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domingo, 5 de junho de 2011

A vitória da Escuridão


Tudo parecia lindo e gracioso na nova adaptação para o cinema, dos quadrinhos da Marvel, X-Men. Até passados os primeiros cinco minutos.

Depois das duas últimas adaptações de um dos mais famosos - e melhores - histórias e quadrinhos de todos os tempos, os maiores fãs da série X-Men, pareciam que respirariam aliviados com a nova adaptação feita pelos estúdios Marvel, X-Men Primeira Classe (X-Men First Class, EUA, 2011), do diretor de Kick-Ass, Matthew Vaughn.
Tudo começa nos campos de concentração da Polônia, quando um garoto descobre poderes capazes de controlar metais, quando sua família é enviada para o campo de concentração. Parecido com a abertura do primeiro filme? Pois bem, a nova adaptação dos quadrinhos começa exatamente com a mesma cena do primeiro filme, até em termos de trilha sonora. O então jovem Erik Lehnsherr passa a se tornar uma experiência científica, nas mãos de uma espécie de "Médico-Monstro", interpretado por Kevin Bacon, que depois se revela o inimigo principal da turma dos X-Men, Sebastian Shaw.
O que o novo filme procura fazer, é simplesmente mostrar a origem de alguns dos personagens principais da saga, como o professor Xavier (James McAvoy) e Magneto (Michael Fassbender). Não é muito tempo depois da CIA descobrir a existência dos mutantes, com uma ajuda do próprio Xavier, que seu destino e o de Erik se cruzam, formando uma aliança para deter Sebastian Shaw, também um mutante, de iniciar a Terceira - e nuclear - Guerra Mundial, iniciando a Crise dos Mísseis de Cuba.
Eram poucas as coisas que podiam dar errado nesta super-produção. Um elenco fantástico, que inclui também Oliver Platt e Jennifer Lawrence (no papel de Mística), e 2 horas e 12 minutos para desenvolver uma boa história e os personagens.
Não foi o que aconteceu. Pois como qualquer super-produção que se preocupa mais em gastar seu babilônico orçamento em efeitos visuais do que num roteirista ou diretor decentes, X-Men Primeira Classe começa a declinar vertiginosamente ao término da primeira cena, que aliás, foi dirigida por Brian Singer.
Os efeitos especiais que esbanjam as telas são irrealistas e mal utilizados. Difícil de entender é a nova moda dos produtores de criarem explosões geradas por computador, tornando-as falsas e plastificadas, enquanto as indústrias de maquetes vão à falência.
Durante mais de duas horas de filme, o tempo é desperdiçado em constantes mal-coreografadas e mal-filmadas cenas de ação, do que no desenvolvimento dos próprios personagens, da história, ou mesmo dos péssimos usos de fotografia e edição, que impedem a contemplação de uma direção de arte expressiva.
A trilha sonora por Henry Jackman vai totalmente contra as obrigações de qualquer compositor de músicas para cinema. Tanto a trilha deste filme não o conduz, como não o eleva, sustentando-se na repetição constante de um tema musical pouco expressivo, que torna-se irritante depois de algum tempo.
O roteiro procura ser mais inteligente, mas acaba criando um grupo de personagens desinteressantes sem empatia ou química entre si, cujos dilemas de solidão, abandono e preconceito social, transmutam-se em algo raso e monocromático. A direção de Vaughn então, tampouco consegue extrair o melhor de seu maravilhoso elenco, como não consegue transpor os poucos momentos de profundidade que o roteiro lhe permite.
Fato é que estes novos X-Men, são tão inumanos quanto os protagonistas humanos, que aliás, morrem de maneira dispensável, como água pingando da torneira durante o filme inteiro. O que Brian Singer e Christopher Nolan conseguiram fazer em suas adaptações dos X-Men e do Batman, foi tornar seus personagens humanos. Quando eles são desprovidos de humanidade, suas tristezas, conquistas ou dilemas tornam-se não apenas desinteressantes, como pouco importantes.
O novo X-Men é um filme frio, que, embora esteja predestinado a fazer mais sucesso do que a outra adaptação da Marvel, Thor, carece de simpatia ou charme como seu companheiro nórdico esbanja. E se em relação às suas duas adaptações anterioras, X-Men o Confronto Final e X-Men Origens: Wolverine, Primeira Classe seja claramente uma evolução, ser comparado a obras tão ridiculamente asquerosas, não é sinal de elogio.
O filme sequer tem a decência de prestar atenção a detalhes óbvios e conhecidos de qualquer fã da série, criando relações interpessoais inexistentes nas histórias originais, e assim como o grande George Lucas fez com sua obra prima, Star Wars, criando situações inconsistentes com os próprios filmes da série.
Como a maioria das prequências que estão sendo lançadas no cinema, X-Men Primeira Classe, termina em tristeza. George Lucas o fez, ao narrar a trajetória de corrupção de Anakin Skywalker, para seu superego, Darth Vader. Aqui, o mesmo acontece, só que desta vez com Erik Lehnsherr e seu superego, Magneto. Afinal, quando se é abandonado e odiado pela sociedade, ceder para o lado da escuridão fica muito mais fácil.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Não há calor na terra do frio



Filme estrelando Viggo Mortensen é uma compilação de paisagens apocalípticas, mas perde o sentido expresso no livro de Cormac McCarthy.




Comarc McCarthy é considerado um dos maiores autores americanos da atualidade, senão o maior e seu romance A Estrada, venceu o prêmio Pulitzer na categoria de melhor ficção. Isso faz com que o livro seja uma das obras mais difíceis de serem adaptadas cinematograficamente, não por suas complexidades técnicas, mas sim pelas morais, as que se escondem nas entrelinhas e nas profundezas da alma gelada do romance.


A Estrada (The Road, EUA, 2009) é dirigido por John Hillcoat, um australiano conhecido por filmes de faroeste, que se interessou em adaptar a obra de McCarthy quando ninguém mais o fez.


Talvez devesse ter permanecido assim, afinal, McCarthy é um dos autores mais difíceis de se adaptar com qualidade. Todos os Belos Cavalos, obra que inicia a trilogia Fronteiras, foi adaptada por Billy Bob Thorton e estrelando Matt Damon. Não passou de um filme bom, mas nada demais. Onde os Fracos Não Têm Vez (Onde os Velhos não Têm Vez na tradução original) foi adaptada pelos irmãos Coen e recebeu 4 vitórias no OSCAR, incluindo a de melhor filme.


Isso demonstra o potencial das obras do autor americano, mas também suas complexidades. Quando bem adaptadas, elas são vencedoras de prêmios da Academia, mas quando mal adaptadas tornam-se filmes banais, sem impacto ou profundidade.


É o caso de A Estrada.


Num futuro não muito distante, alguma coisa aconteceu. Provavelmente uma guerra nuclear, que devastou todo o globo, deixando um deserto de árvores mortas e prédios abandonados num eterno inverno. Nessa paisagem cinza e fria e hostil, pai e filho viagem pelas estradas americanas rumo ao norte, equipados somente com cobertores e um carrinho o qual empurram rumo ao litoral, sem saber o que encontrarão quando chegarem lá. No processo, são perseguidos por uma turpe de canibais, tudo o que restou da raça humana.


Por mais simples que seja a trama seja, ela esbanja profundidade e emoção, de uma maneira árida e gelada. A começar pela ausência de nomes aos personagens. Não há calor no mundo ao redor de ambos os protagonistas. Não há calor entre eles. Seus diálogos são frios e o destino deles é incerto. O menino, mais jovem no livro, pergunta constantemente ao pai, o que os difere daqueles que os perseguem.


Estrelando Viggo Mortensen no papel do pai, é difícil imaginar melhor escolha para o papel. E de fato ele proporciona uma atuação impressionante, mesclando-se ao ambiente árido e frio. Entretanto, com grandes nomes marcando presença em pontas, a atuação de Mortensen é ofuscada pelo desempenho assustador de Robert Duvall, irreconhecível como o velho que pai e filho encontram na estrada.


O maior problema do filme é sua tentativa quase constante de criar calor entre os personagens ou situações, coisa que não existe no livro de McCarthy. Uma das obras mais difíceis de se ler, criou uma tentativa frustrada de apresentar emoção entre o homem e sua esposa (Charlize Theron) ou ele e seu filho.


Não que isso seja errado. Mas neste caso, na tentativa talvez de, "poupar" o espectador de um filme que seria quase insuportável de ser assistido, Hillcoat e o roteirista Joe Penhall tentaram criar uma coisa que não deveria existir. O fogo, aquele que o menino carrega juntamente de seu pai, é uma chama pequena e trêmula, mas seu poder torna-se maior durante as páginas do livro, justamente pela ausência de quaisquer outras formas de luz.


E infelizmente, A Estrada perdeu a mensagem mais importante que havia no livro, e que o tornava uma das obras de ficção mais avassaladoras e emocionantes da história recente. O fogo é fraco, sua chama é baixa, trêmula e seu brilho, pequeno. Contudo, enquanto o mundo se foi, apagado pelo inverno, pela secura e pela violência, o fogo que mantém acesa a alma da humanidade continua aceso.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Um aloprado à beira de um ataque de nervos



Filme dirigido por Martin Scorcese e estrelado por Leonardo DiCaprio, é, infelizmente, um dos filmes que não devem ser assistidos duas vezes.




Baseado em um romance de Dennis Lehane, Ilha do Medo (Shutter Island, EUA, 2010) foi adaptado para os cinemas pelo consagrado diretor Martin Scorcese, com um elenco de peso que incluia Leonardo Di Caprio, Mark Ruffallo, Ben Kingsley, Michelle Williams e Max Von Sydow.


Em 1954, um oficial federal chamado Ted Danniels (DiCaprio) é enviado até Shutter Island para investigar o misterioso desaparecimento de uma mulher chamada Rachel. O lugar é uma instituição psiquiátrica de segurança máxima que fica em uma Ilha no estilo de uma história de Alexandre Dumas, responsável pelo tratamento dos criminosos insandecidos mais violentos e rejeitdaos pela sociedade e outros sistemas carcerários.


Juntamente de seu parceiro, Chuck Aule, Teddy irá desvendar segredos obscuros em Shutter Island, que envolvem mais do que a irresponsabilidade dos médicos e seguranças que deixaram a fugitiva em questão escapar, mas a possibilidade de experimentos científicos com os prisioneiros, e outras coisinhas sórdidas.


O diretor do local, John Cowley, interpretado por Ben Kingsley, é desde cara o tipo de sujeito que não deixará dois oficiais federais estragar, seja lá qual for o objetivo que ele está tentando alcançar. E durante toda a "peregrinação" pelha ilha do medo, Teddy e Chuck irão de deparar com uma série de mentirosos e seguranças psicopatas, que estão escondendo um segredo profundo e assustador dentro do hospital.


Ainda que possúa uma premissa muito interessante e fiel ao livro de Lehane, responsável por trabalhos como Sobre Meninos e Lobos (adaptado por Clint Eastwood), o filme que começa muito bem, proporcionando um clima tenso e atmosférico, vai descarrilhando rumo ao final.


Mas nada comparado ao que acontece nos últimos trinta minutos da obra.


Já é de longa data a mania de Hollywood de criar filmes com reviravoltas "inteligentes" no final. M. Night Shyamalan fez isso em O Sexto Sentido e deu certo. Abusou muito nos filmes posteriores e deu errado. Tony Gilroy usou e abusou disso em Duplicidade e funcionou também, mas Martin Scorcese, embora seja um diretor talentoso e conceituado, não é nem M. Night Shyamalan nem Tony Gilroy. E muito menos Alfred Hitchcock, ou seja lá que mais ele se inspirou para fazer o filme.


O que é uma pena. Durante grande parte do filme, ele parece seguir por uma trajetória muito promissora, mas depois desencana numa reviravolta que pode surpreender os mais desatentos, mas desapontar - e muito - aqueles que prestaram mais atenção em certos aspectos fundamentais do filme.


E ainda que funcione de alguma forma em ambos os casos, torna o filme impossível de ser assistido uma segunda vez, sem que as improbabilidades tornem-se palpáveis e as incoerências insuportáveis.


Isso não é culpa inteiramente de Scorcese. Aliás, mérito dele por tentar criar algo diferente do gênero do gangsterismo, o qual ele está acostumado. Tanto Lehane quando o cineasta, falharam em aproveitar ao máximo o que uma trama "mais simples" podia oferecer, voltando-se para a reviravolta. O problema de tal recurso, é que ele tende a criar o "efeito rebobina", no qual o espectador (se for do tipo observador), irá procurar ao longo da memória, todos os detalhes da trama que poderiam ter entregue o final mas não entregaram (ou entregaram).


A direção de Scorcese é falha, e é incapaz de manter o espectador na ponta da cadeira, criando um clima de medo e suspense. Desde o começo do filme, é óbvio que o personagem de Di Caprio está derrapando entre os limites da lucidez e da insanidade e conforme o filme passa, ele se torna mais um aloprado à beira de um ataque de nervos, do que um oficial federal que seria chamado para uma instituição repleta de loucos. Só não sabemos por que ele está assim. Uma direção mais sóbria e uma atuação menos intensa por parte do ator principal, poderiam ter feito a diferença na hora de criar o impacto indesejado.


Mas não em costurar os furos do roteiro/livro, que é quase uma peneira de impossibilidades. Entretanto, o livro possui um clima muito mais ágil e bem humorado, que faltou ao filme, por opção do cineasta ou da roteirista Laeta Kalogridis, que providenciou o roteiro. Estes elementos poderiam ter criado um clima ainda mais envolvente, que só é providenciado pelo ótimo trabalho de produção e pelo soberbo trabalho de fotografia de Robert Richardson.


O elenco ainda é bem aproveitado, com boas atuações de Kinglsey, Ruffallo, Von Sydow e Michelle Williams, como a falecida esposa de Teddy, que aparece em flashbacks. Outras participações, como as de Elias Koteas e Jackie Earl Haley tornam Ilha do Medo uma das obras com o melhor elenco dos últimos anos.


Ao cineasta Martin Scorcese sempre faltou sutileza, algo necessário para um filme de suspense, cuja trama vai se desenrolando até o final - ou não. Ao roteiro e ao livro, faltaram consistências que permitissem o resultado final, ser plausível.


Ilha do Medo ainda é um filme envolvente que mantém o espectador relativamente preso numa trama que parece ser bem elaborada, mas não é. É divertimento descompromissado para quem só quer se sentir angustiado durante duas horas e pouco. Mas para quem quer algo mais inteligente, existem opções melhores. Para quem gostou da primeira vez, melhor não ver a segunda.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Um Banho de Sangue


Dentre tudo o que se pode esperar do filme de Paul Thomas Anderson, o principal é sangue.


Upton Sinclair foi um escritor vencedor do premio Pulitzer, nascido em 1878 em Baltimore, Maryland, nos EUA. Autor de mais de 90 livros dos mais diversos gêneros, Oil!, uma sátira política publicada em 1927 foi adaptada no ano de 2007 pelo diretor Paul Thomas Anderson (Boggie Nights, prazer sem limites e Magnólia) sob o nome de Sangue Negro (There Will Be Blood, EUA, 2007).


Candidato sério ao OSCAR daquele ano, o filme recebeu 8 indicações, vencendo em duas categorias, a de melhor fotografia e melhor ator para Daniel Day Lewis.


Lewis representa Daniel Plainview, um prospector de petróleo no começo do século XXI, mesma época em que o romance foi publicado. Após ser contatado por um jovem rapaz chamado Paul Sunday (interpretado por Paul Dano, o astro de Pequena Miss Sunshine), ele e seu filho, H.W. Plainview (adotado após a morte de seu verdadeiro pai, um dos trabalhadores de Daniel, apresentado no começo do filme) viajam até um pequeno vilarejo na Carolina do Sul, sob a promessa de que há grande quantidade de petróleo debaixo das areias do deserto.


Alguma coisa se esconde embaixo daquelas terras, certamente e não é só petróleo, o sangue negro que corre pelas veias da sociedade capitalista, fazendo moverem-se os motores da terceira revolução industrial, logo no começo do século passado. Alguma coisa mais perversa e incandescida se esconde por debaixo da areia, onde Plainview irá perfurar e chegar a lugares que ele desejaria nunca ter visitado.


No pequeno vilarejo ele se defrontará com Eli, irmão gêmeo de Paul que deu a informação à Plainview sobre a existência de petróleo. Dono de uma pequena paróquia da Igreja da Nova Renascença ele será a força que colidirá de frente com Daniel Plainview. E a partir do primeiro momento em que os dois são colocados frente à frente, estará iniciado um confronto mortal entre espíritos extremamente poderosos e gananciosos.


Plainview e seu filho se estabelecem no vilarejo e começam seu trabalho de prospecção. Ao perfurarem um bolsão de gás que explode, o filho de Daniel é seriamente ferido, perdendo totalmente a audição. Uma coluna de óleo negro jorra em direção ao céu, depois se incendiando em uma espada flamejante gigantesca. É o sinal que Plainview procurava: um oceano de petróleo debaixo de seus pés. E desse momento em diante, ele mergulha num oceano ainda mais perverso: o de sua mente.


Sob as mãos de Paul Thomas Anderson, conhecido por seus trabalhos “pouco comuns” como Boggie Nights e Magnólia, o filme assume um tom de estranheza, incomodativo. Conforme Daniel vai enlouquecendo, caindo nas profundezas mais escuras de sua mente e coração, o filme vai se tornando cada vez mais denso e pesado.


A fotografia vencedora do OSCAR de Robert Elswit possui, em sua maior parte, tons esverdeados, realçando a paisagem inóspita e surreal dos desertos do sul dos Estados Unidos. Sempre em movimento, por vezes mergulha o espectador no universo do filme, por vezes foge de seus personagens principais, criando ângulos estranhos e quadros quebrados onde o protagonista aparece no canto, e nem todas as vezes por inteiro.


A música do guitarrista da banda Radiohead, Johnny Greenwood, assume maior destaque. Ela é um personagem da história, tanto quanto Daniel, seu filho e Eli. Ao som de ritmos diferentes colocados um sobre o outro e violoncelos elétricos que explodem em uma melodia aterrorizante, é a representação dos calabouços da cobiça e vingança no qual Daniel afunda e se aprisiona, além de crescer conforme o embate entre ele e seu inimigo mortal Eli, vai alcançando proporções catastróficas.


Naquele deserto, Plainview irá encontrar não somente a realização de todos as suas ambições, como também a destruição de todos os fundamentos de sua moralidade (se é que houve alguma) e da família que ele mantinha com seu filho. Encontrará um rival e descobrirá o lado mais perverso de sua humanidade (se é que ela existiu).


Sangue Negro é um filme de horror. Embora não apresente uma visão tão dogmática quanto a do romance de Sinclair, é uma clara analogia ao sistema capitalista, que abraçou a filosofia do petróleo como combustível para suas conquistas sobre os outros países, suas guerras e seus sacrifícios. A ganância dos ricos prevalecendo e a miséria dos pobres aumentando. Em sua cobiça, tanto a nação cuja filosofia Plainview defende quanto o próprio Plainview, irão descobrir que durante a jornada, haverá cobiça. Haverá vingança. Haverá sangue.



"Sangue Negro". Título original: "There will be blood". Ano: 2007 Nacionalidade: EUA Dirigido por: Paul Thomas Anderson. Roteiro de: Paul Thomas Anderson - baseado no romance "Oil" de Upton Sinclair. Produzido por: Daniel Lupi, JoAnne Sellar e Paul Thomas Anderson. Estrelando: Daniel Day Lewis, Paul Dano e Ciarán Hinds. Música de: Johnny Greenwood. Duração: 158 min. Resenha escrita por: Roberto F. F. Causo. Nota: 9,0/10


terça-feira, 7 de setembro de 2010

Corações na Atlântida



Filme do diretor Scott Hicks e baseado num romance de Stephen King, conta uma história de um lugar mágico e antigo dentro do coração humano.


Lembranças de um Verão (Hearts in Atlantis, EUA, 2001) é baseado num romance de Stephen King, chamado Hearts In Atlantis, título original do filme. Na história que acompanha somente um breve período da obra original, Bobby Garfield, interpretado por Anton Yelchin (Star Trek) e David Morse (À espera de um Milagre) relembra seus momentos de infância em uma pequena cidade dos EUA, quando ele e sua mãe viúva encontram um homem estranho, Ted Brautigan (Anthony Hopkins) que está se ospedando no andar de cima de sua casa.
Extremamente culto e caloroso, Brautigan assume a figura paterna que Bobby nunca teve. Figura, que aliás é constantemente degradada por sua mãe (Hope Davis). Contudo, por trás de uma aparência triste e serena, Brautigan, ou simplesmente Ted, esconde um segredo grande demais para a compreensão do garoto, ou de sua melhor amiga, Carol (Mika Boorem) ou de sua mãe. Um segredo que irá acarretar uma série de acontecimentos que irá mudar a vida de Bobby para sempre.
Como qualquer criança de sua idade, Bobby vê o mundo com olhos em dourado. Característica que é amplamente explorada pelo diretor Scott Hicks, aclamado pelo seu trabalho em
Shine - Brilhante de 1996. No mundo do começo da década de 60, ele mostra um universo diferente. Caloroso, onde dias podem durar uma eternidade. Assume constantemente o olhar do menino, que aos seus onze anos de idade, vive o último ano de sua infância.
Mas a magia está além dos olhos infantis de Bobby, Carol e seu outro amigo Sully, que no começo do filme é apresentado como um herói de guerra que foi morto em um trágico acidente de carro. Bobby, interpretado adulto pelo fabuloso David Morse, começa a relembrar os momentos mais marcantes daquele breve verão, no qual ele conheceu Ted e nessa época,.a magia já se foi, restando somente um sinal ou passagem.
Entretanto, a escuridão circunda a vida daquele misterioso homem, que rapidamente cativa o menino (e vice-versa). Uma sombra na forma de carros grandes e chamativos, normalmente pretos e barulhentos, e também na figura de homens vestidos de sobretudos pretos e chapéus. São chamados "Homens Ordinários", mas na verdade são os "Homens Baixos", apresentados na história de King de uma forma muito mais assustadora. E é na figura destes homens que Bobby irá descobrir, aos poucos, a identidade secreta em Brautigan, capaz de presenciar eventos inexplicáveis, que normalmente só pertenceriam à imaginação da criança.
A fotografia do Polonês Piotr Sobocinski que faleceu no mesmo ano do lançamento do filme, funciona na forma de cores douradas e quentes durante toda a infância de Bobby, assumindo tons tristes e sombrios em sua fase adulta, como se a magia aos poucos desaparecesse da vida das crianças para dos adultos. O constante uso de espelhos, remete aos reflexos da identidade de Bobby e de Ted, assim como passagens para um lugar parecido com o nosso, mas não exatamente igual. O lugar de onde Ted vêm.
A música, de Mychael Danna é triste, serena e nostálgica, relembrando a época da inocência que Bobby pensa com tanto carinho. As lembranças de seu primeiro amor, Carol, e de seu primeiro amigo adulto, Ted, que lhe proporcionou algo mais do que uma simples amizade.
É um filme delicado e nostálgico. Seja nos tons dourados da fotografia, nos pianos e flautas da trilha sonora, na atuação serena e profunda de Anthony Hopkins e Anton Yelchin que demonstra maturidade e sinceridade em um difícil papel. O mesmo válido para Hope Davis, que interpreta sua mãe, uma mulher revoltada e desatenta para as dificuldades do amadurecimento de seu filho.
As origens de Ted Brautigan permanecem um mistério tanto para Bobby quanto para o espectador. Contudo, nas histórias de King, normalmente conectadas umas com as outras, acabam tornando-se mais evidentes, seja em
Lembranças de um Verão, em A Torre Negra, ou qualquer outra história em que os Homens Baixos se escondam nas sombras e becos escuros.
Contudo, algo que se torna claro durante o decorrer dos 100 minutos da obra-prima de Scott Hicks, é que Ted não é daqui. E em seu contato com Bobby, ambas as suas vidas serão mudadas de uma forma que nenhum dos dois imaginou ser capaz. O lugar de onde Ted veio, e para onde vai, é longe e antigo. É o lugar para onde o filme nos leva. Um lugar mágico e esquecido pelo tempo, onde os olhos das crianças enxergam com maior intensidade. Um lugar como a Atlântida deve ter sido.


"Lembranças de um Verão". Título original: "Hearts in Atlantis". Nacionalidade: EUA Dirigido por: Scott Hicks. Roteiro de: William Goldman - baseado no romance "Hearts in Atlantis" de Stephen King. Produzido por: Kerry Heysen. Estrelando: Anthony Hopkins, Anton Yelchin, Hope Davis e David Morse. Música de: Mychael Danna. Duração: 101 min. Resenha escrita por: Roberto F. F. Causo Nota: 10/10

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Uma analogia ao tempo


No novo filme do diretor M. Night Shyamalan, o maior problema e a maior conquista vêm do tempo.

Depois de dois fracassos de bilheteria e público, com Fim dos Tempos e A Dama na Água, ao final de 2008, o diretor/roteirista indiano, M. Night Shyamalan assumiu a difícil tarefa de adaptar para os cinemas o sucesso do canal Nickelodeon, Avatar a Lenda de Aang (título brasileiro), criada por Michael Dante DiMartino e Bryan Konietzko.
Em um universo fantástico, as nações do ar, água, terra e fogo viviam em harmonia até que a nação do fogo entrou em guerra com as demais, com o intúito de escravizá-las. O então Avatar, um menino chamado Aang, capaz de controlar os quatro elementos, desaparece por 100 anos, até que é redescoberto por dois irmãos, Katara (interpretada por Nicola Peltz) e Sokka (interpretado pelo astro da saga Crepúsculo, Jackson Rathbourne
), que o leva a uma jornada para reestabelecer o equilíbrio entre as quatro nações.
É com essa proposta que Shyamalan apresenta O Último Mestre do Ar (The Last Airbender, 2010). De cara este material apresenta uma dificuldade com a qual o diretor
não está acostumado a lidar. O uso extensivo de efeitos visuais, além do trabalho com o primeiro material que não é de sua autoria.
Além disso, grande parte das críticas já estava acostumada a massacrá-lo, após o lançamento de A Vila
(2004), fazendo com que este pudesse ser seu maior fracasso crítico até agora.
E foi exatamente
o que aconteceu. Logo após o lançamento do filme, este recebeu críticas abismais, tanto do público quanto da crítica internacional, além de incontáveis pedidos para a aposentadoria do diretor.
O fato é que o jovem diretor indiano jamais conseguiu repetir seu sucesso de O Sexto Sentido (1999), embora tenha dirigido filmes da mesma qualidade, ou até melhores, como Corpo Fechado, além de Sinais e A Vila. Contudo, a partir da fantasia criada para seus filhos, A Dama na Água,
Shyamalan começou a ser bombardeado por uma multidão enfurecida de público e críticos.
O Último Mestre do Ar
é o mais recente na lista decrescente de sucesso crítico que Shyamalan dirigiu. Contudo, é, muito provavelmente, uma das maiores injustiças dos últimos anos.
De fato o filme apresenta graves problemas. Com um orçamento de 150 milhões de dólares, Shyamalan se mostrou claramente despreparado para a tarefa, a de comandar dezenas de figurantes, construir cenários gigantescos e manejar grandes quantidades de computação gráfica, em uma época em que o emprego desses elementos é muito comum na maioria das franquias norte-americanas.
Numa tentativa de adaptar a primeira temporada inteira (Livro um: Água
), composta de 20 episódios de meia hora cada, o maior problema do filme é sua duração. Com pouco mais de uma hora e meia, os acontecimentos tornam-se corridos e o espaço para explicações, limitado.
A dupla de atores masculinos, Jackson Rathbourne e Dev Patel (astro de Quem quer ser um Milionário, interpretando o antagonista, Zuko no filme), é outro ponto fraco do filme. Rathbourne sustenta o péssimo hábito de não piscar, enquanto Patel apresenta-se forçado demais no começo do filme, embora apresente considerável evolução com o decorrer da história. Ainda assim, uma decepção, já que Shyamalan era conhecido por ser um ótimo diretor de crianças, vide Hale Joel Osment em O Sexto Sentido
.
Contudo, o casal de estrelas infantis, Noah Ringer (Aang) e Nicola Peltz (Katara), sustentam seus personagens muito bem, esbanjando não só semelhança com os da série original, como simpatia e sem esforço. Notável a atuação dos adultos, Cliff Curtis e Shaun Toub, que interpretam o pai e o tio de Zuko respectivamente.
No que peca na atuação problemática e na falta de diálogos consistentes, aliados a um roteiro corrido e com poucas explicações para os desconhecidos da série, Shyamalan acerta em cheio no aspecto visual, seja na cenografia extraordinária, ou no ótimo uso da computação gráfica. A trilha sonora composta pelo seu colaborador, James Newton Howard, que compôs a música para todos os filmes do diretor, é impecável, incrivelmente bem sintonizada com os acontecimentos do filme, além de mergulhar o espectador em uma enxurrada de emoções.
O filme funciona num crescendo, terminando num final emocionante que dá gancho a uma possível (embora improvável) continuação.
É um filme de contemplação, delicado e espírita, repleto de beleza e uma fluidez, que o personagem Aang descobrirá em sua jornada, é que controla o mundo. A nossa descoberta, seja como espectador, ou como crítico, é que M. Night Shyamalan ainda é um dos diretores de maior visão e sensibilidade atualmente, e seu último filme não é exceção. Se um dia ele receberá o reconhecimento que merece, é impossível dizer. O tempo dirá.





"O Último Mestre do Ar". Título original: "The Last Airbender". Nacionalidade: EUA Diretor: M. Night Shyamalan. Roteiro de: M. Night Shyamalan - baseado na história e personagens de Michael Dante DiMartino e Bryan Konietzko. Produzido por: Frank Marshall, Sam Mercer, Scott Aversano e M.Night Shyamalan. Estrelando: Noah Ringer, Dev Patel, Nicola Peltz, Jackson Rathbourne, Shaun Toub e Cliff Curtiss. Música de: James Newton Howard. Duração: 103 min. Resenha escrita por: Roberto F. F. Causo Nota: 8,0/10