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terça-feira, 3 de junho de 2014

Voltando. E em boa companhia.



Tocante, sensível e leve são alguns dos adjetivos que foram usados incansavelmente para esse filme. E ele é tudo isso, sim, mas mesmo assim quando fui ao cinema na estreia, admito que não sabia bem o que esperar deste longa-metragem. Isso porque sou fã do roteiro, do diretor e dos atores desde que descobri a história como um curta metragem no Youtube (lá no longínquo ano de 2012). Você pode conferir a resenha que fiz sobre este curta, que já tem mais de 3 milhões de visualizações, aqui. Bom, o curta metragem tem 17 minutos e ganhou 23 prêmios internacionais e 39 nacionais na época de seu lançamento (você pode conferir a lista completa no site do IMDB, aqui).

O longa-metragem Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (idem, BRA, 2014) estreou primeiro no Festival Internacional de Cinema de Berlim, ganhando o prêmio da FIPRESCI (Federação Internacional de Críticos de Cinema) como melhor filme da mostra, além do prêmio Teddy Bear - dado a produções com temática gay. E, semanas antes de estrear em território tupiniquim, surpreendeu novamente ao ganhar um prêmio dado pelo público durante o Festival de Cinema de Guadalajara, no México. Aí, ao chegar ao Brasil, atraiu em duas semanas cerca de 87.000 espectadores por meio de suas 33 salas em 18 cidades do país. Duas semanas depois esse número já havia subido para 54 salas em 32 cidades (números e dados publicados pela Revista Piauí). Em outras palavras, um sucesso estrondoso para um filme pequeno e independente que disputava a atenção com grandes blockbusters nacionais e internacionais. Depois de estrear no Brasil, continuou sendo levado a festivais e mostras internacionais e acabou ganhando ainda mais prêmios no TGLFF (Torino Gay and Lesbian Film Festival).

Para quem não conhece a história do longa, ele é uma releitura do curta-metragem de 2010 (chamado Eu Não Quero Voltar Sozinho) e conta a história do adolescente Leonardo (Ghilherme Lobo) que é cego e, por ser deficiente visual, é superprotegido pelos pais, em especial pela mãe Laura (Lúcia Romano). Por isso o garoto, tentando fugir das amarras da superproteção que encontra por todos os lados, incluindo por parte de sua melhor amiga Giovana (Tess Amorim), se interessa por fazer uma viagem de intercâmbio, na esperança de que essa distância lhe proporcione a independência que não só ele, mas todo jovem procura. Mas os planos de Léo mudam quando conhece Gabriel (Fabio Audi), um estudante novo com quem acaba criando uma forte amizade e, talvez, algo mais.

Creio que a palavra que define o longa-metragem dirigido por Daniel Ribeiro é “sensível” mesmo. A sensibilidade é notável e paupável durante a 1h30 de duração do filme. A forma como os personagens que conhecemos no curta-metragem, em 2010, retornam, mais velhos e profundos é digna de nota. E vale ressaltar, é claro, a construção de todo um universo jovem que em muito me lembrou a minha adolescência. Há a provocação com o diferente, os garotos idiotas que ultrapassam os limites com suas brincadeiras, a irritação com atitudes dos pais, a preguiça eterna que todo adolescente conhece tão bem, a procrastinação na hora dos trabalhos, as dúvidas e inseguranças que todos jovem têm de enfrentar, a descoberta sexual, o medo de não ser correspondido quando há sentimentos por aquela pessoa especial. O universo de Léo, Gabriel e Giovana criado pelo diretor é um espetáculo de profundidade e dúvidas típicas da juventude. Portanto não surpreende quando a identificação do espectador é massiva: isso é porque todos nós nos lembramos de passar por isso, passamos agora ou um dia teremos de passar. A fidelidade com que esse retrato é construído e moldado impressiona e imerge aqueles na sala de cinema no mundo de Léo, e ficamos bestificados com a pureza mostrada lá.

Um dos principais pontos desse universo ‘fictício’ é a inocência e a simplicidade, pois ao mesmo tempo em que nossos protagonistas são adolescentes comuns e podemos acompanhá-los lidando com as frustrações comuns geradas pela idade e pelas relações que têm entre si, vemos também um lado pouco mostrado - o da acessibilidade e das necessidades dos deficientes visuais. Ao menos para mim, o roteiro serviu como um despertar para questões que sempre encarei como simples, como por exemplo: como se explica um eclipse a alguém que não enxerga (e nunca enxergou) ou mesmo que nunca viu luz? Ou então como funciona o ato de se apaixonar para alguém que não pode ver a aparência da outra pessoa (quero dizer, como saber se há um interesse naquela pessoa que você não conhece se não se pode vê-la)? São questionamentos tão simples e ao mesmo tempo tão complexos para nós que nos baseamos tão fortemente no nosso poder de observar e olhar, que ao sermos expostos a isso na sala escura do cinema, ficamos desnorteados e pensativos. Eu sei que eu fiquei.

É muito interessante portanto observar como Léo usa seus outros sentidos para conhecer Gabriel quando logo se aproximam e surge o interesse de um pelo outro. Exemplifico com a cena em que Gabriel chega pela primeira vez à sala de aula e fala com a professora. A primeira fala do garoto é acompanhada pelos espectadores de um ponto recuado no rosto de Léo. Então encaramos sua orelha quando não só ele como também nós, os espectadores, ouvimos a voz do aluno novo pela primeira vez (um toque genial, sem dúvidas). Seguem-se menções honrosas também para a cena em que Léo cheira o moletom que o amigo esqueceu ou quando pela primeira vez Gabriel ajuda a guiá-lo pela rua. É sutil e ao mesmo tempo lírico acompanhar enquanto os sentimentos que Léo nutre pelo novo amigo crescem e se tornem algo mais. É lindo de ver. Apaixonante de assistir.

Minha obsessão com o filme à parte, palmas para todo o elenco que está afiadíssimo. Verdade seja dita, na cena inicial achei a relação entre Léo e Gi um pouco estranha - quase como se não fossem amigos de infância conversando lado a lado, mas passado os primeiros cinco minutos me esqueci totalmente dessa percepção. Ghilherme Lobo brilha como Leonardo e é difícil acreditar que na verdade ele enxerga, tamanho é o convencimento que passa; Fabio Audi está incrível como Gabriel, mostrando uma doçura interiorana tão adorável que dá vontade de que a personagem exista de verdade; Tess Amorim impressiona com sua personificação da amiga de infância que tem sentimentos mais fortes pelo melhor amigo, e sua esperança sendo destroçada tão claramente em seu rosto na cena em que Léo conta que está apaixonado me fizeram engolir algumas lágrimas de dor solidária; Selma Egrei é a avó de Léo, dona Maria, e está incrível com sua confiança e paixão pelo neto, é uma delícia de ver; e, por fim, Eucir de Souza (Carlos, o pai de Léo) e Lúcia Romano (Laura, a mãe superprotetora) são as encarnações de seus papéis como os pais de um adolescente que, do ponto de vista deles, precisa ser protegido de um mundo que não sabe lidar com ele.

A trilha sonora é outra que merece prêmios e prêmios, pois é incrivelmente bem escolhida (eu particularmente fiquei com essa música na cabeça por semanas) com direito a Cícero, Belle and Sebastian, Marcelo Camelo entre muitas outras. E como vocês devem ter percebido pelo texto gigantesco e pelo excesso de detalhes, me apaixonei por esse longa. É daqueles que você pode assistir uma, duas, três ou quatro vezes e continua uma graça de filme. E não posso deixar de dizer que se você for com amigos ou parentes ou qualquer um que não seja seu rola/namorado(a)/cônjuge, ao sair do cinema você se sentirá só e necessitando de um abraço daquela pessoa especial. Isso porque Hoje Eu Quero Voltar Sozinho não é um filme gay (esse é apenas um detalhe), e sim um filme sobre a adolescência e a descoberta do amor entre dois jovens. O resto são enfeites. Mas que dá uma vontade de assistir bem acompanhado, isso dá.

"Hoje Eu Quero Voltar Sozinho". Título original: "Hoje Eu Quero Voltar Sozinho". Ano: 2014. Nacionalidade: BRA. Diretor: Daniel Ribeiro. Roteiro de: Daniel Ribeiro. Produzido por: Diana Almeida, Daniel Ribeiro e Renato Rondon. Estrelando: Ghilherme Lobo, Fabio Audi, Tess Amorim, Isabela Guasco, Selma Egrei, Eucir de Souza e Lúcia Romano. Duração: 95 min . Resenha escrita por: Guilherme R. Aleixo. Nota: 9,5/10.

sábado, 25 de dezembro de 2010

Comentário convidado - A Criança Roubada







Por Finisia Fideli

A Criança Roubada (The Stolen Child), Keith Donohue. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2007, 362 pgs. Capa de Jonathan Cape. Tradução de Cássio de Arantes Leite.


Na primeira frase do livro, o protagonista pede: "Não me chame de fada", e segue explicando que essa palavra adquiriu com o tempo inúmeros significados e que o correto é nomeá-lo de hobgoblin - ou changeling (do inglês "to change" = "trocar").
Os changelings sequestram uma criança humana e a substituem por um deles. A criança escolhida é rigorosamente acompanhada para que tudo a seu respeito e de sua família seja conhecido antes da troca. Não serve qualquer criança. É preciso que seja um tipo solitário, inapto à vida familiar, de alguma maneira rejeitada ou deixada de lado. Desse modo, o hobgoblin captura a criança e a substitui. Transforma seu corpo nos mínimos detalhes, a fim de enganar os pais e fazê-los acreditar que aquele changeling é de fato o filho deles.
A história começa com a captura e entrada de Henry Day no mundo das fadas, quando, aos sete anos de idade, ele decide fugir de sua casa na fazenda e adentrar na floresta que existe nas proximidades. Com os bolsos cheios de biscoitos, ele se esgueira dentro da mata sem que sua mãe perceba. É uma tarde quente de agosto, e Henry acaba se escondendo dentro do tronco oco de um enorme castanheiro. Ao entardecer, os adultos se aproximam de seu esconderijo com lanternas, procurando por ele, mas Henry está decidido a não ser encontrado.
Contudo, os changelings já o escolheram, e ele é arrancado do buraco, jogado no chão, amordaçado, despido, amarrado e carregado por crianças extraordinariamente fortes, em disparada pela floresta escura. A história de sua conversão é o início de uma fábula de sofrimento, ao mesmo tempo a imersão e o despertar de um sonho, de uma morte e de um renascimento.
Contando com ele, o grupo completa uma dúzia exata, seis garotos e cinco garotas quase nus, cobertos com roupas velhas e puídas; descalços, cabelos compridos e desgrenhados, belos rostos, olhos baços e vazios emoldurados por rugas finas. Anciãos em corpos de meninos selvagens, imobilizados no tempo, sem idade, eternos, rústicos como uma matilha de cães. Eles se apresentam: as meninas são Speck, Onions, Kivi, Blomma e Chavisory. Os garotos são Igel, o líder, Bécka, Ragno, Zanzara, Smaolach e Luchóg. Alguns agem como irmãos, outros como amantes, todos vivendo juntos na floresta.
Henry acaba sendo nomeado "Aniday" e aprende a arpoar rãs e peixes, distinguir cogumelos comestíveis dos venenosos e coletar água. No frio eles todos dormem juntos numa massa confusa sobre uma pilha de peles de animais. Os mais experientes fazem escursões à cidade para roubar agasalhos e sapatos para enfrentar o inverno rigoroso. Aniday é tratado como um bebezinho, enquanto se adapta, aos poucos, à fome quase permanente, ao desconforto, ao distanciamento de sua vida pregressa.
As fadas não são imortais, mas podem viver centenas de anos sem aparentar sinais de envelhecimento. Quando percebe que já não controla a passagem do tempo, Aniday decide escrever um diário.
Vivendo sua vida humana, Henry causa estranheza à sua família porque demora a crescer como um menino normal, tem estranhas mãos brancas e longuíneas, e vive cantarolando pela casa. Ele tem uma linda voz e demonstra talento musical. Levado a um professor de piano, acaba desenvolvendo suas habilidades, fazendo apresentações públicas, tentando mais e mais se integrar à sua família humana.
Aniday, por sua vez, mergulha na vida da floresta, ganha confiança do grupo e goza cada vez de mais liberdade em suas investidas na cidade. O que ele procura é papel para escrever o diário e livros da biblioteca local. Ele e sua melhor amiga, Speck, transforam o subsolo da biblioteca em um refúgio particular. Lá eles lêem e escrevem, tentando escapar um pouco das dificuldades da vida na floresta.
Acompanhamos a vida de ambos à procura de uma identidade que sempre lhes escapa. Henry nunca consegue esquecer sua vida antes das fadas, numa aldeia alemã; e Aniday jamais se afasta totalmente de seus pais e irmãs, e de um futuro que lhe foi usurpado.
O livro alterna capítulos na voz de Henry e Aniday. Nenhum deles encontra felicidade verdadeira, embora todas as chances estejam do lado de Henry. Mas nem a faculdade, o talento musical, o casamento e paternidade o satisfazem como indivíduo, e ele passa a desenvolver um medo quase paranóico em relação ao sequestro de seu próprio filho.
A vida de Aniday, por outro lado, é tão mais dura quanto o fato de ele não querer esquecer sua vida anterior, estando impedido, portanto, de pertencer totalmente ao mundo das fadas, onde ele enfrenta muito mais perdas do que acredita ser capaz de suportar.
Ambos só encontrarão paz quando alcançarem suas realizações. Henry através da música e Aniday com seu livro de memórias, que por fim conclui que as fadas já não representam problema para as crianças do mundo moderno, porque perigos muito mais reais estão à espreita.
O final acena com a procura de Aniday por um nome, um amor, uma esperança. Seu legado, um livro. Para lembrar de tudo.
O autor Keith Donohue é casado e pai de quatro filhos. Foi redator de discursos por oito anos e atualmente trabalha num órgão governamental ligado à preservação cultural dos Estados Unidos. Este é seu livro de estréia, traduzido em mais de vinte países. Escrito como uma fábula, uma fantasia contemporânea, uma original história de fadas cujo significado é a perda da identidade e a busca desesperada por um lugar no mundo que preencha o coração.


Primoroso e emocionante, o romance é uma obra de rara delicadeza, que ilumina e inspira, ao mesmo tempo que nos assombra em relação ao futuro de nossas crianças.






Esta resenha foi publicada originalmente na coluna do Terra Magazine, por Roberto Causo e foi escrita por Finisia Fideli. Foi postada aqui com autorização da autora. Para ler a resenha em seu contexto original, clique no link abaixo:






O conto "Exercícios de Silêncio", de Finisia Fideli, está na antologia Os Melhores Contos Brasileiros de Ficção Científica (Devir, 2007)