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quinta-feira, 1 de maio de 2014

Uma típica família americana. Só que não.




Conheçam Phillip (Matthew Rhys) e Elizabeth Jennings (Keri Russell), um casal comum que vive na capital americana - Washington - durante o início da década de 80 (em plena Guerra Fria) e ainda arranja tempo para dirigir uma agência de viagens e cuidar de dois filhos: Paige (Holly Taylor) e Henry (Keidrich Sellati). A típica família dos subúrbios americanos, certo? Errado. O que ninguém sabe é que Phillip e Elizabeth não existem, porque as duas pessoas que assumiram tais identidades são agentes da Diretoria S - a mais secreta divisão da KGB - que se infiltraram em território americano há anos e vêm espionando e sabotando o país em que vivem.


Atualmente em sua segunda temporada, a série se chama The Americans e nela podemos acompanhar o casal russo e a sua rotina de espionagem e paranóia, recebendo e repassando informações a seus superiores enquanto vivem a (fachada da) perfeita vida de um patriota americano. Para complicar ainda mais as coisas, logo no primeiro episódio, muda-se para a casa vizinha um agente do FBI, especializado em contra-inteligência: seu trabalho é pegar espiões. E vale ressaltar que é extremamente interessante ver como Phillip e Elizabeth reagem e fingem sempre que estão na presença do vizinho, o agente Stan Beeman (Noah Emmerich).


Tendo abandonado suas vidas na Rússia e se mudado para o outro lado do mundo com um companheiro que nunca antes tinham conhecido (e com o qual deveriam construir o perfeito relacionamento e gerar filhos para melhorar seus disfarces), o casal de espiões demonstra ter o toque certo para transmitir as dificuldades enfrentadas por agentes infiltrados. Vemos os problemas óbvios na relação forjada pela obrigação para com seu serviço militar e como este mesmo relacionamento evoluiu com o passar dos anos para se tornar algo além de meramente uma missão.


O atores principais, Matthew Rhys e Keri Russell, possuem uma química inegável em cena e impressionam pela forma como conseguem mudar do simples e comum casal suburbano que pode estar assando uma torta de maçã para a dupla de agentes secretos com instintos mais do que assassinos em questão de segundos. Junte-se a isso a maquiagem fenomenal quando ambos se passam por outras pessoas, geralmente do governo americano, no objetivo de cumprir a missão ou conseguir a informação que querem. Uma das situações em que isso ocorre é quando Phillip se passa por um agente do governo chamado Clark (com direito a uma convincente peruca e óculos) e conquista e passa a namorar a secretária do chefe do FBI, Martha Hanson (Alison Wright), no intuito de obter informações internas.


The Americans é uma série incrivelmente bem construída e passa aos espectadores alguns dos detalhes mais nebulosos que envolviam a espionagem de baixa tecnologia durante a Guerra Fria. É extremamente interessante ver como as informações era passadas para os superiores e repassadas aos agentes em campo. Ponto positivo ainda pela atuação de Margo Martindale como Claudia, a supervisora idosa dos espiões russos que consegue ser mais assustadora do que alguns vilões de James Bond.


Assim como nos impressiona o milagre que os agentes faziam, em campo, contando apenas com suas habilidade e pouquíssima tecnologia, também é legal notar o gigantesco abismo que exemplifica a diferença entre as culturas norte-americanas (com seu american way of life) e a soviética (com seu rigor e contenção, em especial com relação ao consumismo). É fascinante poder acompanhar o ‘outro lado’ da Guerra Fria, uma vez que é muito mais comum vê-la sob a perspectiva americana. E é divertido a ponto de quase nos fazer torcer pelos vilões… e quem são os vilões? Bom, isso fica a critério do espectador.


"The Americans". Título original: "The Americans - First and Second Season". Ano: 2013-2014. Nacionalidade: EUA. Diretor: Adam Arkin, John Dahl, Daniel Sackheim e Thomas Schlamme. Roteiro de: Joseph Weisberg, Mike Batistick, Joel Fields, Joshua Brand e Melissa James Gibson. Produzido por: Joshua Brand, Justin Falvey, Joel Fields, Darryl Frank, Joseph Weisberg, Graham Yost, Mitch Engel e Adam Arkin. Estrelando: Keri Russell, Matthew Rhys, Annet Mahendru, Noah Emmerich, Alison Wright, Richard Thomas e Margo Martindale. Com: Holly Taylor, Keidrich Sellati, Susan Misner e Lev Gorn. Música de: Nathan Barr. Duração: 13 eps. Resenha escrita por: Guilherme R. Aleixo. Nota: 9,0/10.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Heróis sem nomes e sem rostos

Como já disse anteriormente (aqui), tenho o maior respeito por agentes de inteligência, também conhecidos como espiões. Este é um ramo extremamente arriscado, que quase sempre cobra um alto preço em troca dos resultados obtidos, resultados estes que quase sempre significam a diferença entre a vida e a morte de dezenas ou centenas de civis inocentes. Neste caso novamente, venho provar que minha opinião tão positiva a favor dos agentes da inteligência militar se mostra correta: o livro da vez é o livro-reportagem Os Últimos Soldados da Guerra Fria, escrito pelo renomado jornalista Fernando Morais.

Embasado por 38 entrevistas feitas entre Cuba, Estados Unidos e México entre os anos de 2008 e 2011, o romance de não-ficção conta a história real, e recente, de uma rede de espiões cubanos agindo em Miami, infiltrados em organizações extremistas de direita que causavam atentados terroristas de grande porte e repercussão em território cubano. O objetivo destes extremistas antirrevolucionários era acabar com o regime de Fidel Castro por meio do corte de recursos proporcionado pela atividade turística, que é claramente o que sustenta a ilha, então seus alvos eram especificamente as áreas turísticas e hotéis espalhados por todo o paraíso turístico.

A Rede Vespa, como foi apelidada pelo Departamento de Segurança do Estado (DSE) cubano – a CIA de Fidel Castro -, chegou a contar com 14 agentes agindo sob disfarce em território norte-americano. Os relatórios enviados pelos agentes à Vila Marista – cidade onde se encontra a sede da agência cubana, e que por isso se tornou sinônimo da agência, tal qual Langley para a CIA – ajudaram as autoridades castristas a frustrarem inúmeros atentados à hotéis e pontos turísticos na ilha e poupando inúmeras vidas de turistas inocentes.

Agindo nos Estados Unidos desde 1990, a Rede Vespa agiu incólume até 1998, quando foi desbaratada pelo FBI, mesmo tendo sido descoberta pelo Estado americano em meados de 1995. Dos dez agentes presos em 98, cinco dos agentes que ocupavam a base da hierarquia da equipe fizeram acordos de delação premiada, sendo posteriormente libertados e colocados no Programa de Proteção à Testemunha. Os cinco que lideravam a equipe, e se recusaram a fazer acordos, são eles: Antonio Guerrero, Fernando González, Gerardo Hernández e Ramón Labañino. O quinto integrante preso, René González foi condenado a 15 anos de reclusão, mas conseguiu liberdade condicional após a publicação do livro. Os outros prisioneiros continuam reclusos até este presente momento, com penas que variam de 15 anos a prisão perpétua.

O livro-reportagem é muito claro ao desmistificar o mundo da espionagem, principalmente ao mostrar que a vida de James Bond não passa de ficção: os verdadeiros espiões cubanos batalhavam por moedas, fazendo bicos e se submetendo a empregos braçais, mesmo tendo diplomas em universidades conceituadas em Cuba ou em capitais da ex-URSS – diplomas desvalorizados em uma época pós-queda do muro de Berlim. Os espiões tinham de se esforçar para alcançar uma parca renda que lhes permitisse continuar sua vida dupla, visto que entraram nos EUA como exilados e fugitivos do regime comunista de Castro.

Desse disfarce surge também o conflito, visto que vários dos agentes foram obrigados a abandonar esposas e famílias na Ilha, todos fiéis e leais apoiadores do regime revolucionário que lidera o país. Vistos como traidores por aqueles a quem amam, os agentes se infiltraram entre os inimigos no intuito de deixar a todos seguros, tanto suas famílias quando o seu governo.

Para que se tenha uma ideia do tipo de terrorismo praticado por essas várias organizações pretensamente pacíficas, darei alguns exemplos de casos ocorridos: era bastante comum aviões civis (do tipo Cessnas) invadirem o espaço aéreo cubano e, mesmo recebendo avisos de que por lei poderiam ser derrubados, despejarem sobre Havana – a capital cubana – panfletos contra Fidel. Isso ocorreu até o episódio em que dois Cessnas foram de fato derrubados pela força aérea de Cuba. Entretanto este é apenas o mais simples e pacífico exemplo do terror a que submetiam o povo cubano: no intuito de espantar os turistas, exilados se aproximavam das praias em lanchas, se aproveitando da curta distância entre o litoral cubano e a Flórida, e disparavam metralhadoras antiaéreas calibre .50 contra hotéis, fugindo para águas internacionais antes que a guarda costeira pudesse chegar. Não bastando, em mais de cinco oportunidades, mercenários da América Central foram contratados para instalar bombas em hotéis, explodindo fachadas e até mesmo ferindo e matando turistas e empregados. E estes são apenas alguns dos muitos exemplos de ações hostis que tentavam ser evitados.

Um fato que merece muito destaque na história contada por Morais é a posição do governo dos EUA com relação às atividades, bastante conhecidas, ao que parece, das organizações anticastristas que operavam na Flórida. Embora não ostentasse apoio claro às atividades terroristas contra Cuba, o governo americano tampouco se impunha frente às ações dos extremistas contrarrevolucionários. Ao invés disso, perseguiram a processaram os agentes que se infiltraram no país visando assegurar o bem-estar de seu próprio povo e nação. Quando presos, os agentes foram acusados de espionar o governo dos Estados Unidos, o que acabou por não se provar na corte, visto que a intenção do grupo era conhecer as estratégias e planos de ataque de entidades extremistas contra Cuba e não informações secretas do governo americano. Vale destacar aqui que o líder da unidade também foi acusado de planejar para matar cidadãos americanos, neste caso os pilotos mortos quando os dois Cessnas foram abatidos em espaço aéreo cubano. Nada foi provado no tribunal, mas é interessante analisar a lógica por trás disso: o agente infiltrado é acusado da morte de quatro pilotos que invadiram espaço aéreo, foram avisados, ignoraram avisos e foram abatidos. Não sei a vocês, mas não me parece ter muito sentido.

Em nenhum momento é segredo a oposição do governo americano ao regime dos irmãos Castro. Embora desde o fim da Guerra Fria – quando Cuba começou a receber apoio da URSS – esse conflito de interesses tenha existido, de forma velada ou não a depender de quem se sentava no Salão Oval da Casa Branca, e isso pode ser notado nas políticas de imigração estabelecida entre os países, a falta de ação da Casa Branca com relação à invasão do espaço aéreo cubano por aeronaves que partiam de Miami, ostentando a bandeira norte-americana na fuselagem foi o que definiu a postura do DSE e a decisão de infiltração em território americano. A posição impassível e quase acolhedora para com as organizações terroristas anticastristas na Flórida foi o ponto sem retorno que levou à queda dos agentes da inteligência cubana.

Embora tenham sido presos e condenados, ficou claro ao final das páginas de Morais que a posição dos agentes era única e, da mesma forma, imprescindível para o bem nacional. Sem sombras de dúvida os resultados obtidos por seu trabalho, as vidas salvas, o sucesso conquistado para Havana valeram o preço de sua liberdade. Foram pegos, é verdade, mas o trabalho foi feito. E, muito bem feito, diga-se de passagem. Por coincidência a informação chegou à mídia e daí, para o mundo. Palmas para estes homens que tanto lutaram por seus ideais e pelo seu povo. E palmas para todos os outros homens e mulheres que fizeram e fazem o mesmo sem que o reconhecimento devido lhes seja demonstrado. São verdadeiros heróis: heróis sem nomes e sem rostos.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Reencontro dos Tolos

Em O Espião que Sabia Demais, o diretor Tomas Alfredson ajuda a reinventar um gênero já desgastado criando o melhor filme de espionagem de todos os tempos.

O cenário é Budapeste. Um homem chamado Jim Prideaux (Mark Strong) está sentado num café com outro homem. Ambos esperam a chegada de um terceiro que possui informações sobre um possível agente duplo dentro do mais alto escalão do MI6. O garçom se aproxima se aproxima, tremendo e suando. É o primeiro sinal de que alguma coisa está errada. Jim percebe, se levanta, mas já é tarde demais. O garçom entra em pânico e dispara duas vezes: o primeiro acerta uma moça sentada numa cadeira em frente com uma criança no colo. O segundo acerta Jim nas costas que cai, sangrando no chão da calçada.
É com Jim que a história se inicia, se desenrola e termina, pois é Jim o estopim para os acontecimentos que virão em seguida, no filme O Espião que Sabia Demais (Tinker Tailor Soldier Spy, ING, 2011), em cartaz no cinemas de todo o Brasil.
A suspeita é simples. De acordo com o líder do MI6, Control (John Hurt) há um espião, bem no topo do "Circo". Ele está lá por anos e é um de cinco homens: Bill Haydon (Colin Firth), Percy Alleline (Toby Jones), Roy Bland (Ciarán Hinds), Toby Esterhase (David Dencik) ou George Smiley (Gary Oldman). Mas como descobrir um inimigo que está escondido bem diante de seus olhos? E pior: depois o que fazer com ele? Entretanto quando Control morre do coração, a missão de descobrir o espião dentro do MI6 cai nas mãos do semi-aposentado Smiley.
Baseado no romance homônimo de John Le Carré, O Espião que Sabia Demais de 1974 é considerado por muitos, sua obra prima. E isso vindo do autor de obras clássicas da espionagem contemporânea como O Espião que Veio do Frio, O Jardineiro Fiel e A Casa da Rússia, é muito. Difícil dizer se de fato o é, mas com certeza é um dos mais complexos. São dezenas de personagens, reviravoltas, flashbacks, informações e outros tantos nomes, que são capazes de deixar o mais atento dos leitores confuso.
Não é o caso da adaptação dirigida pelo sueco Tomas Alfredson. Vindo do sucesso do drama de terror, Deixe ela Entrar, Alfredson teve a dura tarefa de fazer um trabalho melhor do que o realizado na minissérie de 1979 e mais: de tornar uma obra complicadíssima, num filme assistível.
Com um elenco do mais alto calibre britânico, o papel de George Smiley - que aparece em várias obras de Le Carré - caiu nas mãos de Gary Oldman, que esperou uma vida inteira pela oportunidade de mostrar todo o seu potencial em um papel que merece todo o seu potencial. O resultado é mais que primoroso.
Trata-se de um personagem de grande frieza, e que não demonstra seus sentimentos em momento algum, mas que no fundo é atormentado por uma série de questões morais e pessoais. Smiley acabou de perder o emprego, sua mulher o traiu e o tirou e agora ele tem que espionar seus próprios companheiros para descobrir um traidor que esteve escondido durante anos bem na frente de seus olhos.
Aliás, este é um filme onde não há um ator sequer fora do papel. Estão todos perfeitos e isso somado à interessante fotografia de Hoyte Van Hoytema e à trilha sonora de Alberto Iglesias, tornam esta uma das mais interessantes obras da espionagem do cinema contemporâneo de todos os tempos.
É também um anti-filme de espionagem. Não há perseguições ou tiroteios em O Espião que Sabia Demais e a sexualidade sedutora do agente James Bond aqui é substituída por momentos de homoeroticidade bem palpáveis - o que vindo de uma sociedade conservadora da Inglaterra dos anos 70 é algo bem delicado.
Ao contrário do livro, o filme foi capaz de condensar absolutamente o essencial, também proporcionando mais lineariedade à narrativa de Le Carré. Isso não diminui em nenhum momento a intelectualidade da obra original, ou os dilemas morais que ela apresenta. Afinal, qual é o valor da lealdade em uma sociedade que já não acredita mais nos seus ideais do pós-guerra, em seus líderes, ou nos líderes das nações vizinhas. São todos tolos, na verdade - os integrantes do "Circo". Seja por que eles acreditam em seus ideais, ou não.