo patamar no gênero de ação no cinema norte-americano, muitos diretores recentemente têm tentado reproduzir os efeitos dos filmes de ritmo rápido e roteiro inteligente dirigidos pelo inglês Paul Greengrass (Vôo United 93, Zona Verde) e estrelados por Matt Damon.
Um deles foi o próprio Paul Greengrass, que, no começo de 2010 lançou nos cinemas brasileiros, Zona Verde, um drama de ação política que se passa durante a guerra do Iraque em 2003, onde ninguém menos que Matt Damon, tenta desvendar uma conspiração realizada pelo governo americano, ao não encontrar as armas de destruição em massa que foram a causa da guerra pelos EUA.
Embora seja o melhor filme de ação deste ano, com o roteiro do vencedor do OSCAR, Brian Helgeland (Los Angeles, Cidade Proibida), o filme que possui ritmo alucinante e roteiro extremamente inteligente, não foge às referências óbvias à franquia que o diretor Greengrass consolidou alguns anos antes.
O que isso tudo tem a ver com Salt? Estrelado por Angelina Jolie e dirigido por Phillip Noyce (O Colecionador de Ossos), Salt (Salt, EUA, 2010), não foge às mesmas características que o espectador já viu em Jason Bourne.
No filme, Evelyn Salt (Jolie) é uma agente da CIA que se encontra disfarçada como a vice-presidente de uma empresa petrolífera, até que ela e seu parceiro (o fabuloso Liev Scrheiber), são abordados por um desertor russo, Orlov, interpretado por Daniel Olbrychski, que afirma haver um espião russo infiltrado dentro da CIA e que ele irá assassinar, naquele mesmo dia, o presidente russo que está em visita aos EUA para o funeral do recém falecido vice-presidente americano. Afirma também, que o nome do espião é Evelyn Salt.
No momento seguinte, Salt escapa das instalações da CIA (passando por cima de alguns dos agentes que a perseguem) e foge em busca do marido, um aracnólogo alemão que ela acredita estar em perigo.
A sucessão de acontecimentos que ocorrem conforme o filme prossegue tornam-se cada vez mais implausíveis, como Salt pulando do topo de caminhões por uma via expressa, entre outras coisas. O filme então parte para um segmento que dá valor às reviravoltas, que depois da quarta, tornam-se tão implausíveis quanto o restante do filme.
O bom trabalho dos atores coadjuvantes não ajuda a esconder os maiores defeitos do filme. Jolie é magra demais para convencer na maior parte das acrobacias das cenas de ação, embora tenha afirmado recentemente que as realizou sem o uso de dublês. Algumas das mesmas cenas, são extremamente parecidas com as já vistas na trilogia Bourne, fazendo com que o público muitas vezes se sinta incrédulo com o que está acontecendo na tela.
A própria música do compositor americano James Newton Howard soaria bem em O Fugitivo (trabalho que lhe rendeu uma de suas 8 indicações ao OSCAR), com toques mais graves de elementos eletrônicos e de percussão, mas também não foge ao clichê de usar pesadas guitarras elétricas e tambores toda vez que Salt realiza uma de suas sequências mais "extraordinárias".
O roteiro de Kurt Wimmer (Código de Conduta, Os Reis da Rua) faz de tudo para que a verdadeira identidade de Salt seja negada ao espectador. Contudo, conforme as cenas de ação vão se desenrolando e as improbabilidades se acumulando, o espectador é levado à uma iminente continuação e permanece preso entre duas possibilidades sobre a verdadeira identidade da personagem Salt.
Uma delas é que Salt é quem diz que é (ainda lembrando Jason Bourne, só que voltada para o sexo feminino). A outra é a mais plausível de todas. Por que, apesar de todas as acrobacias, pirotecnias e reviravoltas, Salt é ninguém menos que Angelina Jolie.

"Salt". Título original: "Salt". Nacionalidade: EUA. Ano: 2010 Diretor: Phillip Noyce. Roteiro de: Kurt Wimmer. Produzido por: Lorenzo di Bonaventura e Sunil Perkash Estrelando: Angelina Jolie, Liev Schreiber, Chiwetel Ejiofor e Daniel Olbrychski. Música de: James Newton Howard Duração: 100 min. Resenha escrita por: Roberto F. F. Causo Nota: 6,5/10