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quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Doce Ilusão



Filmes como O Mágico de Sylvain Chomet, são raras provas de que existe um mundo além da PIXAR.




Houve um homem chamado Jacques Tati, que nasceu na França em 1907. Tinha 1 metro e 91 de altura, vestia uma capa meio beje toda armafanhada, a calça na altura do umbigo, e possuía uma capacidade extraordinária de entreter o público com suas mímicas sem som. Com apenas 9 créditos como diretor de filmes, ele foi elento o 46º melhor diretor de todos os tempos, possuíndo títulos como Meu Tio, e Carrossel da Esperança, no final dos anos 40 até os anos 50.


Tati morreu em 1982, sem ver filmado seu roteiro para O Mágico (I'illusionniste, FRA, 2010), que foi então adaptado pelo diretor Sylvain Chomet, de As Bicicletas de Belleville. Nesta história que se passa em Edimburgo, Tati em forma de desenho, é um mágico francês decadente, que vê sua carreira desabar na onda de astros de rock duma Europa pós Segunda Guerra. Forçado a aceitar trabalhos em teatros quase abandonados, festas e bares, Jacques viaja por vários lugares da Europa em busca de seu sustento, até que na Escócia ele encontra uma jovem fã que muda sua vida para sempre.


Sem diálogos e somente com 80 minutos de duração, O Mágico é um filme de animação pra lá de diferente. E eis uma das coisas boas dos "desenhos animados". Ao contrário dos filmes que estrelam atores reais, as animações, sendo elas de qualquer parte do mundo, proporcionam ao espectador uma viagem a lugares, mundos, situações e personagens que jamais seriam possíveis no cinema com pessoas reais, por mais avançadas que sejam as técnicas de filmagem.


Isso ocorre por causa das diferenças entre a aceitação de um filme e de uma animação. Em desenhos, tudo é plausível e as implausibilidades tornam-se aceitáveis em qualquer circunstância. Brinquedos podem ganhar vozes de astros de cinema, e personalidades próprias. Cidades podem flutuar e casas podem ser erguidas por balões. Robôs podem emocionar pessoas e carros podem ganhar vida nas mãos de um hábil diretor. Uma menina pode se perder em uma casa de banho para Deuses e um mágico pode procurar significado em sua vida, enquanto a única coisa que ele sabe fazer já não é mais necessária.


Sylvain Chomet é, certamente, um dos maiores cineastas da atualidade, em qualquer gênero, sendo comparado somente a gênios como outro animador, o japonês Hayao Myiasaki, de A Viagem de Chihiro. Requer muita coragem e perícia para fazer um filme sem diálogos, contando apenas com as ações dos personagens e um fundo musical.


E aliás, que fundo musical. Composta pelo próprio diretor que também adaptou o texto original de Tati, a música é personagem integrante da história, tanto quanto Tati e a jovem que o acompanha em sua jornada por teatros caindo aos pedaços e sem público. Ela da voz às animações, carregando o espectador no colo durante pouco mais de uma hora de filme.


O Mágico é uma evolução extraordinária em termos de trajetória. Começa com muito humor, mas um humor sutil, que requer atenção aos planos secundários das cenas para ser admirado em toda a sua magnitude. E conforme a história se passa, os pianos suaves e cordas gentis vão acompanhando Tati, em um mundo que vai se transformando num lugar cada vez mais triste e mais frio.


O filme de Chomet é de partir o coração, e seu impacto emocional permanece durante muito tempo, engasgado no peito de quem o assistir. Não é uma história para crianças, e embora possa ser assistido por todas as idades, só pode ser realmente compreendido em toda sua beleza e profundidade por alguém mais atento. É uma poesia digna da lista das melhores animações já feitas, lado a lado com o mestre japonês Miyasaki, que também é capaz de transpor emoções como ninguém mais.


Três filmes de animação estão indicados este ano ao OSCAR de melhor animação. Toy Story 3 da Pixar, Como Treinar o Seu Dragão da Dreamworks, e O Mágico. É difícil acreditar que depois da obra prima que foi Toy Story, algo pudesse superá-lo, mas O Mágico conseguiu.


Assim como o ofício de Tati, os filmes de animação que são realmente desenhos, estão deixando de existir, em uma indústria dominada por animações computadorizadas que custam de 100 a 200 milhões de dólares, ou mais. O Mágico custou 11 milhões de euros. O que prova que orçamento é o menor dos problemas quando se trata de contar uma boa história.


Por enquanto, a indústria cinematográfica americana continuará na ilusão de que domínia a doce arte da animação. Mas a verdade é que por trás dos muros da Pixar, da Dreamworks e da Fox, existe todo um mundo. Enorme, profundo e belo.



sábado, 5 de fevereiro de 2011

O tubarão e o pato





Filme estrelado por Mark Wahlberg e Chrisitan Bale narra a trajetória do lutador Micky Ward com incrível humanidade e realismo.



Um dos 10 indicados ao OSCAR 2011, O Vencedor (The Fighter, EUA, 2010) vai de um festival de improbabilidades, começando pelos seus dois protagonistas, a um dos melhores filmes do ano, em um dos melhores anos da história recente.

Micky Ward (Mark Wahlberg) tem uma carreira medíocre como pugilista proficional, ministrado pela sua mãe (Melissa Leo) e treinado pelo seu irmão, Dicky Eklund (Christian Bale), um ex-lutador que tornou-se viciado em crack.

É quando ele perde uma luta transmitida pela ESPN, que Micky decide dar um novo rumo à sua vida e sua carreira, desistindo de lutar e começando um relacionamento como uma barman, Charlene Fleming (interpretada por Amy Adams).

Depois de algum tempo sem lutar, Micky começa a treinar novamente, mas sem a tutela do irmão, Dicky que foi preso pela 27ª vez, por roubo, tráfico e agressão a um policial.

Após vencer sua primeira luta em muito tempo, Micky entra em conflito com a família, após o retorno do irmão da prisão, ao mesmo tempo tendo uma levantada meteórica, no maior estilo Rocky Ballboa ou neste caso, James J. Braddock, cujo retorno virou o filme dirigido por Ron Howard, A Luta Pela Esperança.

Com tantos filmes clássicos do gênero, O Vencedor precisaria de algo a mais para ficar no mesmo patamar, com um dos grandes filmes sobre pugilismo.

Guiado por um diretor acostumado com comédias, David O. Russell assumiu o comando de um projeto que possúia tudo para dar errado, mas deu certo.

A começar pelo protagonista Mark Wahlberg, o pato que se transformou em tubarão dentro de Hollywood. Nascido em Boston, o ator de 39 anos nunca foi um ator digno de muito crédito, passando de filmes ruins em filmes ruins e sendo condecorado com uma indicação ao "Framboesa de Ouro" de pior ator por seus trabalhos em Fim dos Tempos e Max Payne. Sua única indicação ao OSCAR foi pelo trabalho meramente impressionante em Os Infiltrados de Martin Scorcese, no qual engordou 16kg, para interpretar um policial em Boston.

Entretanto, quando voltou-se para a produção, sua carreira pareceu deslanchar e pouco a pouco ele tornou-se um tubarão dentro de Hollywood. Produziu séries de sucesso como Entourage e Em Terapia e este ano ganhou o Globo de Ouro de Melhor Série Dramática, por Boardwalk Empire, juntamente de seu colega-diretor, Martin Scorcese.

Por trás das câmeras e na frente delas, em O Vencedor, Wahlberg, agora ator/produtor, encontrou um dos melhores - senão o melhor - papéis de sua carreira, interpretando o lutador que se reergueu das cinzas. Contudo, acabou sendo engolido por um festival de atuações espetaculares, que começam com seu amigo, Christian Bale, que aceitou só aceitou o convite graças a Walhberg.

Bale começou como grande promessa mirim, no drama de guerra Império do Sol, dirigido por Steven Spielberg em 1987, mas durante muito tempo, não vingou. Sua arrancada começou após o destaque crítico de Psicopata Americano em 2000. Sua chance de ouro então apareceu quando Christopher Nolan o escalou para ser o novo Batman, em Batman Begins e O Cavaleiro nas Trevas, sucesso estrondoso de bilheteria e crítica por todo o mundo.

Ele imediatamente tornou-se o queridinho de Hollywood para estrelar grandes produções, assumindo o papel de John Connor em O Exterminador do Futuro - A Salvação e colocando-se no patamar de Russel Crowe, no violento Western, Os Indomáveis.

De pato para tubarão, Bale despencou novamente para pato, após desferir uma quantidade recorde de obscenidades que pararam no Youtube, nos sets de filmagem de Exterminador do Futuro. Sua chance de retornar aconteceu quando o convite para interpretar Dicky Eklund, irmão de Micky Ward apareceu.

E Bale estraçalhou o tubarão Wahlberg, com uma interpretação fora do comum, e comparável à de Heath Ledger como o coringa de Cavaleiro das Trevas (no qual Bale também atua). Conquistou sua primeira indicação ao OSCAR e possivelmente sua primeira vitória também. Mas o mérito não é somente dele.

David O. Russel foi primoroso em uma direção humana e delicada, que retrata os momentos mais íntimos da família de Micky, colocando seus atores em papéis espetaculares e desempenhos incríveis. Entretanto, sua visão do protagonista é a de um personagem sem personalidade, ou pelo menos alguém que é engolido em todos os aspectos pelos outros atores como Christian Bale, Melissa Leo e Amy Adams, e também pelos seus respectivos personagens.


No fim, O Vencedor cai no mesmo problema visto em A Origem. Apesar de ambos os filmes serem ótimos, acabam sendo infiéis às suas propostas, neste caso, a de mostrar a história de superação de Micky Ward. Há constantemente um embate entre personalidades muito fortes. Seja da mãe ou do irmão de Micky com sua namorada, ou da mãe de Micky e seu irmão, ou de Micky com o seu irmão. EContudo, em todas as ocasiões, o personagem interpretado por Mark Wahlberg desaparece na sombra de seus conterrâneos.

Entretanto, apesar de seus problemas, o filme ainda assim é um dos melhores do ano. Instigante, envolvente e emocionante, mesmo que o sentimento não seja relacionado ao seu personagem principal, visto como inseguro, imaturo e incapaz. Mas pela destreza de seus roteiristas e um desempenho espetacular dos atores coadjuvantes, o filme conquistou merecidamente um lugar de destaque como um dos melhores filmes de 2010 e do gênero do boxe.

Contudo, quem foi derrotado foi o tubarão Wahlberg. E quem venceu foi o pato Bale.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Do outro lado



Nova produção de Clint Eastwood fala sobre o mundo além da vida, mas esse tipo de filme enfrenta preconceitos e descrenças ao redor do mundo.




Clint Eastwood, ator e diretor estado-uniense entra em 2011 para completar seu 81º aniversário. Nascido em São Francisco na Califórnia em 31 de Maio de 1930, ele ficou conhecido por seus papéis nos filmes de faroeste dirigidos por Sérgio Leone, como "O Bom o Mal e o Feio" e "Por uns Dólares a Mais" e também por papéis fortes como os de Dirty Harry em "Magnum 44".


Sua carreira invejável, contudo, pode ser conhecida também por seu amplo papel como diretor. 4 vezes ganhador do OSCAR, duas por melhor diretor e duas por melhor filme, Eastwood é conhecido por dirigir grandes filmes como "Menina de Ouro", "Gran Torino" e "Os Imperdoáveis". Com raras exceções (Cowbóis do Espaço, por exemplo), os filmes do veterano diretor são conhecidos por sua temática pesada, repleto de elementos de violência, abuso infantil e etc. É uma das marcas registradas do diretor, finais nada felizes, como pode ser visto brutalmente em "Sobre Meninos e Lobos" e "Menina de Ouro".


Entretanto, recentemente ele abordou temas diferenciados, compondo uma trajetória interessante como cineasta. Seus filmes sobre a Segunda Guerra Mundial, contaram ambos os lados da invasão que aconteceu no pacífico à uma ilha pertencente ao Império japonês.


Contudo, não foi até "Além da Vida" (Hereafter, EUA, 2010) que Eastwood mudou COMPLETAMENTE de estilo de filmagem, abordagem de tema e tudo o mais que o caracteriza como um dos principais cineastas contemporâneos.


O filme narra simultaneamente três narrativas paralelas. A de um vidente que se aposentou, interpretado por Matt Damon, a de uma jornalista francesa que sobreviveu à um tsunami, interpretada por Cécile De France e um garoto cujo irmão gêmeo morreu atropelado recentemente, ambos interpretados por Frankie e George McLaren.


Com roteiro nas mãos de Peter Morgan (conhecido pelo seu trabalho em "A Rainha" e "Frost/Nixon"), o filme acompanha a vida de pessoas que possuíam ou possúem um contato íntimo com a morte, que tiveram uma perda recente e que desde então tentam seguir com suas vidas.


Com um ótimo elenco multi-continental o filme conta também com a belíssima presença de Bryce Dallas Howard, que, querendo ou não, acaba tendo um contato com algo do passado que ela preferiria esquecer, através do personagem de Damon.


O roteiro é interessante ao fundir as três linhas narrativas sem pretenção, e construir uma série de detalhes que compõem os personagens de uma forma diferente. A fotografia utiliza ângulos próximos ao rosto dos atores e a escuridão em determinados momentos, o que curiosamente estabelece uma relação intimista entre o público e os personagens.


O ponto fraco infelizmente fica à cargo do próprio Clint Eastwood, mas desta vez atuando como compositor da trilha sonora. Como é costumeiro em seus filmes, Eastwood é quem compõe as músicas para seus filmes e nesse aspecto ele deixa à desejar. Seus temas necessitavam de músicas mais marcantes e que conduzissem melhor a trama e a emoção que fica nas mãos de sua direção brilhante e do ótimo trabalho de todos os atores envolvidos, especialmente os irmãos McLaren.


É curioso pensar que Eastwood, ao chegar numa idade avançada, deseje realizar um projeto que fale justamente sobre a mortalidade e o que há além dela. Infelizmente trabalhos assim caem na incompreensão, especialmente por parte do público norte-americano, composto majoritariamente por judeus e protestantes. Nada contra as religiões, obviamente e o filme tem o cuidado de não ser dogmático ou pretencioso à ponto de estabelecer um novo ponto de vista à respeito desse assunto, mas o tema de espiritismo raramente agrada às audiências de lá.


É o caso de produções amplamente fantásticas e que falam de espiritualidade, como O Último Mestre do Ar de M. Night Shymalan e até mesmo O Curioso Caso de Benjamin Button, do diretor David Fincher. É uma fantasia que escapa a compreensão do público e consequentemente, fracassando crítica e financeiramente.


É triste dizer que a terceira produção de Eastwood com Steven Spielberg (que foi fundamental para a composição da cena de abertura) não se pagou nos EUA. Contudo, é provável que faça mais sucesso em países latino-americanos, onde tal tema é abordado mais corriqueiramente.


E ele merece. É um filme simples e delicado, que rompe com o gênero do sobrenatural, não apresentando suspense ou horror, mas sim um drama com a sensibilidade que somente Eastwood pode trazer. E que trata de uma forma reconfortante e calorosa a pergunta que mais assusta o ser humano. O que há dentro de seu coração, e o que há do outro lado.







domingo, 19 de dezembro de 2010

Rumo ao Globo de Ouro

5 filmes foram indicados ao Globo de Ouro, 2011, mas somente um vencerá. Confira abaixo os indicados com análise de qual é o melhor e qual é o favorito ao prêmio.

Melhor filme

- Cisne Negro.
O diretor Darren Aronofsky é considerado um dos mais importantes e conceituados diretores contemporâneos em Hollywood. Seus filmes normalmente contém uma carga alta de situações sociais complexas, sexo, drogas e outras coisas. Ano passado ele indicou Micky Rourke ao OSCAR de melhor ator, com seu filme O Lutador. Este ano ele lançou o drama psicológico Cisne Negro com Natalie Portman, Vincent Cassel e Mila Kunis (a Jackie da série That 7o's show). O filme é centrado na personagem de Portman, uma bailarina, e o confronto com sua rival, Mila Kunis. Ambicioso como sempre, Aronofsky criou uma das obras mais controversas e interessantes do ano. O filme recebeu 4 indicações ao Globo de Ouro, uma de melhor diretor. Portman e Kunis receberam indicações nas categorias de atriz e atriz coadjuvante, o que, para os fãs da série de comédia sobre os garotos dos anos 70, é muito interessante. O filme ainda não estreou no Brasil, portanto não é avaliado. Infelizmente, com os gigantes A Origem e A Rede Social, o cisne navega em águas turbulentas.

- O Vencedor.
Desde Touro Indomável de Martin Scorcese, estrelando Robert DeNiro, que um filme sobre pugilismo não recebia tamanha atenção do público e críticos. David O. Russell também nunca foi conhecido por fazer filmes que agradassem os membros da Academia, mas O Vencedor, com Mark Whaldberg surpreendeu a muitos. O filme estreou bem, recebeu ótimas críticas e emplacou 6 indicações ao Globo de Ouro. A obra narra a tragetória de Micky Ward, lutador e seu irmão que o treinou, durante a campanha esportiva nos anos 80. Baseado em uma história real, o filme deverá receber a maior parte de seus prêmios por parte de Bale, que mudou fisicamente de uma forma impressionante e tem a chance de conseguir sua primeira indicação ao OSCAR, assim como o Globo de Ouro foi sua primeira. Contudo, como filme ou direção, O Vencedor deverá ser nocauteado.

- A Origem.
A Origem, a nova superprodução do diretor Christopher Nolan, confirmou sua condição de renovar o gênero dos filmes de grande orçamento, com um roteiro complexo, inteligente e intrigante, repleto de ação e detalhes minuciosos, como é característico de Nolan. A trama fala de um ladrão que precisa invadir a mente de um indivíduo para plantar uma ideia num futuro não muito distante. Após ser esnobado pela Academia com O Cavaleiro das Trevas, Nolan parece ter definitivamente emplacado sua obra prima na cabeça dos críticos e conquistou suas primeiras indicações ao Globo de Ouro, e provavelmente ao OSCAR. O filme é impressionante, com imagens belíssimas e um conceito interessantíssimo. Contudo, Nolan falhou ao ousar mais o conceito visual dos sonhos. Podia ter criado (com a ideia que ele mesmo teve) muito mais do que criou. Ainda assim, o filme é um dos favoritos.

- O Discurso do Rei.
Drama inglês dirigido por Tom Hooper com Colin Firth, O Discurso do Rei recebeu maciça repercussão crítica durante sua campanha de estréia e é o filme com o maior número de indicações ao Globo de Ouro: 7. É o tipo de filme que tem cara e vencedor de OSCAR, e corre na frente de filmes como Cisne Negro e O Vencedor. O filme acompanha a tragetória do rei George VI, sua ascenção ao trono e o discurso que o fez merecedor dele. Firth tem sérias chances de ganhar seu primeiro grande prêmio, e o filme é um dos favoritos ao Globo de Ouro, mas não deve levar. O filme ainda não estreou no Brasil.

- A Rede Social.
Filme que narra a história da criação da rede social Facebook e seus fundadores, A Rede Social é, definitivamente, o favorito a todos os prêmios dessa temporada. Dirigido brilhantemente por David Fincher e com um roteiro ainda mais brilhante de Aaron Sorkin, a obra vêm recebendo todas as atenções das críticas e também lidera em quantidade de prêmios e indicações. O filme vale isso, mas não agradará a todos do público, devido à enorme quantia de diálogos que conduzem o filme, ao contrário de obras como A Origem, repletas de ação. David Fincher provou ser um dos diretores mais talentosos de Hollywood, mas sofreu grandes injustiças anteriormente, como em O Curioso Caso de Benjamin Button e Zodíaco, o qual devia ao menos ter recebido indicações. Isso significa que pode dar zica dia 16 de Janeiro. Caso isso aconteça, Nolan é o candidato mais provável ao prêmio de melhor direção. Mas a história do facebook leva melhor filme com certeza.

Lista de indicados e quem deverá vencer:

Melhor filme - Drama
- Cisne Negro
- O Vencedor
- A Origem
- O Discurso do Rei
- A Rede Social

Quem ganha: A Rede Social
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Melhor filme - Comédia ou Musical
- Alice no país das maravilhas
- Burlesque
- Minhas mães e meu pai
- Red - Aposentados e perigosos
- O Turista

Quem ganha: Minhas mães e meu pai
___________________________________________________________________
Melhor ator - drama
- Jesse Einsenberg (A Rede Social)
- Colin Firth (O Discurso do Rei)
- James Franco (127 Horas)
- Ryan Gosling (Blue Valentine)
- Mark Whaldberg (O Vencedor)

Quem ganha: Colin Firth - O Discurso do Rei
___________________________________________________________________
Melhor ator - comédia ou musical
- Johnny Depp (Alice no país das maravilhas)
- Johnny Depp (O Turista)
- Paul Giamatti (Minha versão para o amor)
- Jake Gyllenhall (O Amor e outras drogas)
- Kevin Spacey (Casino Jackey)

Quem ganha: Johnny Depp - tanto faz
___________________________________________________________________
Melhor atriz - drama
- Halle Barry (Frankie e Alice)
- Nicole Kidman (Rabbit Hole)
- Jennifer Lawrence (Inverno da Alma)
- Natalie Portman (Cisne Negro)
- Michelle Williams (Blue Valentine)

Quem ganha: Michelle Williams - Blue Valentine
___________________________________________________________________
Melhor atriz - comédia ou musical
- Annete Bening (Minhas mães e meu pai)
- Anne Hathaway (O Amor e outras drogas)
- Angelina Jolie (O Turista)
- Juliane Moore (Minhas mães e meu pai)
- Emma Stone (A Mentira)

Quem ganha: Annete Bening - Minhas mães e meu pai
___________________________________________________________________
Melhor ator coadjuvante
- Christian Bale (O Vencedor)
- Michael Douglas (Wall Street o dinheiro nunca dorme)
- Andrew Garfield (A Rede Social)
- Jeremy Renner (Atração Perigosa)
- Geoffrey Rush (O Discurso do Rei)

Quem ganha: Christian Bale - O Vencedor
___________________________________________________________________
Melhor atriz coadjuvante
- Amy Adams (O Vencedor)
- Helena Bonhan-Carter (O Discurso do Rei)
- Mila Kunis (Cisne Negro)
- Melissa Leo (O Vencedor)
- Jacki Weaver (Reino Animal)

Quem ganha: Melissa Leo - O Vencedor
___________________________________________________________________
Melhor diretor
- Darren Aronofsky (Cisne Negro)
- David Fincher (A Rede Social)
- Tom Hooper (O Discurso do Rei)
- Christopher Nolan (A Origem)
- David O. Russell (O Vencedor)

Quem ganha: David Fincher - A Rede Social
___________________________________________________________________
Melhor roteiro
- Danny Boyle e Simon Beafoy (127 Horas)
- Christopher Nolan (A Origem)
- Stuart Blumberg e Lisa Cholodenko (Minhas mães e meu pai)
- David Seidler (O Discurso do Rei)
- Aaron Sorkin (A Rede Social)

Quem ganha: Aaron Sorkin - A Rede Social
___________________________________________________________________
Melhor canção original
- Burlesque "Bound to you"
- Burlesque "You haven't see the last of me"
- Country Song "Coming Home"
- As Crônicas de Nárnia: A Viagem do Peregrino da Alvorada "There's a place for us"
- Enrolados "I See The Light"

Quem ganha: Burlesque - tanto faz
___________________________________________________________________
Melhor trilha sonora original
- A.R. Rahman (127 Horas)
- Danny Elfman (Alice no país das maravilhas)
- Hans Zimmer (A Origem)
- Alexandre Desplat (O Discurso do Rei)
- Trent Reznor e Aticuss Ross (A Rede Social)

Quem ganha: Trent Reznor e Aticuss Ross - A Rede Social
___________________________________________________________________
Melhor filme de animação
- Meu malvado favorito
- Como treinar o seu dragão
- O Mágico
- Enrolados
- Toy Story 3

Quem ganha: Toy Story 3


Pra ser sincero: Estou torcendo para A Rede Social em todas as categorias, especialmente melhor diretor para David Fincher, já está na hora. Queria que Como Treinar o Seu Dragão desbancasse Toy Story, mas isso não vai acontecer. Me emputece (MUITO) ver Denny Elfman e Hans Zimmer indicados ao Globo de Ouro e James Newton Howard e John Powell não.

Será que eu estou certo nas minhas apostas? Dia 16 de janeiro iremos descobrir!

domingo, 31 de outubro de 2010

Pense que não é só loucura





Filme do diretor Tony Gilroy entra nos bastidores de uma empresa de advocacia, onde a verdade é tudo, menos do que deve ser...

Michael Clayton, interpretado por George Clooney é um faxineiro de uma grande empresa de advocacia. Não faxineiro no sentido convencional da palavra, mas é um indivíduo que resolve problemas, cuida dos podres e encobre fatos que as empresas filiadas e clientes não querem que sejam divulgadas. Isso até o momento em que seu melhor amigo, Arthur Edens (interpretado soberbamente por Tom Wilkinson) tem um surto durante um depoimento em Milwaukee, tira toda a sua roupa e sai perseguindo os quilerantes pelo estacionamento.
Essa é a premissa principal do filme Conduta de Risco (Michael Clayton, EUA, 2007) do diretor Tony Gilroy. Gilroy está por aí na indústria Hollywoodiana faz um tempo. Escreveu roteiros para filmes interessantes, como Prova de Vida (2000) e O Advogado do Diabo (1997), até que o sucesso bateu à sua porta em 2001. Com um estilo de escrita amadurecido, Gilroy pegou a obra do autor Robert Ludlum e a transformou completamente, dando início à uma das franquias de cinema de ação mais bem sucedidas da história: a trilogia Bourne.
Ele então escreveria os dois filmes subsequentes da trilogia, até finalmente se aventurar nos mares da direção com Conduta de Risco. Pode-se dizer que foi um sucesso. O filme recebeu ótimas críticas (embora possuísse um público restrito), possuía um elenco formidável, um roteiro excelente escrito pelo próprio Gilroy, que teve a ideia de contar as feiuras da indústria da advocacia após a história de O Advogado do Diabo e recebeu 7 indicações ao OSCAR, vencendo na categoria de melhor atriz coadjuvante para a assustadora vilã interpretada por Tilda Swinton (O Curioso Caso de Benjamin Button). Gilroy foi indicado aos prêmios de melhor direção e roteiro original, assim como o filme foi indicado para melhor filme.
Na trama, o surto de Arthur vai muito além do que simplesmente tirar a roupa na frente dos advogados e das testemunhas de um caso envolvendo uma indústria de herbicidas, a U-North. De acordo com documentos que Arthur possui, um dos componentes do herbicida utilizado pela U-North é extremamente perigoso e potencialmente letal. A U-North então contrata a empresa de advocacia na qual Arthur trabalha, para evitar um processo multibilionário das centenas de vítimas causadas pelo herbicida. Contudo, em seu ato de loucura, Arthur decide expor todo o caso, e lutar à favor das vítimas.
É neste momento que os personagens de Tilda Swinton e George Clooney entram em ação, ambos em lados opostos: Karen Crowder é uma executiva da U-North que não medirá esforços para conter a situação, e Michael Clayton trabalha para a firma, numa tentativa desesperada de encobrir o caso e proteger seu amigo. Contudo, a situação vai tomando rumos catastróficos, enquanto Michael tenta resolver seus problemas familiares com o filho, o irmão drogado e uma dívida de 80 mil dólares.
Poucos roteiristas na história do cinema americano foram capazes de escrever diálogos tão interessantes como os de Tony Gilroy. As falas, como o monólogo introdutório de Arthur no começo do filme, relembram os bons momentos do cinema clássico norte-americano da década de 40 e 50, onde o espaço para efeitos especiais era menor, e o desenvolvimento de bons roteiros era maior.
A confluência de elementos cinematográficos como fotografia e trilha sonora, criam um clima frio para o conjunto da obra. As cores, os ambientes e até os figurinos são sóbrios e estéreis, uma representação sombria do universo no qual Michael trabalha. Robert Elswit (fotógrafo) e James Newton Howard (compositor), criaram elementos que raramente chegam ao excepcional, mas funcionam como sustentação para o filme e sua complexa trama. A edição torna o filme espiralado, criando situações que aparecem no começo e só serão entendidas no final.
O filme começa com o Mercedes-Benz de Michael Clayton explodindo em alguma estrada do interior do estado de Nova Iorque. Por algum motivo desconhecido, Clayton estava no topo de uma colina observando um bando de cavalos, quando o atentado aconteceu. A cena clareia e voltamos 6 dias no passado, no dia que Arthur surta e se despe em Milwaukee, criando uma cadeia de eventos que farã com que Clayton coloque em dúvida suas questões éticas, morais e motivações para fazer o que ele faz.
Existe um componente químico em toda essa situação. Arthur sabe, Karen sabe, Michael sabe e o espectador também sabe. Contudo, o personagem interpretado por Tom Wilkinson é o único que parece possuir um pouco de ética nessa história. Talvez não seja um surto de loucura, como ele mesmo diz no filme, mas sim de lucidez. Em um desenpenho assustador por parte de Wilkinson que rouba o filme, o espectador se depara com questões maiores do que os personagens inicialmente pensam.
Em uma indústria que se concentra cada vez mais na produção de remakes e adaptações, Conduta de Risco surgiu como o sopro de uma vertente nova em Hollywood: a de um cinema cabeça, repleto de diálogos e cenários inteligentes, uma esperança para aqueles que se cansaram da mesma fórmula repetida vez após vez, um sopro de esperança.
Em Conduta de Risco, a verdade pode ser alterada. A verdade é aquela que Michael Clayton faz. Mas em sua jornada, ele será envolvido numa convocação, uma convocação para algo maior. E Arthur, em sua bipolaridade que entra na fase maníaca, é aquele que traz a luz para os que estão cegos. O filme beira o sobrenatural em alguns momentos, é importante prestar atenção quando isso acontece. Até lá, pense que isso tudo não é só loucura.


sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Comentário convidado - Na Contramão do Tempo

Por Finisia Rita Fideli


Considerado um dos maiores escritores norte-americanos do século 20, F. Scott Fitzgerald (1896-1940), despertou alguma atenção com seu primeiro romance, Este Lado do Paraíso, publicado em 1920, no início da chamada Era do Jazz. Contudo, ele foi mais famoso com seus contos, publicados em revistas prestigiosas de grande circulação, que permitiram que obtivesse suporte financeiro e reconhecimento popular, que se cristalizou como o romanceO Grande Gatsby, de 1925.


Suas histórias freqüentemente falam de jovens amantes sonhadores, heroínas "maluquinhas" e rapazes tristes, e muitos deles refletem aspectos de sua própria vida e de sua esposa, Zelda. Dentre seus 160 contos, muitos são considerados obras-primas, e ele foi um autor prolífico até sua morte, deixando um romance inacabado O Último Magnata, publicado postumamente em 1941.


"O Curioso Caso de Benjamin Button" faz parte de uma coletânea de 1922, Seis Contos da Era do Jazz, e parte de um pensamento do escritor Mark Twain (1835-1910), de que é uma pena que a melhor parte da vida venha no começo, e a pior no fim. No conto, o protagonista nasce aos setenta anos e vai remoçando progressivamente, embora viva uma vida normal, vá à escola e a faculdade, trabalhe, se case com a jovem Hildegarde, tenha um filho, e torna-se general de brigada. Aos 40 anos, em Harvard, ele tem o vigor dos 20 e consegue vencer os colegas do seu filho do time de futebol.


Benjamin Button não escapa das conseqüências devastadoras do tempo, apesar de seu progressivo rejuvenescimento, porque a deteriorização e a morte são impressas sobre ele pela experiência daqueles que o rodeiam. Fitzgerald escreveu o conto como uma piada, mostrando o lado grotesco de ser um jovem com a experiência de um velho.


A glorificação da mocidade é prevalente na ficção de Fitzgerald. O culto da juventude era abraçado pela maioria de seus leitores, e sustentado pela imaginação americana nos anos 20, fenômeno que só se repetiu em meados dos anos 50, com o advento dos beats, dos "delinqüentes juvenis" e de Elvis Presley.


Quase todos seus personagens vivem intensa e irresponsavelmente, buscam o que a vida oferece de melhor. São românticos e passionais, e morrem cedo. Como Gatsby, como o próprio Fitzgerald.


Inspirado na história de Benjamin Button, o cineasta David Fincher convocou o extraordinário roteirista Eric Roth (de ForrestGump) e o ator Brad Pitt (num desempenho soberbo), com quem já havia trabalhado em Clube da Luta (1999), e criou uma fábula arrebatadora sobre um bebê que nasce no último dia da primeira guerra mundial e causa a morte de sua mãe. Feio e enrugado, ele tem características físicas de um octogenário: sofre de artrite e catarata e parece às portas da morte. Desesperado, seu pai (Jason Flemyng) o abandona em um asilo de idosos, onde ele é imediatamente adotado pela negra Queenie (Taraji P. Henson, impressionante) e pelos velhinhos do local. Benjamin sobrevive, e rejuvenesce um pouco a cada ano.


Aceito sem restrições e amparado pelos moradores do asilo, Benjamin recebe educação e afeto irrestritos, e conhece o amor na figura da menina Daisy, cuja avó ela visita de tempos em tempos. Seus caminhos seguem rumos opostos e a menina se torna uma bela mulher e bailarina talentosa, encarnada na fase adulta com o brilho de Cate Blanchet.


Na fase "adolescente", Button vai trabalhar em um barco com um capitão meio maluco (Jarred Harris), que o apresenta às alegrias dos bordéis e se torna um pai substituto. Ambos enfrentam o horror da Segunda Guerra. Na Rússia, Benjamin encontra uma versão madura do amor na pessoa da esposa solitária de um diplomata (Tilda Swinton). De volta à América, ele reencontra Daisy, mas os relógios de ambos estão defasados. Somente na faixa dos quarenta anos é que eles finalmente têm idade e aparência compatíveis e daí seu amor pode florescer. Nesta fase, o filme, até então fotografado em tons sombrios, se torna solar. As cenas de Brad Pitt pilotando uma moto, ou velejando na Flórida, onde os foguetes do Cabo Canaveral partem para conquistar o espaço, são puro arrebatamento. O charme do ator é explorado ao máximo, e seu jeito de eterno garotão americano serve como uma luva para nos convencer de que o sonho da eterna juventude de fato se realizou em Benjamin Button.


O filme, que acumula qualidades, é narrado através de um diário e das lembranças de Daisy, agora idosa num hospital em Nova Orleans (às vésperas do furacão Katrina), que as conta à sua filha Caroline (Julia Ormond). A adaptação de época perfeita nos transporta a uma jornada de quase um século (isso inclui vestuário, veículos, construções e trilha sonora).


A maquiagem é outro ponto forte, sutil e convincente, envelhecendo Brad Pitt, e através da computação gráfica "colando" seu rosto no corpo de diferentes crianças e adolescentes, e remoçando o ator progressivamente, fazendo o oposto com Cate Blanchet.


Os desempenhos são ainda mais que perfeitos, incluindo o elenco de apoio e um bando de velhinhos encantadores, um cachorro quase imortal e um homem que sobreviveu à queda de sete raios.


O filme recebeu 13 indicações ao Oscar e levou apenas três: Melhor Direção de Arte para Donald Graham Burt e Victor J. Zolfo; Melhores Efeitos Visuais para Eric Barba, Steve Preeg, Burt Dalton e Craig Barron, e Melhor Maquiagem para Greg Cannom.


É possível que o vencedor de Melhor Filme, o milionário vira-lata indiano, possa ter envolvido os votantes da Academia de Artes Cinematográficas com sua simpática proposta terceiro-mundista (com cenas de plágio descarado ao brasileiro Cidade de Deus do cineasta Fernando Meirelles), mas dificilmente esta fantasia emocionante da celebração da vida e do amor será superada nos anos vindouros.


O tempo dirá.


FinisiaFideli fez resenhas para as revistas Escrita e Dragão Brasil, e publicou ensaios em Cult e Ciência Hoje. Esta resenha foi publicada no portal do Terra Magazine e utilizada com autorização da autora.





segunda-feira, 27 de setembro de 2010

O rei da cocada preta




Avatar de James Cameron, é uma mistura entre Pocahontas, O Último Samurai e O Coração das Trevas, só que em um mundo extraordinário, com seres azuis.

Existem poucas diferenças entre Avatar (Avatar, EUA, 2009) do diretor James Cameron, e as histórias já vistas em Pocahontas, O Último Samurai de Ed Zwick e O Coração das Trevas, romance de Joseph Conrad, que depois sofreu a adaptação de Francis Ford Copolla em Apocalypse Now de 1979.
O filme do diretor vencedor do OSCAR em 1997 por Titanic, parece uma congruência dessas três histórias. Num futuro distante, a humanidade alcançou a exploração espacial e descobriu o planeta de Pandora, um pequeno corpo celeste orbitando um gigante gasoso, onde existe um minério raro e muito precioso, chamado Onubtanium, capaz de gerar um campo antigravitacional. Para alcançar as grandes jazidas desse minério, os humanos devem primeiro passar por cima da população local, humanóides com mais de dois metros e meio da altura, azuis, chamados de Na'Vi. Para isso, com os avanços da tecnologia genética, são embrionados "avatares", corpos geneticamente modificados, usando DNA humano e alienígena, numa tentativa de encontrar uma solução "democrática" para os nativos.
Nesse futuro distante e colorido, o paraplégico Jake Sully (interpretado pelo carismático, Sam Worthington) deve substituir seu irmão gémeo que foi morto recentemente em Pandora, o único, além de Jake, capaz de operar seu avatar. Diante da grande quantidade de dinheiro oferecida pela companhia de extração do minério, e a possibilidade de voltar a andar, ele viaja durante seis anos até o planeta, onde incorporará o avatar de seu irmão e entrará em contato com os habitantes locais, os Na'Vi.
A história criada por James Cameron não acrescenta nada de novo, exceto pela maravilhosa construção do planeta Pandora, no distante futuro. Tudo, desde a linguagem ao bioma são impecavelmente bem realizados, o design das criaturas, das plantas e das paisagens, são de preencher os olhos, um dos melhores trabalhos em desenho de produção e direção de arte da história recente do cinema americano.
Contudo, a trajetória percorrida por Sully, da descoberta dos nativos até a identificação por eles, que culminará num grande gesto de amor, junta o romance de Pocahontas, com o convívio com o inimigo de O Último Samurai e as disputas da colonização europeia nos países do terceiro mundo, de O Coração das Trevas, de Joseph Conrad. Contudo, Cameron, na maioria das vezes falha ao captar a mesma magia e singularidade vista em cada uma dessas obras.
A cultura criada para os habitantes nativos do planeta é extremamente rica em detalhes, assim como restante do roteiro. O bioma, a linguagem e os efeitos especiais em 3D, todos estão em seu devido lugar. Mas o filme falha ao criar uma tensão para o destino dos personagens, ou um envolvimento maior com eles. Falha no que todas as outras obras nas quais Cameron se inspirou (o que inclui "O Nome do Planeta é Floresta" de Ursula K. Le Guin) conseguiram: a análise profunda, introspectiva e moral que Cameron tanto quis ressaltar.
Avatar fala claramente sobre a colonização europeia em países como o Congo Belga, do massacre aos índios nativos nos EUA do século XVIII e XIX, uma dura crítica ao sistema capitalista e das grandes corporações (característica sempre presente nos filmes de Cameron) que tornam-se os verdadeiros governantes da sociedade do futuro, à preservação da natureza, etc. Contudo, o conglomerado de clichés e situações óbvias, acaba por tirar o seu brilho, fazendo com que o filme dependa mais em seus avanços tecnológicos do que na história propriamente dita.
Os efeitos tridimensionais são simplesmente incríveis. É recomendado o uso de uma sala com infalível sistema de som e imagem, como o IMAX, para total apreciação do universo incrivelmente rico, complexo e colorido que Cameron criou. Nesses aspectos, Avatar é um dos filmes de impacto visual mais proeminentes de todos os tempos.
Entretanto, a música de James Horner foi uma grande decepção, sendo uma experiência sonora extremamente alta, mas com pouca melodia e arranjos característicos do premiado compositor. A fotografia de Maurio Fiore, vencedor do OSCAR deste ano, é eficiente ao ressaltar os efeitos visuais criados para o filme, mas não chega perto da sofisticação e qualidade artística de muitos predecessores. A captação e edição do som também ficou a desejar, expecialmente para uma obra de tamanho impacto sensorial. O elenco, que conta com a presença de Sigourney Weaver, Michelle Rodriguez, Zoe Zaldana e o fabuloso Stephen Lang no papel do vilão, Quaritch é muito eficaz, embora merecesse maior aprofundamento.
Definitivamente não é o melhor filme de Cameron, que depois de O Exterminador do Futuro o Julgamento Final pareceu perder um pouco de sua característica rústica tanto apreciada pelos fãs da ficção científica de ação que Cameron ajudou a consolidar. Contudo, com um faturamento superior a 2 bilhões de dólares com Avatar e 1,5 bilhão com Titanic, seu trabalho anterior, James Cameron provou ser o diretor mais rentável de Hollywood, o que comprova a decisão da Academia de premiar a produção de baixo orçamento Guerra ao Terror, de sua ex-esposa, Katherine Bigelow, com um verdadeiro tiro do pé.
Da evolução do cinema que passou do filme mudo, para o sonoro, para o colorido para o tridimensional, ele cria a pergunta de: qual será o futuro do cinema, tal como conhecemos hoje? Mesmo assim, Avatar é um filme rico e bem elaborado, que apesar de todas as suas falhas comprova que Cameron é um dos maiores diretores de sua geração, e com os dois filmes de maior bilheteria na história, consolidado literalmente como o Rei da cocada preta. Deus salve o Rei da Cocada.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Shantih, Shantih, Shantih*












Filhos da Esperança, do diretor Alfonso Cuarón, é uma das obras de ficção científica mais belas e realistas dos últimos anos.




"Thesse fragments I have shored against my ruins
Why then Ile fit you. Hieronymo's mad againe.
Datta. Dayadhvam. Damyata.

Shantih, Shantih, Shantih".

- T.S. Elliot - The Wasted Lands (As Terras Devastadas)




O dia 16 de Novembro de 2027 marcou a morte de Diego Ricardo, de 18 anos de idade, a pessoa mais jovem do planeta. Em Filhos da Esperança (Children of Men, EUA/ING, 2006), nenhuma criança nasceu nos últimos dezoito anos. Por algum motivo desconhecido, as mulheres tornaram-se inférteis. Sem o riso das crianças para guiar os adultos, as fundações da sociedade desmoronaram.
O mundo entrou em guerra. Bombas nucleares foram despejadas em cidades americanas e na África. A Inglaterra (onde o filme se passa) tornou-se um estado quase ditatorial, constantemente atormentado por atentados terroristas e onde os imigrantes ilegais (qualquer um que não seja britânico) são caçados como judeus recém-escapados de campos de concentração (onde são enviados caso sejam capturados).
Em meio a esse caos, Theo Faron (interpretado por Clive Owen), cujo nome em grego significa "O Deus dos Faróis", é contactado por sua esposa, Julian (Juliane Moore), que precisa de sua ajuda para levar uma garota clandestina chamada Kee, ao litoral. O que ele não sabe é que a garota, inexplicavelmente, está grávida, e precisa encontrar um barco chamado "O Amanhã", onde o "Projeto Humano" - uma organização secreta, não governamental - procura descobrir as causas da infertilidade.
Vagamente baseado na obra da escritora de romances policiais, P.D. James, o filme é dirigido por Alfonso Cuarón, o mesmo de
E Sua Mãe Também, e Harry Potter e o Prisioneiro de Askaban. Contudo, na obra original, a infertilidade é atribuída aos homens, incapazes de produzir esperma, e não às mulheres como no filme.
Outra característica que os difere é a narrativa mais introspectiva do romance, aprofundando-se na sociedade britânica pós-apocalíptica que é apresentada como plano de fundo no filme de Cuarón. Equanto o livro possui uma narrativa guiada pelos personagens, a do filme é guiada pelos acontecimentos.
A composição do universo de
Filhos da Esperança é assombrosamente detalhada. Cada rua, muro ou corredor é caracterizado de forma a demonstrar a decadência da sociedade mundial. A figura do quadro Guernica de Picasso, é uma constante no filme, representando o caos e a desordem que se instaurou no planeta graças à infertilidade. Pequenos detalhes como um balão gigante em forma de porco, referência ao álbum Animals, do grupo Pink Floyd, que completaria 50 anos em 2027, a presença de um animal em quase todas as cenas, normalmente um cão, as manchetes dos jornais e grafites nas paredes, ajudam a situar o espectador num futuro marcado pela falta de eseprança, de uma forma extremamente realista.
A fotografia do grande colaborador de Cuarón, Emmanuel Lubeski, feita totalmente em câmeras de mão, é uma das melhores na história recente. A priorização de longas tomadas única, também é evidente, com o uso extensivo de planos-sequência (a última sequência do filme possui mais de seis minutos sem cortes). Cuarón afirmou publicamente ter se inspirado no filme italiano,
A Batalha de Argel, de 1966, para narrar o filme quase como um documentário sobre os acontecimentos ocorridos em 2027.
A trilha sonora
Fragments of a Prayer de John Tavener é quase uma ópera, uma viagem espiritual que se aprofunda no coração de cada um dos personagens.
Com a ajuda de seu amigo, Jasper (Michael Cane) Theo se verá numa empreitada para levar Kee até o litoral, no que pode significar a última esperança da humanidade. Em sua jornada, haverá violência, haverá tristeza, e nem todos chegarão até o final, enquanto a pequena chama do coração dos homens tentará permanecer acesa.
As atuações são excelentes, a direção, fenomenal, a fotografia e direção de arte capazes de mergulhar o espectador na decadente Inglaterra infértil do futuro e o roteiro, tenso, repleto de detalhes e significados que manterão o espectador preso até o fim.
É um filme extraordináriamente realista (embora seja plausível acreditar que a medicina genética seria capaz de consertar os problemas da infertilidade), ora tenso, ora poético. Um conto de como os laços que unem a sociedade são fracos e podem ser partidos, e o que acontece quando são. A última jornada do homem pelas terras devastadas, na derradeira luta pela sobrevivência.



*Shantih Shantih Shantih faz parte do poema "As Terras Devastadas" de T.S. Elliot, e em tradução vafa, significa "A paz que passa compreensão".

Uma sombra passou por aqui*


A Vila, do diretor M. Night Shyamlan, não é um filme de horror, mas sim um estudo social com elementos de horror.

Se há uma cor capaz de descrever A Vila (The Village, EUA, 2004) essa cor é o vermelho. Um vermelho quase inexistente, proibido, que aparece vez ou outra como algum detalhe da paisagem, no sangue de um vestido branco, na frente de uma porta, entre os galhos nus da floresta e os ventos gelados e tenebrosos que ela traz consigo.
O quarto filme de M. Night Shyamlan, diretor indiano que começou com estrondoso sucesso em
O Sexto Sentido (1999), narra a história de uma garota ruiva, de olhos penentrantes, rosto jovem e corajoso. Seu nome é Ivy Walker. Ela vive em uma vila na Pensilvânia do século XIX, cercada pelas florestas de Convington. O lugar é pequeno, isolado e perdido no tempo. As árvores, com seus galhos despidos pelo sopro do outono, contam a história de misteriosas criaturas que vivem por lá. Atraídas pela cor vermelha, elas não atravessam a fronteira da vila, contanto que seus habitantes não adentrem a floresta.
Segredos são escondidos em cada canto do pequeno vilarejo. Conforme estranhos acontecimentos vão ocorrendo, a protagonista Ivy Walker se vê em uma situação na qual terá que cruzar a fronteira de sua vila e mergulhar nas sombras da floresta de Convington.
O elenco de estrelas composto pela belíssima Bryce Dallas Howard (filha do diretor Ron Howard), Joaquim Phoenix (o grande amor de Ivy), Adrian Brody (cuja inocência será fundamental para a trama), Sigourney Weaver, William Hurt e Brendan Gleeson (que escondem um segredo profundo e tenebroso) é o melhor já reunido pelo diretor. Em suas atuações, possuem tamanho entrosamento e sinceridade que é quase impossível imaginá-los fora de seus personagens.
A fotografia de Roger Deakins ressalta os tons dourados e avermelhados do filme, criando um ambiente caloroso e ao mesmo tempo assustador. Por vezes escuro e enigmático, o clima criado no filme é sombrio, e cada cor ressalta um aspecto importante da trama. A câmera se move como num sussurro, sempre espiando por detrás de uma parede ou porta, ou por cima do ombro do personagem principal.
A música, composta por James Newton Howard, flui como seda vermelha na pele de uma mulher. Orientada pelo violino da famosa Hilary Hahn, apresenta um tema feminino e delicado, que por vezes explode num trovão inquietante do espírito humano.
Algo vive em meio à floresta, certamente. Algo cruel e assustador. Conforme o vento sopra, a floresta nua chama com seu canto mau. Contudo, o verdadeiro horror vem de dentro das portas das casas construídas para os habitantes daquela vila. E é isso que Ivy irá descobrir ao cruzar a linha que separa seu mundo do desconhecido.
Há um fogo em seu coração, assim como no coração de cada habitante da comunidade. Contudo, aquilo que alimenta suas chamas difere de alma para alma. Seja por amor ou coragem, por ódio ou algo ainda mais escuro. Algo que alimenta o coração da floresta, e aqueles que não devem ser mencionados.
É o filme mais assustador de Shyamalan. É assustador em sua realidade. Uma fábula de como a dor e a violência nos seguem aonde quer que formos. E que existem lugares, assim como nas profundezas do coração humano, que são perdidos no tempo. Cercados e intocados por florestas sombrias e cantos sinistros, por onde as sombras passam.

*Título original pertence à coletânea do autor Ray Bradburry, The Illustrated Man, publicada no Brasil sob o título de Uma Sombra Passou Por Aqui.

"A Vila". Título original: "The Village". Ano: 2004 Nacionalidade: EUA Dirigido por: M.Night Shyamalan Roteiro de: M. Night Shyamalan Produzido por: Sam Mercer, Scott Rudin e M.Night Shyamalan Estrelando: Bryce Dallas Howard, Joaquim Phoenix, Sigourney Weaver, Adrian Brody, Brendan Gleeson e William Hurt. Música de: James Newton Howard Duração: 108 min. Resenha escrita por: Roberto F. F. Causo (para a faculdade Cásper Líbero). Nota: 9,5/10

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Um Banho de Sangue


Dentre tudo o que se pode esperar do filme de Paul Thomas Anderson, o principal é sangue.


Upton Sinclair foi um escritor vencedor do premio Pulitzer, nascido em 1878 em Baltimore, Maryland, nos EUA. Autor de mais de 90 livros dos mais diversos gêneros, Oil!, uma sátira política publicada em 1927 foi adaptada no ano de 2007 pelo diretor Paul Thomas Anderson (Boggie Nights, prazer sem limites e Magnólia) sob o nome de Sangue Negro (There Will Be Blood, EUA, 2007).


Candidato sério ao OSCAR daquele ano, o filme recebeu 8 indicações, vencendo em duas categorias, a de melhor fotografia e melhor ator para Daniel Day Lewis.


Lewis representa Daniel Plainview, um prospector de petróleo no começo do século XXI, mesma época em que o romance foi publicado. Após ser contatado por um jovem rapaz chamado Paul Sunday (interpretado por Paul Dano, o astro de Pequena Miss Sunshine), ele e seu filho, H.W. Plainview (adotado após a morte de seu verdadeiro pai, um dos trabalhadores de Daniel, apresentado no começo do filme) viajam até um pequeno vilarejo na Carolina do Sul, sob a promessa de que há grande quantidade de petróleo debaixo das areias do deserto.


Alguma coisa se esconde embaixo daquelas terras, certamente e não é só petróleo, o sangue negro que corre pelas veias da sociedade capitalista, fazendo moverem-se os motores da terceira revolução industrial, logo no começo do século passado. Alguma coisa mais perversa e incandescida se esconde por debaixo da areia, onde Plainview irá perfurar e chegar a lugares que ele desejaria nunca ter visitado.


No pequeno vilarejo ele se defrontará com Eli, irmão gêmeo de Paul que deu a informação à Plainview sobre a existência de petróleo. Dono de uma pequena paróquia da Igreja da Nova Renascença ele será a força que colidirá de frente com Daniel Plainview. E a partir do primeiro momento em que os dois são colocados frente à frente, estará iniciado um confronto mortal entre espíritos extremamente poderosos e gananciosos.


Plainview e seu filho se estabelecem no vilarejo e começam seu trabalho de prospecção. Ao perfurarem um bolsão de gás que explode, o filho de Daniel é seriamente ferido, perdendo totalmente a audição. Uma coluna de óleo negro jorra em direção ao céu, depois se incendiando em uma espada flamejante gigantesca. É o sinal que Plainview procurava: um oceano de petróleo debaixo de seus pés. E desse momento em diante, ele mergulha num oceano ainda mais perverso: o de sua mente.


Sob as mãos de Paul Thomas Anderson, conhecido por seus trabalhos “pouco comuns” como Boggie Nights e Magnólia, o filme assume um tom de estranheza, incomodativo. Conforme Daniel vai enlouquecendo, caindo nas profundezas mais escuras de sua mente e coração, o filme vai se tornando cada vez mais denso e pesado.


A fotografia vencedora do OSCAR de Robert Elswit possui, em sua maior parte, tons esverdeados, realçando a paisagem inóspita e surreal dos desertos do sul dos Estados Unidos. Sempre em movimento, por vezes mergulha o espectador no universo do filme, por vezes foge de seus personagens principais, criando ângulos estranhos e quadros quebrados onde o protagonista aparece no canto, e nem todas as vezes por inteiro.


A música do guitarrista da banda Radiohead, Johnny Greenwood, assume maior destaque. Ela é um personagem da história, tanto quanto Daniel, seu filho e Eli. Ao som de ritmos diferentes colocados um sobre o outro e violoncelos elétricos que explodem em uma melodia aterrorizante, é a representação dos calabouços da cobiça e vingança no qual Daniel afunda e se aprisiona, além de crescer conforme o embate entre ele e seu inimigo mortal Eli, vai alcançando proporções catastróficas.


Naquele deserto, Plainview irá encontrar não somente a realização de todos as suas ambições, como também a destruição de todos os fundamentos de sua moralidade (se é que houve alguma) e da família que ele mantinha com seu filho. Encontrará um rival e descobrirá o lado mais perverso de sua humanidade (se é que ela existiu).


Sangue Negro é um filme de horror. Embora não apresente uma visão tão dogmática quanto a do romance de Sinclair, é uma clara analogia ao sistema capitalista, que abraçou a filosofia do petróleo como combustível para suas conquistas sobre os outros países, suas guerras e seus sacrifícios. A ganância dos ricos prevalecendo e a miséria dos pobres aumentando. Em sua cobiça, tanto a nação cuja filosofia Plainview defende quanto o próprio Plainview, irão descobrir que durante a jornada, haverá cobiça. Haverá vingança. Haverá sangue.



"Sangue Negro". Título original: "There will be blood". Ano: 2007 Nacionalidade: EUA Dirigido por: Paul Thomas Anderson. Roteiro de: Paul Thomas Anderson - baseado no romance "Oil" de Upton Sinclair. Produzido por: Daniel Lupi, JoAnne Sellar e Paul Thomas Anderson. Estrelando: Daniel Day Lewis, Paul Dano e Ciarán Hinds. Música de: Johnny Greenwood. Duração: 158 min. Resenha escrita por: Roberto F. F. Causo. Nota: 9,0/10


sexta-feira, 3 de setembro de 2010

O Deus-Demônio do Rio




Clássico de Francis Ford Copolla, é uma viagem sobre o rio da loucura. [atenção, esta resenha contém *spoliers*]


Dirigido por Francis Ford Copolla, da trilogia O Poderoso Chefão, Apocalypse Now estreou no Brasil em outubro de 1979 e tornou-se o ícone de uma geração pós-guerra do Vietnã. Em 2001, ganhou uma versão especial com 49 minutos nunca exibidos nos cinemas. Ambientado em 1969, o filme acompanha a travessia do Capitão Willard (interpretado por Martin Sheen) pelo ficcional rio Nung na selva vietnamita. Sua missão é encontrar - e matar - o coronel Kurtz (Marlon Brando) que se estabeleceu como deus de uma tribo local.
Copolla inspirou-se no romance O Coração das Trevas, de Joseph Conrad. As obras não parecem ter muito em comum: o filme é ambientado na Guerra do Vietnã, e o romance, publicado em 1902, trata da colonização europeia no Congo Belga e da brutal extração de marfim e borracha da selva africana. A figura central das duas narrativas é Walter Kurtz, indivíduo enigmático que o protagonista Willard (no livro Marlow) precisa encontrar. Mas sua missão no filme é matá-lo, enquanto no livro é de tirá-lo da selva.
Outra figura importante é um personagem que nunca assume forma humana: o Deus-Demônio do rio que Marlow e Willard singram, símbolo dos abismos da loucura, do horror trazido pela guerra - e pela exploração colonialista. Exploração que foi uma das mais brutais da história, sob o comando do Rei Leopoldo II. Nos dois casos, colonialismo europeu e imperalismo americano, têm-se a imposição de valores ocidentais sobre países do Terceiro Mundo, pelo uso da violência subvencionada pelo Estado. O horror vem do choque entre as justificativas morais do ocidente, da elevação do Terceiro Mundo, e da prática: a realização dos objetivos a qualquer custo, através da violência a mando do Estado. Diante dessa violência, presenciada e cometida por Kurtz, ele enlouquece. Em sua loucura, torna-se inconveniente por explicitar a prática imperialista por meio da violência e precisa ser "removido".
Situações absurdas - como a de um oficial que extermina uma vila praiana para poder surfar em paz, "coelinhas" da Playboy enviadas à selva para o delírio dos soldados, e o massacre a civis inocentes - são mostradas às claras, em cores vibrantes que ressaltam uma paisagem surreal marcada pelo fogo, o sol e as florestas primordiais.
*spoilers* - início
A maior diferença, porém, está na conclusão. Diante de Kurtz, Willard e Marlow são jogados no abismo mais profundo de suas almas, mas de formas diferentes. No encontro de Marlow com Kurtz, este está doente e à beira da morte (que acontece durante a jornada de volta). Já Willard cumpre a missão de matar o coronel e tem a oportunidade de assumir o lugar dele na tribo, mas não o faz. Recusa o papel de deus arbitrário, e parte, anulando a ordem de bombardear a cidadela e voltando à escuridão do rio, assombrado pelas últimas palavras de Kurtz em ambas as histórias: "O horror..O horror...".
*spoilers* - término.
O mal. Ou o horror. Mas o mal está dentro de cada homem. Em situações em que a violência legalizada é ferramenta de dominação de um povo por outro, ele escapa de maneira avassaladora e segue o Deus-Demônio do rio, "parecendo levar ao coração de imensas trevas" (Joseph Conrad).

"Apocalypse Now". Título original: "Apocalypse Now". Nacionalidade: EUA Dirigido por: Francis Ford Copolla Roteiro de: John Milius e Francis Ford Copolla - baseado no romance "Heart of Darkness" de Joseph Conrad. Produzido por: Fred Roos, Gray Frederickson, Tom Stenberg e Francis Ford Copolla. Estrelando: Martin Sheen, Marlon Brando, Dennis Hopper, Lawrence Fishbourne. Com Robert Duvall e Harrison Ford. Música de: Carmine Copolla e Francis Ford Copolla. Duração: 153 min (versão original), 203 min. (versão extendida). Resenha escrita por: Roberto F. F. Causo (para a faculdade Cásper Líbero). Nota: 10/10

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Terra dos Sonhos


Do Diretor de Batman, O Cavaleiro das Trevas, "A Origem" leva o cinema de ficção científica a um novo nível.



Após uma estréia repleta de repercussão, com Amnésia (2000), Christopher Nolan seguiu carreira meteórica, que alcançou novo patamar após a estréia de Batman Begins (2005), no qual Nolan aborda um lado sombrio e introspectivo do personagem das histórias em quadrinhos, que já havia virado filme em quatro outras ocasiões, dirigidas por Tim Burton e Joel Schumacher.
Com O Grande Truque (2006), estrelando Hugh Jackman e Christian Bale nos papéis de dois mágicos rivais, Nolan iniciou uma parceria com seu irmão, Jonathan Nolan, que continuaria na produção seguinte, Batman o cavaleiro das trevas
(2008). Com este filme, o diretor bateu inúmeros récordes de audiência e foi aclamado pela crítica e pelo público. O filme abocanhou um total de 8 indicações ao OSCAR, vencendo em duas ocasiões, incluindo de melhor ator coadjuvante postumamente para Heath Ledger, que havia morrido de overdose acidental de medicamentos prescritos, poucos meses antes do lançamento do filme.
Contudo, com A Origem (Inception
, 2010), Christopher Nolan chegou a um degrau ainda mais alto em sua carreira.
Sempre trabalhando com um elenco de grandes estrelas, o filme conta com as atuações de Leonardo DiCaprio, Ken Watanabe, Ellen Page, Joseph Gordon-Levitt, Marion Cotillard, Cillian Murphy, Tom Berenger e uma aparição muitíssimo breve do inglês Michael Cane que atua na maioria das produções do diretor. Contudo, é do elenco que vem o primeiro problema do filme.
Em A Origem,
DiCaprio é Dom Cobb, ladrão especializado em roubar idéias do subconsciente de determinados indivíduos, em uma forma altamente avançada de espionagem industrial, num futuro em que é possível acessar a mente e os sonhos de outras pessoas, representando-os fisicamente. Contudo, neste caso a missão é outra: implantar uma idéia dentro da mente do filho de um morimbundo magnata de uma grande empresa.
O primeiro problema da obra começa com a semelhança de Cobb, com outro personagem de DiCaprio, Teddy Daniels do filme Ilha do Medo
, de Martin Scorsese, lançado também este ano. À parte desta semelhança, tanto o ator principal quanto o restante do elenco apresenta boas atuações, especialmente Gordon-Levitt que brilha tanto quanto DiCaprio neste filme.
Outro problema de A Origem,
é que são raras as vezes em que o espectador realmente tem a sensação de estar dentro de um sonho, universo tão alcançável quanto misterioso, profundo e engimático dentro de nossas mentes, o lugar ainda mais desconhecido do universo. Com a profusão de perseguições, tiros, explosões, combates corpo a corpo (alguns em gravidade zero), a sensação é de estar em um filme dentro de um filme, dentro de um filme, embora tanto a construção do mundo, quanto do roteiro sejam extremamente envolventes.
Nolan brinca com as leis da física, criando corredores giratórios e cidades que dobram sobre si mesmas como folhas de papel. Em roteiro frenético, repleto de nuances e detalhes, o aspecto visual torna-se secundário na compreensão da trama, embora importante, perdendo espaço para as construções labirínticas que o diretor cria na mente de Cobb, e na nossa.
É um filme que requer extrema atenção aos detalhes, que podem criar, uma ou mais interpretações do filme, que é soberbo em criar múltiplas vertentes de explicação. Contudo, ao término do filme, o enigma apresentado torna-se um fator mais importante do que o dilema humano vivido pelos personagens, aspecto mais profundamente explorado na produção anteriora do diretor, O Cavaleiro das Trevas
.
Uma sala com infalível sistema de som e uma tela enorme é recomendável, para melhor apreciação do universo magnâmico que Nolan criou.
É correto dizer que este é um dos filmes mais complexos já filmados, com uma teia envolvente de tramas, segredos e reviravoltas em calabouços sombrios e cidades irreais construídos pela mente humana, ou do cineasta. Provavelmente será um dos grandes candidatos a ser esnobado na entrega do OSCAR do ano que vêm. Entretanto, é um filme imperdível, uma das empreitadas de ficção científica mais ousadas e inovadoras do cinema norte-americano dos últimos anos.




"A Origem". Título original: "Inception". Ano: 2010. Nacionalidade: EUA. Diretor: Christopher Nolan. Roteiro de: Christopher Nolan. Produzido por: Emma Tomas e Christopher Nolan. Estrelando: Leonardo DiCaprio, Ken Watanabe, Joseph Gordon-Levitt, Ellen Page, Tom Hardy, Cillian Murphy, Tom Berenger. Com Marion Cotillard e Michael Cane. Música de: Hans Zimmer Duração: 148 min. Resenha escrita por: Roberto F. F. Causo Nota: 9,5/10