quinta-feira, 3 de julho de 2014

A distopia da escolhas



Todo mundo que costuma ir ao cinema já deve ter notado a recente moda, derivada de séries de livros infanto-juvenis, de longa-metragens de temática distópica que têm invadido nossas salas de cinema, como a saga Jogos Vorazes, Divergente e, em um futuro próximo, a saga Maze Runner. Jogos Vorazes e Em Chamas são ótimos filmes, e todo mundo já os conhece, e Maze Runner ainda está para estrear, logo vamos focar em Divergente, que estreou não tem muito tempo aqui no Brasil.


Creio que a primeira coisa que tenho a dizer sobre o filme é: é extremamente fiel ao livro em que se baseou. Que adaptação incrível! E em termos de bilheteria, o longa-metragem arrecadou mais de 145 milhões de dólares só nos EUA durante as oito semanas em que ficou em cartaz (sendo cerca de 56 milhões só no final de semana de estréia).


Para quem não conhece a história, Divergente conta a história de um futuro distópico em que a sociedade se dividiu em cinco facções como uma forma de manter a paz e dividir as funções da comunidade: a Erudição (os cientistas, professores e estudiosos que prezam pela inteligência em seus membros), a Amizade (os produtores e fazendeiros, prezam pela paz), a Franqueza (legisladores e juízes, que prezam pela sinceridade), a Audácia (os soldados e guardas que protegem a população e prezam pela coragem acima de tudo) e a Abnegação (os políticos e governantes, prezam pelo altruísmo).


É nesse mundo que conhecemos Beatrice Prior (Shailene Woodley), uma garota nascida na Abnegação, mas que não tem certeza de se encaixar em seu padrão de vida despojado de posses e altruísta. É por isso que ela aguarda ansiosa pelo Teste de Aptidão que lhe dirá com qual facção tem mais entrosamento. Só que o que acontece é que seu teste tem um resultado inconclusivo, significando que tem a capacidade de se adaptar em mais de uma facção. Pessoas como Beatrice são raras e perigosas (pois põem em risco o sistema de facções) e são chamadas de Divergentes. Posteriormente, há a Cerimônia de Escolha em que os jovens devem escolher as facções a que jurarão lealdade para o resto de suas vidas. E lá, ao lado de seu irmão Caleb (Ansel Elgort), Beatrice toma sua decisão: escolhe a facção Audácia, abandonando os pais e tudo que conhecera. É lá que, sob o nome de Tris, conhece o instrutor Quatro (Theo James), por quem começa a se apaixonar ainda que ele a trate incrivelmente mal, e descobre planos que envolvem não só o assassinato de Divergentes como também um golpe de estado que pode destruir todo o sistema de facções, além de causar uma guerra.


O filme é uma adaptação incrivelmente fiel ao livro em que foi baseado, o que significa que não só os fãs da saga literária foram um pouco mimados como também aqueles que foram ao cinema sem nunca ter ouvido falar da história puderam conferir um bom longa-metragem de ação. E, embora isso tenha causado uma acalorada discussão entre eu e meus amigos, eu, ao contrário deles, não acho que o fio condutor da saga seja mais do mesmo e tenha sido feito para atrair e agradar aos adolescentes. Creio eu que o conflito criado remonta a uma questão básica da humanidade: “tentar descobrir onde se encaixa e o motivo disso”. O que fazer então quando há mais de uma opção ou quando nenhuma delas parece perfeita? A questão da escolha sobrepondo-se às características naturais é corriqueira (aparecendo até em Harry Potter, por exemplo, quando Harry opta pela Grifinória ainda que tenha talento para a casa rival) e faz parte da natureza humana no que se refere às decisões e consequências destas. E Tris mostra bem isso, quando escolhe a facção da luta, da batalha.


O fato é que este início da saga Divergente traz muitas promessas. Algumas serão cumpridas ao longo dos próximos livros e filmes, outras não. Surpreendente será, isso eu garanto. Entretanto, se vai agradar ou não, ou melhor, se vai reconstruir um dos mais interessantes questionamentos da natureza humana, se vai se fazer presente dentre as melhores histórias distópicas lançadas nos últimos anos, isso cabe aos leitores, e espectadores, julgarem.


"Divergente". Título original: "Divergent". Ano: 2014. Nacionalidade: EUA. Diretor: Neil Burger. Roteiro de: Evan Daugherty e Vanessa Taylor. Produzido por: Lucy Fisher, John J. Kelly, Michael Paseornek, Pouya Shahbazian, Rachel Shane, Barry H. Waldman e Douglas Wick. Estrelando: Shailene Woodley, Theo James, Ashley Judd, Jai Courtney, Ray Stevenson, Zoë Kravitz, Miles Teller, Tony Goldwyn e Ansel Elgort. Música de: Junkie XL. Duração: 139 min. Resenha escrita por: Guilherme R. Aleixo. Nota: 8/10.

terça-feira, 24 de junho de 2014

Um dia, seremos um




Eu não tinha ideia de onde estava me metendo, admito. Estava só passeando de boa pelo Netflix, pensando em algo de bom para assistir e lá estava aquela série de que tanto já ouvi falar. E olha, é estrelada pela incrível da Toni Collette. Gosto dela. Sei vagamente sobre o que a série fala, acho que vou dar uma chance. Dias depois terminei as três temporadas que existem e, obcecado, percebo que não tinha ideia, lá no início, da carga emocional e da comédia envolvida em United States of Tara.

Para quem não conhece, a série teve três temporadas de 2009 a 2011 contando a história de Tara (Toni Collette), uma boa mãe, boa esposa, boa irmã… ou quase. Ela consegue ser essas coisas quando ela realmente é Tara, mas acontece que esse nem sempre é o caso. Confuso? Tara tem TDI, ou seja, Transtorno Dissociativo de Identidade - também conhecido como Múltiplas Personalidades. Por isso, às vezes, a personalidade de Tara é substituída por um de seus alter-egos: Alice, a dona de casa dos anos 60 que adora cuidar da casa, cozinhar, e mimar e educar os filhos e o marido; Buck, um ex-veterano do Vietnã que adora sua moto, armas e cerveja; T, uma adolescente que adora fazer compras, beber e se drogar; e, mais ao final da primeira temporada, vemos Gimme, uma personalidade animalesca e assustadora. Na segunda temporada surgem ainda novos alters, sendo eles: a doutora Shoshana Shoenbaum, terapeuta especialista em TDI e meio hippie; e Chicken, uma versão de Tara aos cinco anos de idade. E, na terceira e última temporada, surge ainda um último alter: Bryce, personificando o meio irmão abusivo de Tara.

Aí você olha esse grupo de personalidades e pensa: “quem em sã consciência aguentaria uma pessoa que reveza tantas personalidades no dia a dia?”. E eu te respondo, caro leitor, a família Gregson. Tara sempre tem a seu lado a sua irritante e egocêntrica irmã Charmaine (Rosemarie DeWitt), seu amável e adorável (e mais do que compreensível, devo destacar) marido Max (o ótimo John Corbett), além dos filhos adolescentes Kate (Brie Larson) e Marshall (Keir Gilchrist). E não só Tara tem de lidar com seus constantes blecautes (que sempre ocorrem quando um alter assume, uma vez que não se lembra do que eles fazem), como tem que lidar com situações rotineiras como: a filha adolescente que namora e está transando com um estranho garoto gótico; ou com seu filho mais novo, com suas dúvidas e inseguranças com relação à própria sexualidade; ou com sua irmã, que, ao menos inicialmente, acredita que sua doença não passa de uma invenção para chamar atenção; ou com seu marido que tenta se defender dos avanços sexuais de seus alters; ou com seu trabalho como pintora de paineis para pessoas ricas.

A verdade é que Tara sucumbe à pressão, ao estresse e aos problemas saindo do ar e passando o volante para um de seus alters. Tudo isso para não ter de encarar uma memória traumática de sua infância/adolescência. Algo de que não consegue se lembrar, mas que destruiu e despedaçou sua mente e várias partes de si mesma, que agora lutam para tomar o controle.

Mas como o próprio Mashall diz em certo ponto da história, “essa não é uma história de terror ou sobre uma família disfuncional, essa é uma história de amor”. E é mesmo. Não é sobre como os pais de Tara sabiam do incidente traumático e o esconderam por toda a sua vida, não é sobre sua irmã egoísta e irritante, não é sobre a homossexualidade de seu filho, não é sobre a estranha fascinação de sua filha por uma personagem de RPG que se chama Princesa Valhalla Hawkwind, nem mesmo é sobre suas múltimas personalidades. Não, não é sobre nada disso, embora tais aspectos façam parte do universo de Tara tanto quanto seus alters. United States of Tara é uma história sobre amor, dedicação, comprometimento e família. E embora nem sempre seja fácil, é incrível ver como Max lida com cada alter da esposa e, principalmente, é incrível ver como ele lida com ela.

“Queria que fôssemos nós nos casando hoje. Eu ficaria em frente de todas essas pessoas e diria: eu amo essa mulher! Depois olharia nos seus olhos e diria: se você é Tara, serei Max. Mas se for Gimme, serei Gotcha. E se for o Buck, serei sua moto. Se for a Alice, serei seu astronauta. E eu carregaria a Chicken para o carro, mesmo sabendo que ela estava fingindo dormir.” - Max Gregson.

E ainda que de início se pareça com uma comédia familiar (e leve esse espírito até o fim), nota-se com o passar dos episódios todo o drama que cerca o distúrbio da protagonista. Podemos acompanhar enquanto a situação se deteriora, enquanto seus filhos tentam não se ressentir (algumas vezes sem sucesso) dos conflitos e confusões que a mãe causa, enquanto a própria Tara se desespera por simplesmente não ter controle algum sobre si mesma e as situações em que se envolve.

Não resta dúvidas, ao fim, de que United States of Tara é uma série construída por bons personagens, bons diálogos, um elenco afiadíssimo e um bom roteiro. A relação de Kate com seu irmão (o adorável apelido de Moosh ficará vivo para sempre), ou como ela está sempre buscando o que fazer com sua vida (qual adolescente não se identificou?), ou como Chamaine se apaixona por Neil (o divertidíssimo Patton Oswalt), ou sobre as tentativas de Marsh de entender sua própria sexualidade, a luta de Tara para descobrir qual o trauma que lhe causou a dissociação e a eterna briga de Max, sempre insistindo em defender sua esposa, às vezes contra si mesmo.

E, embora a série tenha sido cancelada ao final da terceira temporada, com o fim é inevitável se entender e perceber que todos nós nos dividimos um pouco. Essa é uma lição que ficou, ao menos para mim. Talvez não de forma dramática como a protagonista, mas ainda assim fica claro que todos usamos máscaras que personificam partes de nós mesmos. Somos pessoas diferentes o tempo todo: uma pessoa com nossos pais, outra com nossos amigos, outra com nossos irmãos, outra com nossos filhos, outra com nossos cães e/ou gatos, outra com nossos cônjuges. E, sim, é verdade que na vida de Tara a comédia e o drama andam de mãos dadas, mas tudo o que ela quer é voltar a ser uma. Tara e somente ela. E, se tivermos sorte, quem sabe um dia todos nós não tenhamos o mesmo objetivo.

"United States of Tara". Ano: 2009 - 2011. Nacionalidade: EUA. Diretor: Craig Zisk, Craig Gillespie, Jamie Babbit e Tricia Brock. Roteiro de: Diablo Cody. Produzido por: Diablo Cody, Justin Falvey, Darryl Frank, Dan Kaplow e Steven Spielberg. Estrelando: Toni Collette, John Corbett, Rosemarie DeWitt, Keir Gilchrist, Brie Larson e Patton Oswalt. Música de: Craig Wedren. Duração: 36 eps. Resenha escrita por: Guilherme R. Aleixo. Nota: 9/10.



terça-feira, 3 de junho de 2014

Voltando. E em boa companhia.



Tocante, sensível e leve são alguns dos adjetivos que foram usados incansavelmente para esse filme. E ele é tudo isso, sim, mas mesmo assim quando fui ao cinema na estreia, admito que não sabia bem o que esperar deste longa-metragem. Isso porque sou fã do roteiro, do diretor e dos atores desde que descobri a história como um curta metragem no Youtube (lá no longínquo ano de 2012). Você pode conferir a resenha que fiz sobre este curta, que já tem mais de 3 milhões de visualizações, aqui. Bom, o curta metragem tem 17 minutos e ganhou 23 prêmios internacionais e 39 nacionais na época de seu lançamento (você pode conferir a lista completa no site do IMDB, aqui).

O longa-metragem Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (idem, BRA, 2014) estreou primeiro no Festival Internacional de Cinema de Berlim, ganhando o prêmio da FIPRESCI (Federação Internacional de Críticos de Cinema) como melhor filme da mostra, além do prêmio Teddy Bear - dado a produções com temática gay. E, semanas antes de estrear em território tupiniquim, surpreendeu novamente ao ganhar um prêmio dado pelo público durante o Festival de Cinema de Guadalajara, no México. Aí, ao chegar ao Brasil, atraiu em duas semanas cerca de 87.000 espectadores por meio de suas 33 salas em 18 cidades do país. Duas semanas depois esse número já havia subido para 54 salas em 32 cidades (números e dados publicados pela Revista Piauí). Em outras palavras, um sucesso estrondoso para um filme pequeno e independente que disputava a atenção com grandes blockbusters nacionais e internacionais. Depois de estrear no Brasil, continuou sendo levado a festivais e mostras internacionais e acabou ganhando ainda mais prêmios no TGLFF (Torino Gay and Lesbian Film Festival).

Para quem não conhece a história do longa, ele é uma releitura do curta-metragem de 2010 (chamado Eu Não Quero Voltar Sozinho) e conta a história do adolescente Leonardo (Ghilherme Lobo) que é cego e, por ser deficiente visual, é superprotegido pelos pais, em especial pela mãe Laura (Lúcia Romano). Por isso o garoto, tentando fugir das amarras da superproteção que encontra por todos os lados, incluindo por parte de sua melhor amiga Giovana (Tess Amorim), se interessa por fazer uma viagem de intercâmbio, na esperança de que essa distância lhe proporcione a independência que não só ele, mas todo jovem procura. Mas os planos de Léo mudam quando conhece Gabriel (Fabio Audi), um estudante novo com quem acaba criando uma forte amizade e, talvez, algo mais.

Creio que a palavra que define o longa-metragem dirigido por Daniel Ribeiro é “sensível” mesmo. A sensibilidade é notável e paupável durante a 1h30 de duração do filme. A forma como os personagens que conhecemos no curta-metragem, em 2010, retornam, mais velhos e profundos é digna de nota. E vale ressaltar, é claro, a construção de todo um universo jovem que em muito me lembrou a minha adolescência. Há a provocação com o diferente, os garotos idiotas que ultrapassam os limites com suas brincadeiras, a irritação com atitudes dos pais, a preguiça eterna que todo adolescente conhece tão bem, a procrastinação na hora dos trabalhos, as dúvidas e inseguranças que todos jovem têm de enfrentar, a descoberta sexual, o medo de não ser correspondido quando há sentimentos por aquela pessoa especial. O universo de Léo, Gabriel e Giovana criado pelo diretor é um espetáculo de profundidade e dúvidas típicas da juventude. Portanto não surpreende quando a identificação do espectador é massiva: isso é porque todos nós nos lembramos de passar por isso, passamos agora ou um dia teremos de passar. A fidelidade com que esse retrato é construído e moldado impressiona e imerge aqueles na sala de cinema no mundo de Léo, e ficamos bestificados com a pureza mostrada lá.

Um dos principais pontos desse universo ‘fictício’ é a inocência e a simplicidade, pois ao mesmo tempo em que nossos protagonistas são adolescentes comuns e podemos acompanhá-los lidando com as frustrações comuns geradas pela idade e pelas relações que têm entre si, vemos também um lado pouco mostrado - o da acessibilidade e das necessidades dos deficientes visuais. Ao menos para mim, o roteiro serviu como um despertar para questões que sempre encarei como simples, como por exemplo: como se explica um eclipse a alguém que não enxerga (e nunca enxergou) ou mesmo que nunca viu luz? Ou então como funciona o ato de se apaixonar para alguém que não pode ver a aparência da outra pessoa (quero dizer, como saber se há um interesse naquela pessoa que você não conhece se não se pode vê-la)? São questionamentos tão simples e ao mesmo tempo tão complexos para nós que nos baseamos tão fortemente no nosso poder de observar e olhar, que ao sermos expostos a isso na sala escura do cinema, ficamos desnorteados e pensativos. Eu sei que eu fiquei.

É muito interessante portanto observar como Léo usa seus outros sentidos para conhecer Gabriel quando logo se aproximam e surge o interesse de um pelo outro. Exemplifico com a cena em que Gabriel chega pela primeira vez à sala de aula e fala com a professora. A primeira fala do garoto é acompanhada pelos espectadores de um ponto recuado no rosto de Léo. Então encaramos sua orelha quando não só ele como também nós, os espectadores, ouvimos a voz do aluno novo pela primeira vez (um toque genial, sem dúvidas). Seguem-se menções honrosas também para a cena em que Léo cheira o moletom que o amigo esqueceu ou quando pela primeira vez Gabriel ajuda a guiá-lo pela rua. É sutil e ao mesmo tempo lírico acompanhar enquanto os sentimentos que Léo nutre pelo novo amigo crescem e se tornem algo mais. É lindo de ver. Apaixonante de assistir.

Minha obsessão com o filme à parte, palmas para todo o elenco que está afiadíssimo. Verdade seja dita, na cena inicial achei a relação entre Léo e Gi um pouco estranha - quase como se não fossem amigos de infância conversando lado a lado, mas passado os primeiros cinco minutos me esqueci totalmente dessa percepção. Ghilherme Lobo brilha como Leonardo e é difícil acreditar que na verdade ele enxerga, tamanho é o convencimento que passa; Fabio Audi está incrível como Gabriel, mostrando uma doçura interiorana tão adorável que dá vontade de que a personagem exista de verdade; Tess Amorim impressiona com sua personificação da amiga de infância que tem sentimentos mais fortes pelo melhor amigo, e sua esperança sendo destroçada tão claramente em seu rosto na cena em que Léo conta que está apaixonado me fizeram engolir algumas lágrimas de dor solidária; Selma Egrei é a avó de Léo, dona Maria, e está incrível com sua confiança e paixão pelo neto, é uma delícia de ver; e, por fim, Eucir de Souza (Carlos, o pai de Léo) e Lúcia Romano (Laura, a mãe superprotetora) são as encarnações de seus papéis como os pais de um adolescente que, do ponto de vista deles, precisa ser protegido de um mundo que não sabe lidar com ele.

A trilha sonora é outra que merece prêmios e prêmios, pois é incrivelmente bem escolhida (eu particularmente fiquei com essa música na cabeça por semanas) com direito a Cícero, Belle and Sebastian, Marcelo Camelo entre muitas outras. E como vocês devem ter percebido pelo texto gigantesco e pelo excesso de detalhes, me apaixonei por esse longa. É daqueles que você pode assistir uma, duas, três ou quatro vezes e continua uma graça de filme. E não posso deixar de dizer que se você for com amigos ou parentes ou qualquer um que não seja seu rola/namorado(a)/cônjuge, ao sair do cinema você se sentirá só e necessitando de um abraço daquela pessoa especial. Isso porque Hoje Eu Quero Voltar Sozinho não é um filme gay (esse é apenas um detalhe), e sim um filme sobre a adolescência e a descoberta do amor entre dois jovens. O resto são enfeites. Mas que dá uma vontade de assistir bem acompanhado, isso dá.

"Hoje Eu Quero Voltar Sozinho". Título original: "Hoje Eu Quero Voltar Sozinho". Ano: 2014. Nacionalidade: BRA. Diretor: Daniel Ribeiro. Roteiro de: Daniel Ribeiro. Produzido por: Diana Almeida, Daniel Ribeiro e Renato Rondon. Estrelando: Ghilherme Lobo, Fabio Audi, Tess Amorim, Isabela Guasco, Selma Egrei, Eucir de Souza e Lúcia Romano. Duração: 95 min . Resenha escrita por: Guilherme R. Aleixo. Nota: 9,5/10.

terça-feira, 20 de maio de 2014

Testemunhando um grande começo




Sabe aquele livro que você não consegue largar? Mesmo que sejam três da madrugada e você tenha que trabalhar ou estudar cedo no dia seguinte e, mesmo assim, você não tem vontade de largar a leitura. Sabe quando isso acontece? Não é incrível? O livro de hoje é um desses que você lê e não consegue largar por muito tempo. Você sabe que se arrependerá no dia seguinte, quando for um zumbi cheio de sono, mas é simplesmente impossível não mergulhar madrugada adentro continuando a leitura, tamanha a empolgação.


Com um ritmo rápido e viciante, que mais se assemelha ao de um filme de ação, Quando eu era Joe é uma narrativa infanto-juvenil contemporânea bastante diferente. O livro conta a história de Ty, um jovem tímido e magricela de 14 anos que vive em Londres com a mãe. Pelo menos até presenciar um crime e ter de ser colocado no Programa de Proteção às Testemunhas para que consiga sobreviver tempo suficiente para testemunhar. Logo, o garoto é afastado e tem de esquecer seu único amigo, sua escola, sua cidade, sua avó. É obrigado a mudar sua aparência e até mesmo seu próprio nome.


Com um visual totalmente diferente e agora sob o nome de Joe, o garoto tem de aprender a viver com um segredo que pode colocar a sua vida e de todos com quem se importa em risco. Um leve deslize pode fazer com que todos sejam mortos. É nesse clima de paranóia que Joe começa a frequentar uma nova escola e desperta o interesse dos colegas com seu jeito misterioso, atraindo mais atenção do que seria necessário, segundo o policial que cuida de sua segurança. A situação só piora quando desperta o interesse da popular Ashley e dos encrenqueiros do colégio. E ainda por cima, Joe decide entrar para o time de corrida da escola, esporte em que se prova bastante competente - o que acaba por atrair ainda mais atenção para si mesmo quando se destaca como uma estrela juvenil na cidade pequena.


Para piorar ainda mais as coisas, sua mãe tem grande dificuldades em se adaptar com seu novo estilo de vida recluso e discreto e pode colocar tudo a perder com sua depressão ao entrar em contato com suas antigas amigas. E, como se a situação não pudesse ficar mais tensa, os criminosos podem tentar machucar a avó de Ty para chegar até ele.


O romance de Keren David consegue encarnar bem as neuras relacionadas com a adolescência, as dúvidas e inseguranças, além, é claro, do desejo de namorar aquela garota bonita ou o medo da escola nova. A perspectiva de Ty/Joe mostra um lado da mente dos jovens que todos nós conhecemos ou iremos conhecer um dia. Sem falar na tensão constante de se ter uma gangue de perigosos criminosos à sua procura. E, claro, como todo bom romance, as reviravoltas e surpresas na narrativa acontecem sem parar.


Para finalizar ainda, devo dizer que fiquei agradavelmente surpreso ao me dar conta de que este é a apenas o primeiro de uma série de livros que conta a história de Ty e como ele sobrevive(rá) até que chegue a data do julgamento em que irá depor. Joe é apenas a primeira de suas identidades e os criminosos não descansarão até conseguirem pegá-lo. E, como parte do processo de entendimento do livro, fiz uma pesquisa rápida (santo Google) sobre os programas de proteção à testemunha, incluindo o famoso WitSec (Witness Security Program ou programa de proteção às testemunhas, em português) dos EUA ou o UK Protected Persons Service (Serviço de Pessoas Protegidas do Reino Unido) - que é o serviço utilizado no livro, já que este se passa na Inglaterra. Descobri que no serviço britânico de testemunhas há mais de três mil pessoas sob proteção do governo no momento enquanto que no serviço de testemunhas brasileiro (sim, nós temos uma também!), o número de pessoas protegidas desde 1999 é de cerca de 4500 pessoas. O programa brasileiro se chama Provita (Programa de Proteção às Vítimas e às Testemunhas Ameaçadas) e gasta cerca de R$15 mil, em média, por testemunha protegida (uma gasto de 80% do governo federal e 20% do governo estadual). Informações retiradas daqui e daqui. Isso só mostra que o Brasil é um país que ainda tem muito o que aprender no que se refere a proteger os seus cidadãos.


Sobre Quando eu era Joe, o livro é daquele que te deixa na beirada da cadeira, com uma excitante sensação de quero mais. E, ao final, tudo o que deixa é o sentimento de que é um ótimo começo para uma saga juvenil. E deixa a sensação de que se testemunhou o início de algo incrível.


Keren David, Quando eu era Joe (When I Was Joe), Editora Novo Conceito, 318 pgs, R$ 26,90.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Uma típica família americana. Só que não.




Conheçam Phillip (Matthew Rhys) e Elizabeth Jennings (Keri Russell), um casal comum que vive na capital americana - Washington - durante o início da década de 80 (em plena Guerra Fria) e ainda arranja tempo para dirigir uma agência de viagens e cuidar de dois filhos: Paige (Holly Taylor) e Henry (Keidrich Sellati). A típica família dos subúrbios americanos, certo? Errado. O que ninguém sabe é que Phillip e Elizabeth não existem, porque as duas pessoas que assumiram tais identidades são agentes da Diretoria S - a mais secreta divisão da KGB - que se infiltraram em território americano há anos e vêm espionando e sabotando o país em que vivem.


Atualmente em sua segunda temporada, a série se chama The Americans e nela podemos acompanhar o casal russo e a sua rotina de espionagem e paranóia, recebendo e repassando informações a seus superiores enquanto vivem a (fachada da) perfeita vida de um patriota americano. Para complicar ainda mais as coisas, logo no primeiro episódio, muda-se para a casa vizinha um agente do FBI, especializado em contra-inteligência: seu trabalho é pegar espiões. E vale ressaltar que é extremamente interessante ver como Phillip e Elizabeth reagem e fingem sempre que estão na presença do vizinho, o agente Stan Beeman (Noah Emmerich).


Tendo abandonado suas vidas na Rússia e se mudado para o outro lado do mundo com um companheiro que nunca antes tinham conhecido (e com o qual deveriam construir o perfeito relacionamento e gerar filhos para melhorar seus disfarces), o casal de espiões demonstra ter o toque certo para transmitir as dificuldades enfrentadas por agentes infiltrados. Vemos os problemas óbvios na relação forjada pela obrigação para com seu serviço militar e como este mesmo relacionamento evoluiu com o passar dos anos para se tornar algo além de meramente uma missão.


O atores principais, Matthew Rhys e Keri Russell, possuem uma química inegável em cena e impressionam pela forma como conseguem mudar do simples e comum casal suburbano que pode estar assando uma torta de maçã para a dupla de agentes secretos com instintos mais do que assassinos em questão de segundos. Junte-se a isso a maquiagem fenomenal quando ambos se passam por outras pessoas, geralmente do governo americano, no objetivo de cumprir a missão ou conseguir a informação que querem. Uma das situações em que isso ocorre é quando Phillip se passa por um agente do governo chamado Clark (com direito a uma convincente peruca e óculos) e conquista e passa a namorar a secretária do chefe do FBI, Martha Hanson (Alison Wright), no intuito de obter informações internas.


The Americans é uma série incrivelmente bem construída e passa aos espectadores alguns dos detalhes mais nebulosos que envolviam a espionagem de baixa tecnologia durante a Guerra Fria. É extremamente interessante ver como as informações era passadas para os superiores e repassadas aos agentes em campo. Ponto positivo ainda pela atuação de Margo Martindale como Claudia, a supervisora idosa dos espiões russos que consegue ser mais assustadora do que alguns vilões de James Bond.


Assim como nos impressiona o milagre que os agentes faziam, em campo, contando apenas com suas habilidade e pouquíssima tecnologia, também é legal notar o gigantesco abismo que exemplifica a diferença entre as culturas norte-americanas (com seu american way of life) e a soviética (com seu rigor e contenção, em especial com relação ao consumismo). É fascinante poder acompanhar o ‘outro lado’ da Guerra Fria, uma vez que é muito mais comum vê-la sob a perspectiva americana. E é divertido a ponto de quase nos fazer torcer pelos vilões… e quem são os vilões? Bom, isso fica a critério do espectador.


"The Americans". Título original: "The Americans - First and Second Season". Ano: 2013-2014. Nacionalidade: EUA. Diretor: Adam Arkin, John Dahl, Daniel Sackheim e Thomas Schlamme. Roteiro de: Joseph Weisberg, Mike Batistick, Joel Fields, Joshua Brand e Melissa James Gibson. Produzido por: Joshua Brand, Justin Falvey, Joel Fields, Darryl Frank, Joseph Weisberg, Graham Yost, Mitch Engel e Adam Arkin. Estrelando: Keri Russell, Matthew Rhys, Annet Mahendru, Noah Emmerich, Alison Wright, Richard Thomas e Margo Martindale. Com: Holly Taylor, Keidrich Sellati, Susan Misner e Lev Gorn. Música de: Nathan Barr. Duração: 13 eps. Resenha escrita por: Guilherme R. Aleixo. Nota: 9,0/10.

terça-feira, 15 de abril de 2014

Um conto de outros deuses






Antes de iniciar a leitura, achava difícil entender como a fórmula usada em Percy Jackson poderia não ter dado certo com a criação da série As Crônicas dos Kane, também de Rick Riordan, e cujo primeiro livro - A Pirâmide Vermelha - terminei de ler recentemente. A fórmula é parecidíssima: deuses personificados e atuantes ainda hoje, poderes místicos, protagonistas adolescentes e bastante sarcásticos e, até mesmo, com a história se passando no mesmo universo onde se passam as aventuras de Percy e seus companheiros semideuses (com inclusive cenas hilárias que mencionam os deuses gregos).

Então, por que razão A Pirâmide Vermelha não alcançou o sucesso imediato com o primeiro livro da série, tal qual O Ladrão de Raios? Na minha opinião, isso se deve a uma questão cultural. E explico: enquanto a série Percy Jackson trata de adolescentes que são filhos dos deuses gregos com humanos, criando assim os semideuses, nas Crônicas dos Kane a coisa é um pouco diferente. Carter e Sadie Kane são irmãos que só se encontram umas duas vezes ao ano. E isso porque Carter viaja com o pai, um egiptólogo famoso, enquanto a menina vive com os avós na Inglaterra. Após a morte da mãe dos garotos, ele têm vivido separados e mal se conhecem até que seu pai, Julius Kane, explode o museu britânico e acaba liberando cinco deuses egípcios, obrigando que os irmãos se juntem para sobreviver. E o pior, por serem descendentes dos antigos faraós egípcios, são os receptáculos de dois dos cinco deuses libertados pelo pai, e agora se vêem em meio a uma batalha épica contra um deus do caos, Set.

O problema é, justamente, não haver uma identificação do público para com a mitologia egípcia. Quando eu digo que Hórus (filho de Osíris e Ísis e que, na mitologia, tornou-se o rei dos vivos no Egito - enquanto seu pai é dos mortos) é o deus que pegou uma carona em Carter e que Ísis (a deusa da maternidade e da fertilidade e protetora da natureza e da magia) é a deusa a ser carregada em Sadie, o leitor não tem idéia da aparência, ou da mitologia por trás de tais entidades. Por outro lado, caso eu fale sobre as barbas de Zeus ou os poderes de Poseidon, nenhuma outra explicação se faz necessária, uma vez que tais imagens são corriqueiras na cultura ocidental.

Obviamente que esse problema de conflito de culturas não é culpa de Riordan ou mesmo dos leitores, é apenas a grande motivação, na minha opinião, para que a história não tenha alcançado o sucesso que Percy Jackson e os Olimpianos alcançou. A cultura e mitologia egípcias são tão ricas e interessantes quanto as gregas e romanas, no entanto, para compreender completamente a narrativa uma pesquisinha rápida se faz necessária.

A parte boa é que Carter e Sadie são tão leigos (ou quase) em egiptologia quanto os leitores, o que torna a narrativa bastante didática. O sarcasmo e as línguas-adolescentes-afiadas, tão presentes na série greco-romana, também aqui se fazem presentes nos dois irmãos que não param de se provocar e alfinetar. E, embora exija um trabalho um pouco mais apurado para se apreciar completamente a leitura, a série egípcia segue o mesmo caminho da de Percy: é divertida, interessa e merece, sem dúvidas, ser lida.

Rick Riordan, A Pirâmide Vermelha (The Red Pyramid) , Ed. Intrínseca, 448 pgs., R$ 34,00.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Perdendo a inocência, com brilhantismo



Alasca Young era uma garota linda, engraçada, sarcástica, problemática, pervertida, inteligente e com uma língua extremamente afiada. Era viciada em livros, cigarros, vinho barato, sexo e em pregar pegadinhas em seus colegas de escola (as mais épicas e originais, pelo que dizem). Muitos gostavam dela, muitos não gostavam e alguns até mesmo se apaixonaram por ela.

Mas, por incrível que pareça, essa não é a história de Alasca Young. Essa é a história de Miles ‘Gordo’ Halter, um garoto tímido e magricela que coleciona as últimas palavras de pessoas famosas. Sem amigos, o garoto decide partir em busca daquilo que o poeta François Rabelais, quando estava à beira da morte, chamou de o “Grande Talvez”. É com isso em mente que o garoto se muda para longe dos pais para o internato Culver Creek, onde conhece Chip "o Coronel" Martin e Alasca Young. Quando, portanto, eu te contar o nome deste livro é Quem é Você, Alasca? e que Alasca Young morre mais ou menos na metade do romance, você não ficará surpreso ao saber que este é o primeiro romance do (agora famoso) autor John Green - famoso por suas histórias tocantes que sempre envolvem amor e, claro, morte.

John Green é um escritor relativamente iniciante, mas incrivelmente hábil na sua escrita. Seu trabalho realmente se destacou com o livro A Culpa é das Estrelas (que chega ao cinema em breve) e que conta a história de uma garota com câncer terminal que namora (adivinhem, adivinhem!) um garoto que também tem câncer. Mas nesse primeiro romance do autor já vemos o quanto ele promete alcançar, pois é uma obra-prima de reflexão e auto-análise frente a um dos grandes mistérios da vida. E, assim como nós, Miles e o Coronel têm de encarar a partida brusca daquela que parece ser o centro de seu jovem mundo, sem motivos e razões e sem explicações.

O livro é dividido em duas partes: Antes e Depois, sendo feita uma contagem regressiva desde a primeira página (achei a estratégia muito interessante). Sabendo que John Green não costuma poupar a dor de seus leitores, sempre fica a sensação de que a contagem regressiva não é para algo positivo. E logo quando você pensa que talvez estivesse enganado, a contagem chega a zero e você percebe que estava certo o tempo inteiro e sente o nó na garganta pela perda de uma personagem tão cativante. É claro que a morte de Alasca não é exatamente spoiler, uma vez que o nome do livro já mostra a importância da moça, sendo seguida por “O primeiro amigo, a primeira garota, as últimas palavras” na capa. E quando chega a hora, você não sabe o que esperar e mesmo quando descobre aquilo que provavelmente aconteceu, o leitor, assim como Gordo, torce para estar errado, pedindo a qualquer entidade em que possa pensar para que algo muito ruim não tenha acontecido. E, como na vida, isso não faz diferença alguma.

A sensação que fica ao ler sobre a derrocada pós-falecimento é de uma tristeza profunda não só para os personagens como para os leitores. Isso porque, em algum nível, todos gostamos e queremos ser um pouco Alasca: a rebelde sem limites, que se diverte com os amigos e faz o que quer na tênue linha entre a legalidade e a expulsão. E quando a sua partida ocorre, ficamos esperando por uma explicação que nunca chega. E nunca chegará. As últimas palavras do poeta François Rabelais foram: "Saio em busca de um Grande Talvez". E a obra de John Green mostra as inúmeras possibilidades do Grande Talvez. E a incerteza que acompanha inerentemente essa possibilidade. John Green usa Alasca e Gordo para mostrar o quanto é fácil perder a inocência de que somos todos imortais e indestrutíveis. E ele faz isso com um brilhantismo digno dos maiores mistérios da vida humana. Digno do Grande Talvez.

John Green, Quem é Você, Alasca? (Looking for Alaska), Ed. Martins Fontes, 240 pgs., R$24,90.