segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Alguma coisa se perdeu no caminho


Filme que retrata combate sangrento no Vietnã, cai em contradição óbvia: como justificar o injusficável?

1965. 400 soldados norte-americanos são emboscados por tropas inimigas no total de 4 mil homens no Vale da Morte durante a guerra do Vietnã. O tenente-coronel Hal Moore encontra-se preso numa emboscada inimiga, com a vida de seus homens em suas mãos, no que foi considerado o combate mais violento da guerra do Vietnã desde a invasão norte-americana ao pequeno país comunista.


Essa é a história contada pelo diretor Randall Wallace no filme Fomos Heróis (We Were Soldiers, EUA, 2002), estrelando Mel Gibson no papel do tenente-coronel Hal Moore, Sam Elliot, no papel do sargento-major Basil Plumley, Greg Kinnear interpretando o major Bruce Crandall e Barry Pepper (que já fez filmes de guerra como O Resgate do Soldado Ryan e A Conquista da Honra) no papel do fotojornalista Joe Galloway que testemunhou o combate (ou boa parte dele), no dia 15 de novembro de 1965.


Acostumado a escrever roteiros de filmes de guerra, como o grande sucesso dirigido por Mel Gibson em 1995, Coração Valente, e o fracasso crítico Pearl Harbor de 2001, Wallace assumiu as rédeas da direção pela segunda vez em um grande projeto (o outro tinha sido O Homem na Máscara de Ferro de 1998), com Fomos Heróis, desta vez tendo no papel principal o ator/diretor Mel Gibson, que rendeu ao seu roteiro de Coração Valente, o OSCAR de melhor filme.


No filme de guerra do Vietnã, um foco interessante é abordado, e que não é normalmente mostrado em outros filmes do gênero: o outro lado das trincheiras. Desde o começo do filme, o espectador é apresentado às famílias dos soldados que estão sendo enviados ao Vietnã, assim como as famílias e comandantes dos soldados vietnamitas, cujo destaque, embora significativamente menor, é interessante.


Esse é um recurso clássico e eficaz para o espectador “apaixonar-se” pelos personagens cujas trajetórias está acompanhando, e nesse sentido o filme cumpre o seu papel.


Contudo, o verdadeiro (ou quase verdadeiro) olhar da história reside na visão do fotojornalista Joe Galloway que viaja ao Vietnã, integrando-se ao pelotão de soldados do coronel Moore, acompanhando a brutalidade do combate sofrido naquele dia, além de criar uma relação de amizade com o personagem de Mel Gibson.


O filme não deixa de despejar recursos para afetar o espectador emocionalmente. Seja nas atuações intensas de Mel Gibson e Berry Pepper (que valem o filme), na apresentação das famílias dos personagens e a trajetória das esposas que começam a receber as cartas informando a morte de seus maridos, ou dos discursos fraternais do comandante vietnamita, aos seus soldados, de uma forma bem parecida com a de Hal More. A música, do compositor Nick Glennie-Smith, é um festival de cordas e acordes profundos e melancólicos, especialmente no terço final do filme.


Contudo, o elemento mais dissonante de toda a obra, é justamente a caracterização do combate. A violência (este é um dos filmes de guerra mais graficamente violentos desde O Resgate do Soldado Ryan) e a brutalidade do combate que resultou na morte de quase 2 mil soldados vietnamitas, acaba criando uma contradição palpável: enquanto tenta equilibrar ambos os lados ao apresentar as famílias das duas nações envolvidas, na tentativa de “humanização” dos personagens “inimigos”, o filme ao mesmo tempo procura ser totalmente pró-americano, ao procurar encontrar a justificativa ou compreensão dos acontecimentos que levaram àquela guerra, e àquele combate. Contudo, ao término, o filme simplesmente falha em todos os aspectos.


Fomos Heróis, tampouco consegue ser equilibrado, quanto pró-americano. Procura justificar o injustificável. Procura entender o inteligível. Procura encontrar uma razão para tamanha dor e violência. A razão das lembranças que ficaram aprisionadas na memória de Hal Moore e Joe Galloway pelo resto de suas vidas (o que inspirou ambos a escreverem o livro no qual o filme foi baseado). Algo se perde durante os 138 minutos da obra. Provavelmente a mesma coisa que os jovens soldados levaram para o vale em 1965, e que permanece lá até hoje.


sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Tiroteiros e um Vaso Chinês, de Luc Besson


Li em algum lugar que Luc Besson é o mais hollywoodiano dos cineastas franceses, e como tal, não decepciona. Dupla Implacável (From Paris With Love, FRA, 2010) é dirigido por Pierre Morel e como os outros filmes do gênero é cheio de tiroteios, perseguições e uma velocidade nos cortes de cena e nas cenas que eleva a adrenalina de qualquer um. E os pontos positivos quase que acabam aí.
A história começa com James Reece - o nada mau Jonathan Rhys Meyers - o assistente pessoal do embaixador dos EUA na Franca, que sonha se tornar um agente secreto um dia. Para conseguir chegar lá, faz alguns trabalhos sem importância (como trocar a placa de um carro que será usado em missão) para agentes de verdade sob ordens de uma voz ao telefone, voz essa que lhe manda pegar um agente que ficou preso na alfândega, e é neste momento que conhecemos Charlie Wax - John Travolta que assume bem o papel - o melhor agente, e ao mesmo tempo mais imoral e alheio às regras, que o governo do Tio Sam pôde produzir.
A trilha sonora com músicas francesas é boa, mas não leva o espectador à Paris. Parece simplesmente música francesa em um filme que se passa em L.A. ou Nova Iorque. Se essa era a idéia, acertou em cheio. Travolta agrada inicialmente por sua conduta sou rebelde, mas depois de um tempo fica enjoativo. Meyers, apesar de ser, teoricamente, um dos protagonistas, não se destaca até o final (literalmente as últimas cenas).
O roteiro não é nada mal. Tiroteios à vontade, com direitos a explosões e pancadaria. A primeira parada da dupla é em um restaurante chinês que serve de fachada para tráfico de cocaína. Nesse restaurante, Wax inicia um tiroteio e acaba derrubando todos os empregados chineses que portam sub-metralhadoras sem qualquer dificuldade, como se fossem pinos de boliche. Fácil e rápido. Em compensação uma das melhores cenas do filme é quando Wax atira no forro do restaurante e a cocaína armazenada simplesmente começa a cair em várias cachoeiras de pó branco, que Reece "coleta" como evidência em um vaso chinês que servia de decoração e ficou milagrosamente intacto depois da chuva de balas que furou cada parede do restaurante.
De traficantes de cocaína chineses para terroristas árabes não há ligação, certo? Errado! Luc Besson cria essa incrível ligação, apenas se esquece de mostrar no filme. Ao que parece, os terroristas eram o alvo de Wax e Reece desde o começo, então os traficantes chineses não passaram de diversão? Eles foram usados? Não se sabe. O que é mostrado é que Wax queria a cocaína coletada no vaso chinês para jogá-la no chão de um prédio no subúrbio para espantar os traficantezinhos do local e conseguir chegar até os terroristas. Dizer o que disso? Wax é bom, muito bom.
Agora que marcamos os terroristas como os verdadeiros vilões da história, descobrimos que pretendem explodir uma comissão americana que vem ao país para uma reunião de cúpula. Aqui há mais algumas perseguições, armas de grande porte, incluindo uma bazooka que Wax achou no carro de um dos agentes da embaixada, e o mais importante: há uma grande reviravolta, que na verdade já era meio esperada.
Dupla Implacável não é o melhor filme de Luc Besson, nem de Pierre Morel e nem de John Travolta. Não é um filme que adicione algo diferenciado a quem quer que seja. É o tipo de filme que diverte e apenas isso. Serve para passar o tempo em uma tarde de tédio, principalmente para os apreciadores de vasos chineses.
"Dupla Implacável". Título original: "From Paris With Love". Ano: 2010. Nacionalidade: França. Diretor: Pierre Morel. Roteiro de: Luc Besson, Adi Hasak. Produzido por: Luc Besson, India Osborne. Estrelando: John Travolta, Jonathan Rhys-Meyers, Kasia Smutniak, Richard Durden, Amber Rose Revah, Yin Bing, Eric Gordon. Música de: David Buckley. Duração: 92 min. Resenha escrita por: Guilherme R. Aleixo. Nota: 7,0/10.

O Melhor Amigo do Homem. Mesmo!


Você deve estar pensando: "Ah, não! Não acredito que ele vai resenhar um filme de cachorro!". Acontece que este filme é tudo, menos um simples filme de cachorro. Sempre ao seu Lado (Hachiko: A Dog's Story, EUA, 2009) - regravação do japonês Hachicko Monogatari de 1987, que nunca chegou ao Brasil - é um drama sobre companheirismo, amizade e lealdade que superam os limites entre as espécies.

Ao contrário dos filmes Sessão da Tarde, em que os cães jogam basquete, hóquei ou futebol (e são melhores que a maioria dos humanos) este é um drama que realmente emociona e consegue levar lágrimas ao olhos. Do diretor Lasse Hallström (de Chocolate, Regras da Vida e O Vigarista do Ano, este último também estrelado por Richard Gere), Sempre ao seu Lado é um filme família que vem com uma lição de moral belíssima. A história se inicia com a chegada do professor Parker Wilson, interpretado por um inspirado Richard Gere, que encontra um filhote na estação de trem quando chega de uma viagem. Sem opção, Parker acaba levando o pequeno akita para casa até que se ache seu verdadeiro dono. Nesse meio tempo, o professor acaba se apegando ao pequeno Hachiko (pronuncia-se Hachi no filme, então usarei essa forma abreviada durante esta resenha) o que desagrada, ao menos inicialmente, sua esposa, interpretada por Joan Allen.

Em certo ponto do filme aparece Cary Hiroyuki Tagawa numa brilhante embora curta performance, como o professor Ken, amigo de Parker, que explica o significado do nome de Hachi e fala um pouco sobre os akitas, uma raça puramente japonesa que remonta 5000 anos no passado, no que parece ser o primeiro contato do ser humano com cães domesticados. Tudo vai bem na vida de Parker: ele vai todos os dias até a estação de trem para ir até o trabalho e Hachi o acompanha na ida até a estação e está lá na hora de seu retorno. Isso ocorre por anos, sem que o cão deixe de ir um único dia sequer, faça chuva, sol ou neve. Até que o professor acaba sofrendo um ataque no meio de uma aula e morre. E Hachi está lá naquela noite, esperando, quando Parker não volta para casa. O ápice do drama é quando ao final do filme, a esposa de Parker volta à cidade após dez anos para visitar sua sepultura e acaba encontrando o fiel parceiro de seu marido, agora velho e solitário, ainda esperando por ele no mesmo lugar.

Sempre ao seu Lado é um filme belamente construído, principalmente por ser baseado em uma história real, ocorrida no Japão na década de 1920 com um professor universitário japonês e seu cão, também akita. A história ficou famosa no país inteiro e o Hachiko original até ganhou uma estátua de bronze em tamanho real no local onde costumava esperar seu dono, na frente da Estação Shibuya.

O filme de Hachi não é perfeito, tem alguns probleminhas de direção bem notáveis, mas a história em si, emociona. Não tem como não ficar com lágrimas nos olhos ao ver o pobre Hachi esperando ansiosamente pelo retorno de seu melhor amigo, em especial na cena em que a viúva senta-se ao seu lado para lhe fazer companhia. Este não é um filme de cachorro. Para àqueles que gostam desses animais, Hachi é um bônus; para quem não gosta, é apenas um detalhe.
"Sempre ao seu Lado". Título original: "Hachiko: A Dog's Story". Ano: 2009. Nacionalidade: EUA. Diretor: Lasse Hallström. Roteiro de: Stephen P. Lindsey. Produzido por: Richard Gere, Bill Johnson, Vicki Shigekuni Wong. Estrelando: Richard Gere, Joan Allen, Sarah Roemer, Jason Alexander, Erick Avari, Davenia McFadden, Cary-Hiroyuki Tagawa. Música de: Jan A. P. Kaczmarek. Duração: 93 min. Resenha escrita por: Guilherme R. Aleixo. Nota: 9,0/10.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

A Colher do Mal


Dirigido pelo iniciante Richard Gale, O Assassino Extremamente Lento com a Arma Extremamente Ineficiente (The Horribly Slow Murderer with the Extremely Inefficient Weapon, EUA, 2008) não passa de um curta metragem pouco conhecido no mundo real, mas bastante famoso no mundo virtual. A história se passa com um perito da polícia chamado Jack Cucchiaio, interpretado por Paul Clemens, que sem nenhum motivo aparente começa a ser perseguido por um homem, que estranhamente pretende matá-lo com uma colher. Sim, você não leu errado: uma COLHER!
Perseguido durante 12 anos, através de 5 continentes, Jack simplesmente não consegue se livrar do que ele descobre ser um demônio imparável que o golpeia incessantemente com uma maldita colher. O Ginosaji - nome do imparável demônio armado com uma colher, que significa literalmente "Silver Spoon" em japonês (ou similar língua asiática) - é interpretado pelo brilhante Brian Rohan que não possui uma única fala nos 10 minutos do curta. E nem precisa. Seu personagem é totalmente assustador e excepcionalmente perturbador sem fazer nada mais do que perseguir uma pessoa incansavelmente com uma colher e espancá-lo até a morte com ela.
O filme, que eu saiba, só está disponível no Youtube e em inglês. São 10 minutos bem gastos. O Assassino Extremamente Lento com a Arma Extremamente Ineficiente é um clássico da tragicomédia trash, conseguindo juntar em 10 rápidos minutos os grandes clichês dos filmes de terror. A continuação chamada Spoon Vs. Spoon (Idem, EUA, 2010) também é ótima para aqueles que necessitam de algumas risadas a mais em sua vida. O filme, em um inglês simples e compreensível, é indispensável para fãs de sátiras e de filmes trash de terror. Se você assisti-lo uma vez, irá voltar a vê-lo again and again and again and again and again.
"O Assassino Terrivelmente Lento com a Arma Extremamente Ineficiente". Título original: "The Horribly Slow Murderer with the Extremely Inefficient Weapon". Ano: 2008. Nacionalidade: EUA. Diretor: Richard Gale. Roteiro de: Richard Gale. Produzido por: Richard Gale. Estrelando: Paul Clemens, Brian Rohan, Fay Kato, Melissa Paladino. Música de: Richard Gale. Duração: 10 min. Resenha escrita por: Guilherme R. Aleixo. Nota: 8,5/10.

Império das Sombras





Do diretor Martin Campbell, e estrelando Mel Gibson, O Fim da Escuridão, é uma obra surpreendente, da autoridade de um homem só.




Em O Fim da Escuridão (Edge of Darkness, EUA, 2010), baseado numa série da BBC de mesmo nome, Thomas Craven é um veterano policial de Boston, com mais anos de serviço do que ele gostaria de contar. Os primeiros quinze minutos do filme mostram a visita da filha de Craven, Emma, interpretada pela graciosa atriz Bojana Novakovic. Tudo aparenta ser uma simples visita de rotina por parte da garota que quer visitar seu pai, mas o fato é que Emma esconde um segredo tenebroso.


Nesses breve 15 minutos de filme, Martin Campbell (o mesmo de Limite Vertical e 007 Casino Royale), é de fazer o espectador se apaixonar quase que imediatamente por ambos os personagens. Emma e seu pai são de um carisma impressionante e, numa relação que não chega a ser desenvolvida durante o filme, esbanja ternura.


Contudo, tudo muda quando Emma leva um tiro de espingarda na porta de sua casa. Após se sentir mal, ela pede para o pai levá-la ao pronto-socorro, mas não há tempo. Emma é baleada na porta de sua casa no que parece ter sido um atentado contra seu pai. A cena é brutal, extremamente violenta e repentina e marca o telespectador durante todos os 100 minutos seguintes do filme até a sua conclusão.


Campbell então usa um recurso interessante para demonstrar a dor da perda do personagem interpretado por Mel Gibson. Este, numa tentativa de descobrir o assassino de sua filha, ainda conversa com ela em diálogos que perturbadores, e lembranças de Emma quando criança, o que cria um impacto ainda maior no espectador, devido à doçura da menina que a interpreta quando jovem, além de sua incrível semelhança com a atriz madura.


Durante a sua investigação, Thomas descobre coisas assustadoras, que envolvem companhias de pesquisa de defesa norte-americanas, onde Emma trabalhava, incluindo intrigas políticas que são aterrorizantes, mas pouco surpreendentes.


Abordado por um indivíduo enigmático chamado Jedburg, interpretado brilhantemente por Ray Winstone (A Lenda de Beowulf), Craven descobre um aliado improvável. A relação dos dois é um dos poucos pontos de humor do filme, com direito a diálogos afiados, cortesia dos roteiristas William Monaham (o mesmo de Os Infiltrados e Rede de Mentiras ) e Andrew Bovell.


O filme tem tudo para ser uma catástrofe. Um diretor que sabe usar elementos de ação, mas que é inconstante, possuindo em sua maioria obras regulares, como A Máscara do Zorro e Limite Vertical, um roteirista que, embora explore as origens da cidade de Boston muito bem, tende a cair no exagero, como em Os Infiltrados e um ator que passou considerável tempo longe das telas e conhecido por sua imaturidade e inclinação à bebida.


Contudo, o resultado é surpreendente. No filme, abundam qualidades, que vão desde o roteiro bem feito, uma direção sóbria, atuações que operam na margem da surpresa, um trabalho de trilha sonora excelente por Howard Shore e uma construção de personagens e laços de relacionamento que não seriam esperados em um filme cuja premissa é sobre intrigas políticas.


Nenhum dos elementos da trama de O Fim da Escuridão é surpreendente. Todos os elementos que envolvem mentiras, hipocrisia e corrupção, provavelmente existem em uma escala ainda maior. O que surpreende na história, são os laços entre os personagens, ligados por fios muito distintos e diferentes entre si, mas que, de uma meneira ou de outra, lutam por um objetivo em comum: a busca por um pouco de luz.



domingo, 31 de outubro de 2010

Pense que não é só loucura





Filme do diretor Tony Gilroy entra nos bastidores de uma empresa de advocacia, onde a verdade é tudo, menos do que deve ser...

Michael Clayton, interpretado por George Clooney é um faxineiro de uma grande empresa de advocacia. Não faxineiro no sentido convencional da palavra, mas é um indivíduo que resolve problemas, cuida dos podres e encobre fatos que as empresas filiadas e clientes não querem que sejam divulgadas. Isso até o momento em que seu melhor amigo, Arthur Edens (interpretado soberbamente por Tom Wilkinson) tem um surto durante um depoimento em Milwaukee, tira toda a sua roupa e sai perseguindo os quilerantes pelo estacionamento.
Essa é a premissa principal do filme Conduta de Risco (Michael Clayton, EUA, 2007) do diretor Tony Gilroy. Gilroy está por aí na indústria Hollywoodiana faz um tempo. Escreveu roteiros para filmes interessantes, como Prova de Vida (2000) e O Advogado do Diabo (1997), até que o sucesso bateu à sua porta em 2001. Com um estilo de escrita amadurecido, Gilroy pegou a obra do autor Robert Ludlum e a transformou completamente, dando início à uma das franquias de cinema de ação mais bem sucedidas da história: a trilogia Bourne.
Ele então escreveria os dois filmes subsequentes da trilogia, até finalmente se aventurar nos mares da direção com Conduta de Risco. Pode-se dizer que foi um sucesso. O filme recebeu ótimas críticas (embora possuísse um público restrito), possuía um elenco formidável, um roteiro excelente escrito pelo próprio Gilroy, que teve a ideia de contar as feiuras da indústria da advocacia após a história de O Advogado do Diabo e recebeu 7 indicações ao OSCAR, vencendo na categoria de melhor atriz coadjuvante para a assustadora vilã interpretada por Tilda Swinton (O Curioso Caso de Benjamin Button). Gilroy foi indicado aos prêmios de melhor direção e roteiro original, assim como o filme foi indicado para melhor filme.
Na trama, o surto de Arthur vai muito além do que simplesmente tirar a roupa na frente dos advogados e das testemunhas de um caso envolvendo uma indústria de herbicidas, a U-North. De acordo com documentos que Arthur possui, um dos componentes do herbicida utilizado pela U-North é extremamente perigoso e potencialmente letal. A U-North então contrata a empresa de advocacia na qual Arthur trabalha, para evitar um processo multibilionário das centenas de vítimas causadas pelo herbicida. Contudo, em seu ato de loucura, Arthur decide expor todo o caso, e lutar à favor das vítimas.
É neste momento que os personagens de Tilda Swinton e George Clooney entram em ação, ambos em lados opostos: Karen Crowder é uma executiva da U-North que não medirá esforços para conter a situação, e Michael Clayton trabalha para a firma, numa tentativa desesperada de encobrir o caso e proteger seu amigo. Contudo, a situação vai tomando rumos catastróficos, enquanto Michael tenta resolver seus problemas familiares com o filho, o irmão drogado e uma dívida de 80 mil dólares.
Poucos roteiristas na história do cinema americano foram capazes de escrever diálogos tão interessantes como os de Tony Gilroy. As falas, como o monólogo introdutório de Arthur no começo do filme, relembram os bons momentos do cinema clássico norte-americano da década de 40 e 50, onde o espaço para efeitos especiais era menor, e o desenvolvimento de bons roteiros era maior.
A confluência de elementos cinematográficos como fotografia e trilha sonora, criam um clima frio para o conjunto da obra. As cores, os ambientes e até os figurinos são sóbrios e estéreis, uma representação sombria do universo no qual Michael trabalha. Robert Elswit (fotógrafo) e James Newton Howard (compositor), criaram elementos que raramente chegam ao excepcional, mas funcionam como sustentação para o filme e sua complexa trama. A edição torna o filme espiralado, criando situações que aparecem no começo e só serão entendidas no final.
O filme começa com o Mercedes-Benz de Michael Clayton explodindo em alguma estrada do interior do estado de Nova Iorque. Por algum motivo desconhecido, Clayton estava no topo de uma colina observando um bando de cavalos, quando o atentado aconteceu. A cena clareia e voltamos 6 dias no passado, no dia que Arthur surta e se despe em Milwaukee, criando uma cadeia de eventos que farã com que Clayton coloque em dúvida suas questões éticas, morais e motivações para fazer o que ele faz.
Existe um componente químico em toda essa situação. Arthur sabe, Karen sabe, Michael sabe e o espectador também sabe. Contudo, o personagem interpretado por Tom Wilkinson é o único que parece possuir um pouco de ética nessa história. Talvez não seja um surto de loucura, como ele mesmo diz no filme, mas sim de lucidez. Em um desenpenho assustador por parte de Wilkinson que rouba o filme, o espectador se depara com questões maiores do que os personagens inicialmente pensam.
Em uma indústria que se concentra cada vez mais na produção de remakes e adaptações, Conduta de Risco surgiu como o sopro de uma vertente nova em Hollywood: a de um cinema cabeça, repleto de diálogos e cenários inteligentes, uma esperança para aqueles que se cansaram da mesma fórmula repetida vez após vez, um sopro de esperança.
Em Conduta de Risco, a verdade pode ser alterada. A verdade é aquela que Michael Clayton faz. Mas em sua jornada, ele será envolvido numa convocação, uma convocação para algo maior. E Arthur, em sua bipolaridade que entra na fase maníaca, é aquele que traz a luz para os que estão cegos. O filme beira o sobrenatural em alguns momentos, é importante prestar atenção quando isso acontece. Até lá, pense que isso tudo não é só loucura.


sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Coronel Jason Nascimento do Bourne





Filme de José Padilha, Tropa de Elite 2 aborda um lado diferente de seu predecessor. A corrupção.

Desde o sucesso internacional da grande produção de Fernando Meirelles, Cidade de Deus, a chamada Cosmética da Fome vem sendo abundantemente explorada no cinema brasileiro. A Cosmética da Fome retrata basicamente a violência, o sexo e o tráfico, tendo como palco na maioria das ocasiões, as favelas brasileiras, em especial, do Rio de Janeiro.
A primeira escurssão de José Padilha no que parece ter se tornado uma nova franquia do cinema brasileiro, Tropa de Elite (2007), não é exceção. Na trama, o capitão Nascimento precisa encontrar um substituto para sua ocupação, enquanto tenta enfrentar o tráfico nas favelas do Rio de Janeiro antes da chegada do Papa em 1997.
Com grandes quantidades de sequências de ação, tiroteios e fortes cenas de violência, o filme imediatamente caiu no gosto popular e logo obteve atenção internacional, vencendo a Palma de Ouro em Berlin. Mas além disso, apresentou ao público brasileiro um personagem de magnitude nunca antes vista em produções nacionais. O capitão Nascimento. Um homem direto, de moralidade duvidosa, contudo incorruptível, que fará de tudo o que estiver ao seu alcance para por um fim ao tráfico e à marginalidade nas favelas cariocas. Mesmo que isso signifique tortura e outros atos ilegais.
Já em Tropa de Elite 2 - agora o inimigo é outro (BRA/2010) que estreou de maneira explosiva no circuito nacional, o foco da narrativa do capitão Nascimento (agora Coronel), é outro. Após uma operação que dá errado, durante uma invasão a um presídio de segurança máxima, Nascimento, ao invés de ser deposto de seu cargo, é promovido a um na Secretaria de Segurança. Uma atitude que, embora contrária às intenções do governador, serviu como um ato político, dado que Nascimento caiu no gosto popular após o massacre que ocorreu no presídio quatro anos antes do começo da narrativa principal.
Lá, ele procura outras formas de deter o tráfico e criminialidade nas favelas, introduzindo novos armamentos e aumentando o número de tropas do comando especial BOPE. De certa forma, a atitude agressiva de Nascimento com relação à marginalidade carioca funciona, na medida que ele põe um fim aos chefões do tráfico. Entretanto, dessa forma, cria o estopim para uma nova forma de criminalidade: a formação de milícias através da corrupção policial.
Diante disso, Nascimento descobre que seu verdadeiro inimigo é justamente aqueles com quem ele trabalhou durante todo aquele tempo, seus colegas de escritório e os políticos que utilizam como moeda corrente, os votos durante uma época de eleições.
Com o "apoio" do deputado Fraga, que é casado com sua ex-esposa, Nascimento tentará espor a corrupção policial, relacionada à formação de milícias, sequestros, assassinatos e manipulações eleitorais, tentando criar um balanço entre seu trabalho e sua vida familiar conturbada, especialmente com o filho, Rafael.
Nesse aspecto, as profundidades do personagem interpretado por Wagner Moura aparecem com maior intensidade. Nascimento é um homem que só consegue viver para o trabalho, o que explica a falha miserável em seu casamento, a péssima relação com o marido de sua ex-esposa (do qual ele necessita de ajuda) e uma ainda pior com seu filho, sem saber que, ao bater de frente com o sistema, ele estará envolvendo sua família em uma onda de violência sem limites.
O roteiro de José Padilha e Bráulio Mantovani é interessante. A narrativa começa com Nascimento sofrendo um atentado. Seu carro é transformado em uma peneira por um batalhão de policiais corruptos enquanto ele saía de um hospital. Conforme o filme prossegue, o protagonista narra de uma forma muito bem feita os acontecimentos que o levarão até aquela situação. A operação no presídio de segurança máxima, quatro anos antes, seu desentendimento com o colega André Matias (interpretado pro André Ramiro), sua promossão e posteriora guerra contra o sistema que ele tanto jurou defender.
Contudo, o roteiro, ao tentar ser inteligente, esbarra em problemas nos quais depende da burrice ou incompetência de seus personagens (em especial os da imprensa carioca), para manter o suspense e as constantes reviravoltas da trama. Desde a primeira fala, o filme procura ironizar as produções de ação norte-americanas, mas acaba caindo em fórmulas hollywoodianas já vistas antes, como as de Jason Bourne, por exemplo. Um homem procurando enfrentar o sistema sozinho e na obscuridade, também sendo um grande especialista em combates físicos e uso de armas (o que diante de sua profissão é compreensível, mas qualidade que é explorada ao extremo). A narrativa rápida e a edição fragmentada, além do suspense político e até mesmo a trilha sonora são elementos típicos da trilogia protagonizada por Matt Damon, ainda que com grandes alterações.
Da mesma forma em que procura ser inteligente, o filme acaba tendo visões otimistas que se tornam um tanto "inoscentes" diante do contexto político-social mais do que conhecido pela sociedade brasileira, assim como uma visão um tanto ingênua da imprensa e de sua capacidade (ou incapacidade) de provocar alterações significativas na política brasileira.
Onde abundam defeitos, abundam qualidades. Os diálogos são bons, assim como os desempenhos dos atores principais (especialmente de Wagner Moura que carrega o filme). A fotografia é detalhada ajudando a acentuar as cenas de ação, os diálogos são bons e há uma exploração maior das tramas polícias e dramas pessoais que Nascimento terá que enfrentar.
O clima de Tropa de Elite 2 difere muito de seu predecessor. O filme possui menos cenas de ação e se concentra mais em desenvolver os diferentes aspectos da corrupção, recheados de diálogos interessantes (embora com um uso excessivo de linguagem chula, embora isso não atrapalhe) e os dramas pessoais de Nascimento com sua família. Na relação com seu filho, esbanja ternura, enquanto o personagem que se tornou famoso por todo o Brasil procura lidar com seus próprios dilemas morais e éticos, que ele nunca havia prestado atenção.
Ainda assim, o mercado audiovisual brasileiro é restrito. A maior parte dos filmes que geram grande bilheteria e conseguem o mínimo de reconhecimento internacional, não fogem à fórmula da Cosmética da Fome, que já abordada e desenvolvida tantas vezes, com óbvias excessões. Filmes como Nosso Lar e O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias são um caso à parte, demonstrando versatilidade e qualidade no cinema nacional (sem qualquer mensão ao filme Lula-Filho do Brasil, um caso grave de propaganda política de mal gosto).
Contudo, o cinema nacional enfrenta problemas e mesmo com a lei que obriga 30% da grade de programação do cinema conter obras brasileiras, o mercado ainda é pequeno. Faltam produções inteligentes com enfoque maior à rica cultura e história brasileiras. A concorrência com os filmes estrangeiros, que esbanjam efeitos visuais e atores de rostos conhecidos em diálogos cretinos e humor pastelão é esmagadora. Entretanto, 2010 surgiu com produções como Nosso Lar e Tropa de Elite 2, sendo que este útlimo, apesar de não fugir de certas fórmulas, certamente representa uma grande evolução no cinema nacional.