quinta-feira, 1 de maio de 2014

Uma típica família americana. Só que não.




Conheçam Phillip (Matthew Rhys) e Elizabeth Jennings (Keri Russell), um casal comum que vive na capital americana - Washington - durante o início da década de 80 (em plena Guerra Fria) e ainda arranja tempo para dirigir uma agência de viagens e cuidar de dois filhos: Paige (Holly Taylor) e Henry (Keidrich Sellati). A típica família dos subúrbios americanos, certo? Errado. O que ninguém sabe é que Phillip e Elizabeth não existem, porque as duas pessoas que assumiram tais identidades são agentes da Diretoria S - a mais secreta divisão da KGB - que se infiltraram em território americano há anos e vêm espionando e sabotando o país em que vivem.


Atualmente em sua segunda temporada, a série se chama The Americans e nela podemos acompanhar o casal russo e a sua rotina de espionagem e paranóia, recebendo e repassando informações a seus superiores enquanto vivem a (fachada da) perfeita vida de um patriota americano. Para complicar ainda mais as coisas, logo no primeiro episódio, muda-se para a casa vizinha um agente do FBI, especializado em contra-inteligência: seu trabalho é pegar espiões. E vale ressaltar que é extremamente interessante ver como Phillip e Elizabeth reagem e fingem sempre que estão na presença do vizinho, o agente Stan Beeman (Noah Emmerich).


Tendo abandonado suas vidas na Rússia e se mudado para o outro lado do mundo com um companheiro que nunca antes tinham conhecido (e com o qual deveriam construir o perfeito relacionamento e gerar filhos para melhorar seus disfarces), o casal de espiões demonstra ter o toque certo para transmitir as dificuldades enfrentadas por agentes infiltrados. Vemos os problemas óbvios na relação forjada pela obrigação para com seu serviço militar e como este mesmo relacionamento evoluiu com o passar dos anos para se tornar algo além de meramente uma missão.


O atores principais, Matthew Rhys e Keri Russell, possuem uma química inegável em cena e impressionam pela forma como conseguem mudar do simples e comum casal suburbano que pode estar assando uma torta de maçã para a dupla de agentes secretos com instintos mais do que assassinos em questão de segundos. Junte-se a isso a maquiagem fenomenal quando ambos se passam por outras pessoas, geralmente do governo americano, no objetivo de cumprir a missão ou conseguir a informação que querem. Uma das situações em que isso ocorre é quando Phillip se passa por um agente do governo chamado Clark (com direito a uma convincente peruca e óculos) e conquista e passa a namorar a secretária do chefe do FBI, Martha Hanson (Alison Wright), no intuito de obter informações internas.


The Americans é uma série incrivelmente bem construída e passa aos espectadores alguns dos detalhes mais nebulosos que envolviam a espionagem de baixa tecnologia durante a Guerra Fria. É extremamente interessante ver como as informações era passadas para os superiores e repassadas aos agentes em campo. Ponto positivo ainda pela atuação de Margo Martindale como Claudia, a supervisora idosa dos espiões russos que consegue ser mais assustadora do que alguns vilões de James Bond.


Assim como nos impressiona o milagre que os agentes faziam, em campo, contando apenas com suas habilidade e pouquíssima tecnologia, também é legal notar o gigantesco abismo que exemplifica a diferença entre as culturas norte-americanas (com seu american way of life) e a soviética (com seu rigor e contenção, em especial com relação ao consumismo). É fascinante poder acompanhar o ‘outro lado’ da Guerra Fria, uma vez que é muito mais comum vê-la sob a perspectiva americana. E é divertido a ponto de quase nos fazer torcer pelos vilões… e quem são os vilões? Bom, isso fica a critério do espectador.


"The Americans". Título original: "The Americans - First and Second Season". Ano: 2013-2014. Nacionalidade: EUA. Diretor: Adam Arkin, John Dahl, Daniel Sackheim e Thomas Schlamme. Roteiro de: Joseph Weisberg, Mike Batistick, Joel Fields, Joshua Brand e Melissa James Gibson. Produzido por: Joshua Brand, Justin Falvey, Joel Fields, Darryl Frank, Joseph Weisberg, Graham Yost, Mitch Engel e Adam Arkin. Estrelando: Keri Russell, Matthew Rhys, Annet Mahendru, Noah Emmerich, Alison Wright, Richard Thomas e Margo Martindale. Com: Holly Taylor, Keidrich Sellati, Susan Misner e Lev Gorn. Música de: Nathan Barr. Duração: 13 eps. Resenha escrita por: Guilherme R. Aleixo. Nota: 9,0/10.

terça-feira, 15 de abril de 2014

Um conto de outros deuses






Antes de iniciar a leitura, achava difícil entender como a fórmula usada em Percy Jackson poderia não ter dado certo com a criação da série As Crônicas dos Kane, também de Rick Riordan, e cujo primeiro livro - A Pirâmide Vermelha - terminei de ler recentemente. A fórmula é parecidíssima: deuses personificados e atuantes ainda hoje, poderes místicos, protagonistas adolescentes e bastante sarcásticos e, até mesmo, com a história se passando no mesmo universo onde se passam as aventuras de Percy e seus companheiros semideuses (com inclusive cenas hilárias que mencionam os deuses gregos).

Então, por que razão A Pirâmide Vermelha não alcançou o sucesso imediato com o primeiro livro da série, tal qual O Ladrão de Raios? Na minha opinião, isso se deve a uma questão cultural. E explico: enquanto a série Percy Jackson trata de adolescentes que são filhos dos deuses gregos com humanos, criando assim os semideuses, nas Crônicas dos Kane a coisa é um pouco diferente. Carter e Sadie Kane são irmãos que só se encontram umas duas vezes ao ano. E isso porque Carter viaja com o pai, um egiptólogo famoso, enquanto a menina vive com os avós na Inglaterra. Após a morte da mãe dos garotos, ele têm vivido separados e mal se conhecem até que seu pai, Julius Kane, explode o museu britânico e acaba liberando cinco deuses egípcios, obrigando que os irmãos se juntem para sobreviver. E o pior, por serem descendentes dos antigos faraós egípcios, são os receptáculos de dois dos cinco deuses libertados pelo pai, e agora se vêem em meio a uma batalha épica contra um deus do caos, Set.

O problema é, justamente, não haver uma identificação do público para com a mitologia egípcia. Quando eu digo que Hórus (filho de Osíris e Ísis e que, na mitologia, tornou-se o rei dos vivos no Egito - enquanto seu pai é dos mortos) é o deus que pegou uma carona em Carter e que Ísis (a deusa da maternidade e da fertilidade e protetora da natureza e da magia) é a deusa a ser carregada em Sadie, o leitor não tem idéia da aparência, ou da mitologia por trás de tais entidades. Por outro lado, caso eu fale sobre as barbas de Zeus ou os poderes de Poseidon, nenhuma outra explicação se faz necessária, uma vez que tais imagens são corriqueiras na cultura ocidental.

Obviamente que esse problema de conflito de culturas não é culpa de Riordan ou mesmo dos leitores, é apenas a grande motivação, na minha opinião, para que a história não tenha alcançado o sucesso que Percy Jackson e os Olimpianos alcançou. A cultura e mitologia egípcias são tão ricas e interessantes quanto as gregas e romanas, no entanto, para compreender completamente a narrativa uma pesquisinha rápida se faz necessária.

A parte boa é que Carter e Sadie são tão leigos (ou quase) em egiptologia quanto os leitores, o que torna a narrativa bastante didática. O sarcasmo e as línguas-adolescentes-afiadas, tão presentes na série greco-romana, também aqui se fazem presentes nos dois irmãos que não param de se provocar e alfinetar. E, embora exija um trabalho um pouco mais apurado para se apreciar completamente a leitura, a série egípcia segue o mesmo caminho da de Percy: é divertida, interessa e merece, sem dúvidas, ser lida.

Rick Riordan, A Pirâmide Vermelha (The Red Pyramid) , Ed. Intrínseca, 448 pgs., R$ 34,00.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Perdendo a inocência, com brilhantismo



Alasca Young era uma garota linda, engraçada, sarcástica, problemática, pervertida, inteligente e com uma língua extremamente afiada. Era viciada em livros, cigarros, vinho barato, sexo e em pregar pegadinhas em seus colegas de escola (as mais épicas e originais, pelo que dizem). Muitos gostavam dela, muitos não gostavam e alguns até mesmo se apaixonaram por ela.

Mas, por incrível que pareça, essa não é a história de Alasca Young. Essa é a história de Miles ‘Gordo’ Halter, um garoto tímido e magricela que coleciona as últimas palavras de pessoas famosas. Sem amigos, o garoto decide partir em busca daquilo que o poeta François Rabelais, quando estava à beira da morte, chamou de o “Grande Talvez”. É com isso em mente que o garoto se muda para longe dos pais para o internato Culver Creek, onde conhece Chip "o Coronel" Martin e Alasca Young. Quando, portanto, eu te contar o nome deste livro é Quem é Você, Alasca? e que Alasca Young morre mais ou menos na metade do romance, você não ficará surpreso ao saber que este é o primeiro romance do (agora famoso) autor John Green - famoso por suas histórias tocantes que sempre envolvem amor e, claro, morte.

John Green é um escritor relativamente iniciante, mas incrivelmente hábil na sua escrita. Seu trabalho realmente se destacou com o livro A Culpa é das Estrelas (que chega ao cinema em breve) e que conta a história de uma garota com câncer terminal que namora (adivinhem, adivinhem!) um garoto que também tem câncer. Mas nesse primeiro romance do autor já vemos o quanto ele promete alcançar, pois é uma obra-prima de reflexão e auto-análise frente a um dos grandes mistérios da vida. E, assim como nós, Miles e o Coronel têm de encarar a partida brusca daquela que parece ser o centro de seu jovem mundo, sem motivos e razões e sem explicações.

O livro é dividido em duas partes: Antes e Depois, sendo feita uma contagem regressiva desde a primeira página (achei a estratégia muito interessante). Sabendo que John Green não costuma poupar a dor de seus leitores, sempre fica a sensação de que a contagem regressiva não é para algo positivo. E logo quando você pensa que talvez estivesse enganado, a contagem chega a zero e você percebe que estava certo o tempo inteiro e sente o nó na garganta pela perda de uma personagem tão cativante. É claro que a morte de Alasca não é exatamente spoiler, uma vez que o nome do livro já mostra a importância da moça, sendo seguida por “O primeiro amigo, a primeira garota, as últimas palavras” na capa. E quando chega a hora, você não sabe o que esperar e mesmo quando descobre aquilo que provavelmente aconteceu, o leitor, assim como Gordo, torce para estar errado, pedindo a qualquer entidade em que possa pensar para que algo muito ruim não tenha acontecido. E, como na vida, isso não faz diferença alguma.

A sensação que fica ao ler sobre a derrocada pós-falecimento é de uma tristeza profunda não só para os personagens como para os leitores. Isso porque, em algum nível, todos gostamos e queremos ser um pouco Alasca: a rebelde sem limites, que se diverte com os amigos e faz o que quer na tênue linha entre a legalidade e a expulsão. E quando a sua partida ocorre, ficamos esperando por uma explicação que nunca chega. E nunca chegará. As últimas palavras do poeta François Rabelais foram: "Saio em busca de um Grande Talvez". E a obra de John Green mostra as inúmeras possibilidades do Grande Talvez. E a incerteza que acompanha inerentemente essa possibilidade. John Green usa Alasca e Gordo para mostrar o quanto é fácil perder a inocência de que somos todos imortais e indestrutíveis. E ele faz isso com um brilhantismo digno dos maiores mistérios da vida humana. Digno do Grande Talvez.

John Green, Quem é Você, Alasca? (Looking for Alaska), Ed. Martins Fontes, 240 pgs., R$24,90.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Nada de elementar, meu caro Watson



Quem acompanha os seriados do canal britânico BBC provavelmente está acostumado a um alto padrão em termos de qualidade ou ao menos de entretenimento. Séries como Doctor Who ou Downtown Abbey merecem ser ser apreciadas por sua qualidade indiscutível. No entanto, na minha humilde opinião, uma das séries mais divertidas do canal é a deliciosa Sherlock, que conta a história de (surpresa!!) Sherlock Holmes - o amado detetive britânico genial criado por Arthur Conan Doyle.
O seriado iniciado em 2010 terá a estreia de sua terceira temporada hoje, dia 1º de janeiro, após mais de uma ano sem episódios inéditos. O retorno demorou a acontecer para a série britânica pois a equipe que produz Sherlock é a mesma que produz a série Doctor Who, que em 2013 teve diversos especiais em comemoração aos seus 50 anos de existência. Logo, a equipe, liderada pelo produtor executivo e criador do show, Steven Moffat, optou por adiar a volta do detetive para o início de 2014 e usar o ano que acabou para focar em Doctor Who. Dito e feito, cá estamos, após a virada do ano, com o retorno do maior detetive que já existiu.
Para quem não conhece, a série conta a história do veterano John Watson (Martin Freeman) que ao voltar de um período no Afeganistão, onde era médico do exército, procura um lugar barato e bem localizado para morar em Londres e acaba encontrando uma boa oportunidade para dividir um apartamento em Baker Street (Rua Baker) ao lado do excêntrico detetive particular Sherlock Holmes (o incrível Benedict Cumberbatch). Não demora nada e logo Watson é cativado e envolvido nos mistérios que Sherlock tenta desvendar e passa a ajudá-lo em suas investigações (servindo assim como um guia para os telespectadores, apresentando-lhes os detalhes que Sherlock pensa serem tão óbvios mas que ninguém mais consegue notar).
E, no decorrer das duas temporadas já lançadas - cada uma com apenas três episódios de cerca de 1h ou 1h30, acompanhamos os maiores mistérios que as mentes criminosas da Europa conseguem criar, incluindo aqui a aparição especialíssima do impressionante e arrepiante arqui-inimigo de Sherlock, o gênio do crime: James ‘Jim’ Moriarty (Andrew Scott).
Para os fãs do detetive britânico, Sherlock é um tesouro imperdível. Cada episódio se desenvolve e aprofunda como um filme de mistério linear e independente, mas sempre mantendo ao fundo uma linha narrativa que já conhecemos e adoramos. E vale ressaltar, é claro, o elenco de peso e incrivelmente talentoso: Sra. Hudson (Una Stubbs), Detetive e Inspetor Lestrade (Rupert Graves), Molly Hooper (Louise Brealey), Mycroft Holmes (Mark Gatiss), Jim Moriarty (Andrew Scott), Sgt. Sally Donovan (Vinette Robinson) e Anderson (Jonathan Aris).
O gancho deixado em aberto ao final da segunda temporada… bom, foi chocante e todos aqueles que acompanham o seriado estão loucos pela explicação que será dada. O retorno de Sherlock e o quanto essa série é genial… uma coisa eu posso dizer: com uma roteiro genial como esse, o famoso ‘elementar’ não poderia ser mais certeiro.
Sherlock (1ª e 2ª Temporadas). Título original: Sherlock (Seasons 1 - 2). Ano: 2010 - 2014. Nacionalidade: Reino Unido. Criadores: Steven Moffat, Mark Gatiss. Elenco: Benedict Cumberbatch, Martin Freeman, Andrew Scott, Rupert Graves, Mark Gatiss, Louise Brealey, Una Stubbs, Vinette Robinson e Jonathan Aris. Duração: Primeira temporada - 4 epis (90 min). Segunda temporada - 3 epis (90 min). Resenha escrita por: Guilherme R. Aleixo. Nota: 9,5/10.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Não há nada como olhos azuis e gravidade zero



Baseado no livro de imenso sucesso e mesmo nome, Ender’s Game - O Jogo do Exterminador (Ender’s Game, EUA, 2013) chega ao Brasil nesta sexta-feira, 20/12, com a promessa de um longa-metragem de ficção científica belo e cativante. E alcança ao menos a metade do que foi prometido - o que é sempre uma vitória.

Acompanhei o filme em uma sessão privada (cortesia da Paris Filmes) e devo dizer que uma coisa o filme consegue: embasbacar com a beleza visual. Tanto que já me comprometi a assisti-lo novamente nos cinemas, com direito a 3D, IMax e tudo o mais a que tiver direito. O longa é uma obra de arte visual, não há como negar. Ao menos o ponto de filme de ação divertido ele conseguiu alcançar. No entanto, a história a que se propõe a contar é muito mais profunda do que isso e, neste quesito, o diretor sul-africano Gavin Hood (de X-Men Origens: Wolverine e O Suspeito) decepciona um pouco.

Do princípio, a história gira ao redor do gênio mirim Andrew ‘Ender’ Wiggin (Asa Butterfield, de A Invenção de Hugo Cabret) que é chamado para frequentar a Escola de Combate - uma estação espacial que orbita a Terra e que serve para treinar soldados para a guerra contra os Fórmicos (aliens insectóides que quase levaram os humanos à extinção) - e, por isso, deve abandonar a família para se tornar um soldado. Logo ele deixa para trás a amada irmã Valentine (Abigail Breslin) e o violento irmão Peter (Jimmy Pinchak) e parte junto ao Coronel Graff (Harrison Ford) rumo ao espaço. E lá ele é treinado para ser o comandante e líder que a humanidade precisa para alcançar a vitória na guerra que virá.

A série de livros escrita por Orson Scott Card em 1977 (e traduzida no Brasil pela editora Devir) se mostra uma grande surpresa para aqueles que não conhecem a ficção científica como um estilo literário profundo e amplo. A história de Ender Wiggin é muito mais profunda do que raios laser e naves espaciais (embora contenha essas coisas): a história de Ender consiste em uma viagem àquilo que o ser humano tem de pior. É a história do fim da infância devido à guerra e à violência, como vemos na África ainda hoje, só que se passando em um futuro avançado tecnologicamente. É um conto sobre um medo tão profundo da extinção que se ultrapassa todo e qualquer limite para evitá-la. É uma jornada sobre se encontrar, descobrir quem e o que você é e decidir se vai encarar o monstro que há em você ou se vai fugir quando for a hora.


“No momento em que eu verdadeiramente compreendo meu inimigo, compreendo bem o suficiente para derrotá-lo, então, naquele exato momento, eu também o amo. Creio ser impossível realmente compreender alguém, o que querem, no que acreditam, e não amá-los da mesma forma como eles amam a si mesmos. E então, no exato momento em que eu os amo… Eu os destruo.” 

- Andrew ‘Ender’ Wiggin.


Sou suspeito para comentar, pois sou fã da série de Scott Card desde que coloquei minhas mãos no primeiro livro. Portanto, foi com a expectativa lá em cima que me sentei na sala escura para começar a assistir ao longa-metragem. E isso eu posso dizer: o filme é extremamente fiel ao livro de mesmo nome. É perfeito? Não, não é. Isso simplesmente pelo fato de adaptar um livro cheio de informações em pouco menos de duas horas de roteiro. Mas a adaptação é boa e, embora não chegue à profundidade alcançada pela edição impressa, a narrativa é bem conduzida para um filme de ação.

Achei o início do filme apressado, passando tão rápido pela aparição de Valentine e de Peter que mal notamos a importância deles - que é grande uma vez que a personalidade de Ender é formada pelo lado sentimental que vem da irmã e pelo lado violento e perigoso que vem do irmão. Mas logo somos apresentados à Escola de Combate com seu domo transparente em pleno espaço sideral onde ocorrem os treinamentos em zero gravidade. À medida que os minutos voam pela tela, o espetáculo visual impressiona, embora nem sempre os atores o façam.

Asa Butterfield que esteve tão bem em Hugo Cabret deixa um pouco a desejar no papel principal, com os olhos cheios de lágrimas em mais vezes do que consegui contar (em alguns momentos encaixa, em outros parece exagerado). Por outro lado, atores como Harrison Ford, Hailee Steinfeld (a companheira mirim de Ender, Petra Arkanian), Abigail Breslin (que pouco aparece, mas convence como Valentine), Ben Kingsley (como um ótimo Mazer Rackham) e Viola Davis (como a Major Gwen Anderson) roubam a cena sempre que aparecem. Destaque mais do que merecido para Harrison Ford e Viola Davis, que têm discussões incrivelmente poderosas e desenvolvem diálogos impressionantes apesar do papel coadjuvante.Algumas atuações mirins são boas, como as de Aramis Knight (Bean) e Suraj Partha (Alai), além de, é claro, Hailee Steinfeld.

Vale lembrar que a fotografia é ótima e o roteiro foi bem adaptado, embora talvez não tão bem conduzido quanto deveria. A trilha sonora conduz bem e, embora não seja tão marcante, consegue arrepiar nos momentos necessários e levar àquele clímax que estávamos esperando. E sim, nós sabemos que Asa Butterfield tem olhos incrivelmente azuis e brilhantes, mas os closes dados pela câmera em seu rosto se tornaram cansativos e repetitivos já depois da primeira hora de filme.

No cálculo geral, O Jogo do Exterminador pode ser apontado como um filme ótimo para as crianças e para os fãs da série de Card, além de geeks que gostem de space operas. É, sim, um filme de ação belo e cheio de explosões (embora não tão legal quanto o livro, não canso de lembrar) que diverte e merece ser visto. Ah, e merece reconhecimento também pelas batalhas em gravidade zero (que espetáculo!), lindamente feitas.

Apesar das críticas, realmente gostei do filme (já me comprometi a comprar o DVD assim que for lançado, como bom colecionador que sou) e estou torcendo pela confirmação de uma continuação. E gostei tanto que estou disposto a voltar ao cinema só pra ver de novo. E se o filme agradou a um fã xiita como eu a ponto de me fazer voltar para um segundo round, só posso dizer que alguma coisa certa ele fez. Apesar do excesso de olhos azuis em closes.

"Ender's Game - O Jogo do Exterminador". Título original: "Ender's Game". Ano: 2013. Nacionalidade: EUA. Diretor: Gavin Hood. Roteiro de: Gavin Hood, Orson Scott Card. Produzido por:  Orson Scott Card, Robert Chartoff, David Coatsworth, Deborah Del Prete, Lynn Hendee, Aaron Johnstone Alex Kurtzman. Estrelando: Asa Butterfield, Harrison Ford, Ben Kingsley e Viola Davis. Com: Hailee Steinfeld, Aramis Knight, Suraj Partha, Abigail Breslin, Moises Arias e Jimmy Pinchak. Música de: Steve Jablonsky. Duração: 114 minutos. Resenha escrita por: Guilherme R. Aleixo. Nota: 7,5/10.

domingo, 6 de outubro de 2013

Goodbye, Bitch!






Como dito na recente resenha de Dexter (que você pode ver aqui), a moda dos seriados protagonizados por anti-heróis vêm marcando a presença na TV à cabo já tem uns bons anos. Para a vantagem dos telespectadores, claro. Isso porque personagens que não se prendem a limites morais e que traçam suas próprias regras se mostram protagonistas muito mais interessantes, na minha opinião.
Portanto não é surpreendente que um seriado como Breaking Bad faça tanto sucesso. Hoje, domingo 06/10, fez exatamente uma semana que foi finalizada a série criada por Vince Gilligan que conta a história de um professor de química de colegial que se descobre morrendo e, na tentativa de deixar algum dinheiro para sua família se manter após sua morte, acaba se tornando um dos maiores traficantes de metanfetamina dos EUA.
Com o decorrer das 5 temporadas que a série dura (de 2008 a 2013), acompanhamos o crescimento, ou talvez seja a decadência, do ingênuo e inofensivo professor de ensino médio Walter White (o inacreditavelmente bom Bryan Cranston) no seu alter-ego oposto, violento, frio, manipulador e calculista: Heisenberg. Não vou entrar em detalhes sobre como a série termina. Mr. White tem um câncer de pulmão incurável que o levará à morte, então é de se supor que ele não sairá do último episódio vivo. Mas ver a decadência física da personagem enquanto sua reputação apenas cresce é um prêmio à parte.

Aliás, vale ressaltar, que elenco estelar vemos em Breaking Bad. Quando Mr. White (ou Walt) recruta um ex-aluno seu, Jesse Pinkman (o incrível Aaron Paul, bitch!), você não sabe o que esperar. Isso simplesmente porque Jesse é tão obviamente um idiota no começo da história que é cômico. E ele é tão obviamente culpado de traficar drogas menores (e usá-las) que é surpreendente que não tenha ido pra cadeia. E seu costume de colocar o bordão ‘bitch!’ no fim de cada sentença é simplesmente divertidíssimo, bitch!

Outras personagens importantes (e um pouco irritantes) são a esposa de Walt, Skyler (Anna Gunn, que é ótima atriz encarnando uma personagem pra lá de chata) e sua irmã, Marie (Betsy Brandt). Embora Sky melhore no decorrer da série, ficando muito mais bad ass, Marie continua e mesma mala sem alça até o último episódio.

Depois também conhecemos o agente especial Hank Schrader (cansativo dizer que Dean Norris também é incrível?) do DEA - Agência de Combate às Drogas, em tradução livre - e que, por acaso também é cunhado de Walt. E mais pro fim do seriado, conhecemos o advogado porta-de-cadeia Saul ‘You better call Saul!’ Goodman (Bob Odenkirk, que de tão bom acabou ganhando um spin off próprio), que passa a ajudar Walter e Jesse a lavar o dinheiro conseguido com a venda de metanfetamina.

Pra quem não sabe, a metanfetamina é uma droga completamente produzida quimicamente e por isso é a opção mais viável para um genial professor de química que precisa de dinheiro rápido antes de morrer. Mas à medida que seu produto ganha reconhecimento pela alta qualidade, Mr. White e Jesse começam a lidar com os peixes grandes do tráfico de drogas. É nesse ponto que Walt assume o pseudônimo de Heisenberg (seu alter-ego de sangue-frio) e também é quando conhecemos personagens incríveis como Gustavo 'Gus' Fring (o assustador e magnífico Giancarlo Esposito), que é um traficante poderoso e multimilionário e que se disfarça de gerente de lanchonete; e seu braço direito (bem armado), Mike Ehrmantraut (o ainda-mais-assustador-e-com-olhos-mortos Jonathan Banks) que é quem cuida da ‘segurança’, que em outras palavras significa fazer o trabalho sujo.

Não vou entrar em mais detalhes. Quem assiste/assistiu Breaking Bad sabe o quanto a série é espetacular. E ficou marcada como uma das melhores exibidas na televisão nos últimos anos. Fica marcado os meus parabéns para o canal AMC e para o criador Vince Gilligan. Não à toa foi indicado umas 15 vezes à prêmios, só nesse ano de 2013 (segundo minha contagem ultra-rápida no IMDB), ganhando muitos deles. Agora, se você nunca acompanhou a série, mas gosta de explosões, sangue, violência e tudo o mais a que se tem direito para que você próprio não se transforme num psicopata/traficante/mercenário, eu recomendo muito que você assista. Me agradeça depois.

Sobre o último episódio de Breaking Bad, este se chama ‘Felina’ e, ao contrário de uns outros episódios finais de séries foi à altura dos fãs e de todos os episódios que o antecederam (chupa Dexter). Dei uma pesquisada e além de o título formar um anagrama para ‘finale’, ainda faz referência a uma música de 1959, que toca durante o episódio. Essa música se chama ‘El Paso’ de Marty Robbins e conta a história de um cowboy sem nome que se apaixona por uma mulher chamada Felina, é baleado por seus inimigos e morre nos braços da amada. Não vou dar spoilers, mas eu diria que a música não só encaixou perfeitamente no episódio como levou a compreensão das cenas finais a outro nível. Resumo da ópera que é a jornada de Walter ‘Heisenberg’ White: espetacular, incrível, imperdível (bitch!).

Título original: "Breaking Bad - Season 1-5". Ano: 2008-2013. Nacionalidade: EUA. Dirigido por: Michelle MacLaren, Adam Bernstein, Vince Gilligan, Colin Bucksey, Michael Slovis, Bryan Cranston, Terry McDonough, Johan Renck, Rian Johnson. Roteiro de: Vince Gilligan, Peter Gould, George Mastras, Sam Catlin, Moira Walley-Beckett, Thomas Schnauz, Gennifer Hutchison, John Shiban, J. Roberts e Patty Lin. Produzido por: Vince Gilligan, Mark Johnson, Melissa Bernstein, Stewart Lyons, Sam Catlin, Diane Mercer. Estrelando: Bryan Cranston, Anna Gunn, Aaron Paul, Dean Norris, Betsy Brandt e RJ Mitte. Com: Bob Odenkirk, Steven Michael Quezada, Jonathan Banks e Giancarlo Esposito. Música de: Dave Porter. Duração: 62 eps. Resenha escrita por: Guilherme R. Aleixo. Nota: 10/10.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Morto e enterrado






Desde The Sopranos,  a moda dos seriados protagonizados por anti-heróis vêm marcando a presença na TV à cabo com grande sucesso. É o caso de seriados como Dexter e Breaking Bad, entre outros. Faz poucos dias que foi finalizada a série Dexter, que conta a história de um serial killer que opta por assassinar criminosos, baseando-se em um estrito código moral criado por seu pai policial.

Para ser sincero, me dói resenhar sobre o final de Dexter. Isso porque a série foi resenhada por mim mesmo em 2011, aqui neste mesmo blog. Tinha falado de como tinha gostado da primeira temporada da série (veja a resenha aqui) e como a série prometia ser uma das melhores da televisão. E foi. Mas infelizmente os produtores decidiram continuá-la após o seu auge, o que garantiu ao menos três ou quatro temporadas de puro declínio para o desespero e insatisfação dos fãs. Esse erro de julgamento fez com que a série desaparecesse da mídia e caísse no desgosto do público, arrastando-se pelos úlimos anos como alguém à beira de uma morte nada agradável. Dito e feito.

Após a incrível quarta temporada, com um dos melhores vilões que o seriado já viu - o Trinity Killer (o espetacular e arrepiante John Lithgow) -, e a morte de uma personagem tão i(rritante)mportante quanto Rita (Julie Benz), a série descambou para vilões e discussões mais fracas. Embora Dexter Morgan (o brilhantíssimo Michael C. Hall, que continuou com uma atuação inacreditável apesar dos altos e baixos da série e apesar de seu próprio câncer) ainda fosse o assassino que tanto amamos, começou a ter dilemas mais humanos e problemas mais corriqueiros, o que de nenhuma forma desmerecia o personagem. Apenas entediava os espectadores.

A série recuperou o fôlego, mesmo que momentaneamente, quando o segredo de Dexter foi descoberto pela sua irmã, a detetive Debra ‘Fucking’ Morgan (Jennifer Carpenter, uma das poucas qualidades da série até seu derradeiro fim), durante a sexta temporada. Ainda que o conflito gerado tenha rendido alguns momentos de aflição e desespero, os assassinos foram se tornando mais entediantes e previsíveis. Dexter não tinha real competição e, embora tentassem, os roteiros simplesmente não prendiam como antigamente. A verdade é que estava difícil acreditar que o segredo de Dexter, ou ele próprio, corriam qualquer risco.

A oitava temporada chegou com um suspiro de alívio pelo conhecimento de que seria a última e não haveria mais espaço para estragar algo que já fora bom. É com essa impressão que encerrei a série, ainda que o final-final tenha sido pra lá de desapontador, como já imaginava, mas tinha esperança de estar errado. A questão é que a série vinha definhando e não havia final que fosse de fato agradar aos fãs. Mas isso não é desculpa pra o - e desculpem a expressão - brochante desenrolar que culminou na conclusão do último episódio. A dura verdade é que se a série tivesse sido brutalmente cancelada antes, o final não teria sido mais insatisfatório.

Embora tenha sido grande e boa, a série acabou não dando certo. Antes a tivesse tido menos enrolação, seu final teria agradado um pouco mais (ou agradado um pouco que seja). Uma pena. Com o perdão dos trocadilhos, mas Dexter tinha tudo pra ter um final matador e não um final tão morto. Tanto para os fãs quanto para a mídia.

Título original: "Dexter - Season 1-8". Ano: 2006-2013. Nacionalidade: EUA. Diretores: John Dahl, Steve Shill, Keith Gordon, Marcos Siega. Roteiro de: Scott Buck, Karen Campbell, Daniel Cerone, Manny Coto, Charles H. Eglee. Produzido por: Sara Colleton, John Goldwyn, Robert Lloyd Lewis, Scott Buck, Gary Law, Tim Schlattmann, Lauren Gussis, Michael C. Hall, Wendy West. Estrelando: Michael C. Hall, Jennifer Carpenter, Lauren Vélez, David Zayas, James Remar, C. S. Lee, Erik King, Geoff Pierson. Música de: Daniel Licht. Duração: 96 eps. Resenha escrita por: Guilherme R. Aleixo. Nota: 7,5/10.